Woodstock. "Não confiem em ninguém com mais de 30 anos"

No verão de 1969 um milhão de americanos passou pelo festival que defendia paz e amor em vez da América de Nixon. A guerra do Vietname foi o grande alvo de Woodstock.

O dia 15 de agosto de 1969 foi o primeiro de três dias que o mundo nunca imaginara ser possível acontecerem: o fim do sonho americano enquanto o conhecíamos. Numa palavra: Woodstock, e a medida do sucesso deste encontro musical sob o lema "paz e amor" pode resumir-se a uma frase: "Não confiem em ninguém com mais de 30 anos." Uma declaração de guerra às normas comportamentais impostas aos jovens pela sociedade norte-americana do pós-guerra e que Jack Weinberg cunhara em Berkeley, em 1964, nos protestos que liderara pela liberdade de expressão.

As reportagens que eram expedidas de uma quinta onde quatro jovens "empresários" - todos com idade inferior a 30 anos - tinham montado um palco virado para uma colina eclipsavam as recentes imagens do grande feito que fora a chegada do homem à Lua - a 20 de julho - e, se o que lá se tocou mais não era do que aquilo que os artistas já cantavam, as fotografias de mais de meio milhão de jovens a encaminharem-se e a deitarem-se na relva para assistir ao grande desfile de heróis contestatários no Festival de Música e Arte Woodstock chocaram quem as via e, inevitavelmente, comprovavam a decadência da geração que se preparava para assumir o controlo da sociedade americana. O que se via era uma juventude rebelde e unida em torno de outros valores que não os ainda vigentes na época Nixon e... muita droga.

As reportagens chegaram a grande parte do planeta, mas em Portugal o festival passou despercebido na imprensa censurada. Só dias depois é que houve notícias, muito poucas, publicadas. Também só lá estiveram três portugueses, os membros do Duo Ouro Negro e o homem da rádio, Jaime Fernandes. Mas os ecos internacionais acabaram por chegar e até inspiraram o primeiro festival de Vilar de Mouros em 1971, considerado o Woodstock português. O músico Tozé Brito já recordou esses tempos em que ainda não fizera 18 anos e afirmou que tudo o que lá se tocou já se ouvia no programa Em Órbita no Rádio Clube Português, mesmo que, disse, "só de ouvir os nomes das pessoas que lá iam tocar dava tudo para ter lá estado".

O segundo grande festival

Apesar do que ficou para a história, Woodstock não foi o primeiro grande festival, afinal dois anos antes isso acontecera em Monterey. Onde Jimi Hendrix já tocara, mesmo que fosse a sua prestação no Woodstock que tivesse ficado eternizada. O guitarrista pegou no hino nacional americano e desfê-lo com a sua guitarra branca perante os resistentes que na madrugada do último dia ainda lá estavam antes de voltar ao trabalho. No entanto, o evento mostrou a receita que até hoje continua a dar lucro em todo o mundo, apesar de Woodstock ter dado um prejuízo tão gigantesco - mais de dez milhões de dólares atualmente - que, se não fosse o sucesso do documentário sobre o festival, jamais os promotores seriam capazes de pagar as dívidas.

Os organizadores do festival não pretendiam fazer nada do que aconteceu, apenas queriam angariar dinheiro para construir um estúdio de gravação, mas o boca-a-boca e o elenco anunciado fez que um encontro que pretendia arrecadar a receita de 50 mil bilhetes acabasse por ser uma reunião dez vez maior - no total de presenças chegou a um milhão - e para o que não havia infraestruturas ou organização possível. O caos gerado pela invasão obrigou a abrir os portões e tornar o festival grátis.

A confusão era tão grande que as estradas foram fechadas e os artistas chegavam de helicóptero. Quem lá estava não tinha onde comprar comida, tanto que helicópteros militares despejaram sobre a multidão garrafas de água e alimentos. No entanto, Woodstock foi um dos principais episódios que mudaram a história do rock segundo a revista Rolling Stone. A música nunca mais foi a mesma, as letras politizaram-se e os cantores tornaram-se ativistas.

A contracultura esvaziou-se

Apesar de Woodstock ter sido o ponto alto da contestação à forma de viver norte-americana, designadamente através do movimento hippie, a partir do festival muitas dessas reivindicações foram-se esvaziando. A grande concentração de defensores da contracultura em Woodstock parece ter ficado satisfeita e aceitado que a geração Woodstock atingira os seus objetivos, tanto que os compromissos com os governos conservadores deixaram de ser impossíveis nos anos seguintes.

Em Woodstock só estava assegurado o fornecimento de droga que permitia momentos psicadélicos apropriados ao encontro e às fantasias hippies. No documentário sobre o festival ouve-se alguém no palco a avisar que o ácido que estava a ser vendido não era de boa qualidade e seria necessário ter cuidado. Se em Woodstock as autoridades estavam desaparecidas e o consumo era praticamente livre, nada disso acontece hoje com tanta liberdade nos sucedâneos por todo o mundo. Aliás, dizem os especialistas em Woodstock, quase todos os presentes experimentaram um charro, bem como várias espécies de estupefacientes: heroína, mescalina, anfetaminas, cocaína e ópio, mesmo que o mais atrativo fosse o LSD.

Contestação à Guerra do Vietname

A crítica ao envolvimento dos EUA na Guerra do Vietname foi um dos momentos altos de Woodstock. Muitos dos jovens que lá estiveram tinham uma longa lista de reivindicações - a liberdade sexual, os direitos das mulheres, as diferenças raciais, o movimento gay, a justiça social -, mas era a contestação à Guerra no Vietname que estava subjacente à maioria. Logo a seguir a Woodstock, as autoridades reagiram com uma forte repressão ao movimento hippie e a todos os que proclamavam os valores defendidos pelos músicos no palco do festival e aplaudidos pelo milhão de americanos que partilharam esses três dias que mudaram a América em agosto de 1969.

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