Exclusivo O inseguro futuro

A guerra de 1939-1945, tendo entre a memória das suas consequências a globalização do desastre, conduziu ao projeto, com memória múltipla secular e sempre impossível de efetivar, de estabelecer uma estrutura da ordem pacífica mundial, que teve como centro a organização da ONU. Não sendo justo esquecer os serviços prestados à humanidade pelas suas organizações, é impossível a tranquilidade ao ouvir as intervenções, dirigidas ao globo, na 75.ª reunião da Assembleia Geral da ONU, pelas duas grandes potências que são os EUA e a China. Temos proximidade entre esta Assembleia Geral e a celebração dos 70 anos da NATO, cujo conceito estratégico, aprovado em 2010, visava a defesa coletiva, gestão de crises e segurança coletiva. A complexidade da conjuntura, que torna imprevisível o futuro deste século, recorda a visão de John Rawls, (Theorie of Justice, 1971), quando acentuou que as "construções jurídicas estendem seu "veil of ignorance" sobre a realidade anunciada pela guerra, mas não lidas pelas teorias da "nacional choice".

O facto desafiante é que a realidade desenvolveu uma interdependência global de todas as antigas supremacias, mas a Carta da ONU não disciplinou esse desenvolvimento. Talvez o conflito do discurso de Trump, nos seus sete minutos de imputação à China da responsabilidade pela propagação da pandemia de covid-19, tornasse esclarecedora a resposta de Xi Jinping de que nenhum país pode ser o "chefe do mundo". Na Assembleia talvez algum delegado presente tenha recordado que o general Ben Hodges, ex-combatente das forças americanas, deixou em 2018 o aviso público de que "EUA e China estarão em guerra dentro de quinze anos". Poderá ser mais um desastre global, filiado, entre razões abrangentes, pelo facto de a Carta da ONU ser mais um capítulo da ocidentalização do mundo, sem participação da pluralidade de etnias e culturas que não aderiram globalmente nem ao passado nem ao futuro proposto. Os analistas não se defrontam com um "mundo único" no sentido da Carta da ONU, mas com a exigência do pluralismo da realidade de propor, nem sempre coletivamente com paz, traçar linhas vermelhas sobre o globo político, que dão explícita e diferente identidade aos EUA, Europa, Rússia, China, Médio Oriente, África, Ásia, América Latina, um assumido "mundo em competições". E, porque é de origem ocidental a ONU, é necessário avaliar a real consistência, sem cortes, da solidariedade que definiu indispensável. Como foi dito, "não se trata de lecionar sobre navegação, enquanto o barco se afunda", mas de assegurar que se respeita, com alterações participadas, o original projeto de ocidentalizar o mundo, procurando manter a básica definição cultural e científica de que se ocupou Jacques Barzun com o seu notável Da Alvorada à Decadência.

Parece que o princípio dominante do "conceito estratégico americano" é o de assumir a posição de mundial dirigente. Talvez esqueça que o presidente Kennedy tenha sido, na sua curta vida, o que mais claramente afirmou a orientação da superioridade ética perante o mundo, ao qual deveriam provar que era uma tarefa nobre assegurar a vida dos homens, apoiar a vida justa dos homens e a organização das sociedades sobre a liberdade humana. Demonstrar que a democracia americana resolve os seus problemas com o consentimento de todos, dentro da justiça e da igualdade: "A nossa democracia deve provar que tão capaz ela é de lutar pacientemente mas com clarividência e paixão em favor da liberdade humana na Ásia, no Próximo Oriente, na África e na América do Sul como de fazer frente à superioridade atualmente detida pelos soviéticos no domínio dos satélites artificiais." O atual discurso americano presidencial, na Assembleia Geral da ONU, dificilmente teve qualquer lembrança desta parte da crónica da função que exerce. E também, ao contrário da União Europeia, onde está a raiz do ocidentalismo, continua a ignorar que cada Estado tem o dever de respeitar a cooperação global.

A contribuição deste discurso começa por enfraquecer mais profundamente a esperançosa utopia da fundação da ONU, e limita a pregação da esperança que apoiaram no sucessivo convite aos sucessivos papas, Paulo VI, João Paulo II por duas vezes, o papa emérito, e, por último, o papa Francisco, que os cardeais foram buscar ao fim do mundo. Este, numa das suas famosas entrevistas, contou que, bispo em Buenos Aires, uma mãe, com uma criança ao colo, lhe pediu ajuda porque o filho estava a morrer de fome. Ele respondeu-lhe que era sábado e que segunda-feira a socorreria. A mulher respondeu-lhe "mas o meu filho está a morrer de fome neste sábado, não é na segunda-feira". Ele socorreu-a imediatamente e passou a pregar que "em nenhum sábado se pode ficar à espera de segunda-feira". São excessivamente numerosos os responsáveis dirigentes que não entenderam o conceito.

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