Pedro Adão e Silva. O académico surfista que passou de comentador a comentado 

Escolha do comissário para as comemorações dos 50 anos do 25 de abril está a provocar fortes críticas à direita. Marcelo Rebelo de Sousa saiu em respaldo da escolha do primeiro-ministro.

É o primeiro passo a caminho das comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos e já está instalada a controvérsia. A escolha de Pedro Adão e Silva para comissário das comemorações do 25 de Abril - e sobretudo a duração do mandato e as condições financeiras do cargo - estão a provocar uma torrente de críticas à direita. Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, fala num "insulto aos portugueses". Rui Rio sugeriu que se trata de uma "compensação" por "vender propaganda socialista". João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, desafiou Adão e Silva a "usar o seu longuíssimo mandato e recursos disponíveis para organizar também as celebrações dos 50 anos do 25 de Novembro".

Adão e Silva, sociólogo e comentador político, foi a escolha de António Costa para definir o programa das comemorações do meio século da Revolução. De acordo com a resolução do Conselho de Ministros publicada a 27 de maio, o mandato iniciou-se no dia seguinte e prolonga-se até 31 de dezembro de 2026. A extensão, um dos pontos que está a gerar controvérsia, é justificada no documento com o facto de as comemorações abrangerem todo o período eleitoral dos primeiros anos da democracia - "O propósito destas celebrações é juntar, no mesmo ciclo, um arco democrático que se iniciou no 25 de Abril de 1974 e que, ao longo do ano de 1976, passou pela aprovação da Constituição, pelas primeiras eleições legislativas, presidenciais e regionais e que culminou com as autárquicas no final desse mesmo ano".

De acordo com a resolução do Conselho de Ministros, o comissário executivo das comemorações será equiparado, na remuneração, a dirigente superior de primeiro grau da Administração Pública, o que significa um salário bruto de de 3745,26 euros e 780,36 euros em despesas de representação. Terá um comissário adjunto e uma estrutura técnica com um máximo de oito pessoas, equiparados a "membros de gabinete de um membro do Governo" - três adjuntos; três técnicos especialistas; um secretário pessoal e um motorista. O documento diz que estas funções podem ser acumuladas com a docência.

O que não vai acontecer, segundo o próprio. Ao DN, Pedro Adão e Silva diz que já comunicou ao ISCTE , onde leciona, que vai suspender o seu vínculo laboral, pelo que o salário que lhe é atribuído como comissário executivo das comemorações substitui o de professor auxiliar. Quando muito, acrescenta, manterá uma cadeira por semestre, se possível pro bono.

Surfista, benfiquista, melómano

Quem é o nome escolhido para definir como será celebrado o meio século do 25 de Abril? Pedro Adão e Silva nasceu em Lisboa no ano da Revolução, em 1974, e é hoje um rosto e uma voz conhecida dos portugueses sobretudo pelo comentário político na televisão, rádio e imprensa. Mas não só: assumido adepto do Benfica, estende também o comentário ao campo desportivo. Foi, aliás, candidato a vice-presidente do clube da Luz pela lista de João Noronha Lopes nas últimas eleições do Benfica, ganhas por Luís Filipe Vieira.

Adão e Silva é licenciado em sociologia e doutorado em ciências sociais e políticas pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, com uma tese sobre europeização das políticas sociais. É professor auxiliar do departamento de ciência política e políticas públicas do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e diretor do Doutoramento em Políticas Públicas - uma das suas áreas de investigação, a par das políticas sociais.

Trabalhou com Paulo Pedroso durante o governo de António Guterres. Militante socialista desde os 18 anos (mas entretanto desfiliado), assumiu uma participação política mais ativa durante a liderança de Eduardo Ferro Rodrigues, integrando o Secretariado, o órgão executivo de cúpula do partido, entre 2002 e 2004. Saiu com Ferro e não voltou à vida partidária. Em 2009 colaborou na moção que José Sócrates levou ao congresso do PS.

Para lá da faceta mais pública, ligada à análise política e social, há um lado B - Pedro Adão e Silva é surfista. "É uma parte essencial da minha vida e daquilo que sou", dizia ao DN há poucas semanas. Começou na década de 80, "primeiro a fazer carreirinhas com pranchas de esferovite, depois no skimming, a seguir com o muribugui (como era conhecido o bodyboard). E assim chegou ao surf, sobre o qual já escreveu um livro, prefaciado pelo poeta e sacerdote, agora cardeal, José Tolentino Mendonça.

Outro "vício" (como já qualificou a prática de surf) de que foi dando nota pública é a música. Melómano, apreciador de pop/rock, tem como banda de eleição os The Smiths.

Um otimista "equivocado"

Face à polémica em torno da nomeação, Costa veio dizer que não responde a "insultos" (referindo-se às palavras de Rui Rio). Já Marcelo de Sousa fez questão de afirmar que a escolha teve o seu "aval". Não querendo entrar na polémica em que o seu nome tem estado envolvido, Pedro Adão e Silva diz ao DN que o acordo do Presidente foi fundamental: "Nem aceitaria o convite de outro modo. Em 2026 o Governo será outro, mas o Presidente será o mesmo". Também deixou um comentário na rede social Twitter: "Padeço de algum otimismo em relação ao estado da democracia portuguesa. Posso estar equivocado: afinal, é bem mais vasta do que antecipava a coligação de quem pensa que celebrar os 50 anos da nossa democracia não merece nem ambição programática, nem dignidade institucional. Sintomático."

O DN questionou ontem os partidos da esquerda sobre esta nomeação. Para o PCP "a questão central que está colocada às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril é o conteúdo". "A preocupação que temos é que nas comemorações - seja com o comissário indicado, seja com o conjunto da composição da estrutura - se assumam orientações que não correspondam ao que se impõe hoje de afirmação do 25 de Abril, dos seus valores e projeto", sublinha o PCP. O BE não respondeu em tempo útil.

susete.francisco@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG