As sete vidas de um gestor, prodígio de golfe, pioneiro do padel e incondicional do Sporting

Ricardo da Silva Oliveira é gestor e presidente da Federação Portuguesa de Padel.

No verão de 1990, chegava à universidade de Oklahoma com uma bolsa para tirar Economia enquanto representava aquela escola em golfe. Um ano depois, mudava-se para a California e para a licenciatura de Psicologia, mantendo a bolsa da modalidade, mas agora pela Universidade de Santa Bárbara. Não haveria aqui grande estranheza, não fosse o protagonista um português que ainda antes de poder votar já era uma promessa no golfe mundial.

Não viria a ser essa a vocação de Ricardo da Silva Oliveira - antes os negócios puros e duros e o mundo da finança - mas foi o que o fez ser notado por olheiros americanos (no caso, Everet Dobson, dono de uma telco) e que o catapultou para os Estados Unidos, depois de a mãe o ter impedido de responder na primeira chamada. "Eu tinha 17 anos e a minha mãe achou que eu era muito novo e não me deixou ir. Dois anos depois, fui mesmo - e foram dos melhores anos da minha vida, os que passei na California."

Ao contrário de Oklahoma, onde não ficaria mais de um ano, em Santa Barbara sentia-se em casa. Nascera em Angola, de onde saiu muito pequeno, quando chegou a independência; crescera em Cascais, ao lado do mar, e na California estava como peixe na água. O golfe, que ainda joga com paixão, mas que acabou por se diluir num leque de outros interesses, foi o mote para ali chegar. "Eu jogava bem, fui da seleção nacional e ganhei umas três dezenas de títulos; tive a honra de estar no pódio no europeu, no Octangular de Juniores, na ainda Checoslováquia, um evento de equipas, a ouvir o hino e a ver subir a bandeira portuguesa. Ainda me emociono ao recordar esses momentos", conta.

Numa modalidade em que Portugal não contava muito, foi notado num torneio em Inglaterra, por Greg Grost, um "americano que tinha uma empresa de telecoms e era mecenas de universitários". Da sua vida nesses tempos guarda boas memórias: "Éramos tratados como príncipes! Todas aquelas coisas dos desportistas nas universidades americanas eram reais... mas depois havia o lado da competição profissional: estávamos sempre a viajar, treinávamos muito, não tínhamos fins de semana, era duro", recorda. "Ser desportista profissional é abdicar de tudo."

A licenciatura em Psicologia em Santa Barbara ainda o levou a uma passagem pela Merrill Lynch, em análise de dados, mas as saudades falaram mais alto e acabou por voltar a Portugal. Aqui chegado, viria a repensar a sua vida. Conhecia o golfe por dentro mas não queria fazer dele profissão, sentia que a Psicologia lhe servira de base, mas não era ponto de partida para algo que verdadeiramente o desafiasse.

Decidiu então mudar de vida mas sem deitar para o lixo a experiência acumulada: inscreveu-se numa pós-graduação em Business Management e Finanças na Universidade Católica, a que se seguiria outra em Imobiliário, no ISEG. "Apeteceu-me a gestão e os negócios", resume. E enquanto se reconstruía, usou os seus ativos o melhor possível: juntou-se a João Lagos no golfe (como editor da revista, a fazer comentários dos torneios para as televisões, a reportar os masters, etc.), trabalhou como psicólogo no torneio da Inapa, ajudava como consultor à construção de campos de golf e à organização do circuito profissional. E as raízes haviam ainda de lhe dar novos horizontes.

Uma vida de negócios pelo mundo

Se Ricardo da silva Oliveira deixara Angola ainda pequeno, o pai, despachante, voltara à terra ainda sob ameaça da guerra civil e nos tempos em que as faltas eram tantas que os banhos se tomavam de balde. Nas visitas regulares, África foi-o contagiando também a ele e de tal forma esse amor foi crescendo que ao pior que ali passou - dos campos minados nas fugas pelo mato às viagens de helicóptero sob saraivadas de metralhadora - chama "aventuras incríveis".

"Fui conhecendo pessoas, fazendo amigos, assessorei vários generais e em determinada altura desafiaram-me a ajudar a organizar a atividade de jogo em Angola. O jogo não era ainda regulamentado e esse amigo queria abrir um casino com o então ministro da Defesa angolano, o general Kundi Paihama", relata. Daí em diante, nunca mais deixou os negócios. Do seu currículo fazem parte operações como a concretização do Banco Angolano de Negócios e Crédito, o desenvolvimento imobiliário do Morro dos Veados e a auditoria à construção do Consulado Geral de Angola em Portugal, mas também intermediações diversas em negócios de pescas, petróleo, banca, construção e jogo.

Para essas atividades, pesou a ligação, como consultor e amigo, ao embaixador António Martins da Cruz, que lhe abriu muitas portas na diplomacia económica e com quem partilha escritório na Avenida da Liberdade.

Homem de sete ofícios e de muito mais interesses, hoje casado e com uma filha de 18 meses - "ser pai aos 50 anos é completamente diferente, desfruto de outra maneira", assume Ricardo, que daqui a um par de meses vai ser pai pela segunda vez -, diz que nunca vai "perder o gosto por aprender".

E se os seus mais recentes desafios profissionais se dividem entre a consultoria em segurança portuária na Fiscaportos, de Angola, e a assessoria financeira na JORO World Consulting de Delaware, Estados Unidos - mas já os levaram aos quatro cantos do mundo, da Europa ao Iraque, da Venezuela e Brasil à China ou Macau -, os interesses pessoais não perderam nenhuma força.

Do golfe para o padel

"Estava eu quietinho no meu canto", começa a contar Ricardo - mas quem o conhece não acredita; o próprio acaba por se reconhecer "obcecado" quando se mete em algum assunto - "quando o João Zilhão me desafiou". O tema desta vez era o padel, que estava a dar os primeiros passos em Portugal e para o qual o empresário que foi braço-direito de Lagos e hoje promove o Estoril Open o desafiava.

Com outros dois amigos, foram experimentar jogar ao Estoril. Gostaram tanto que começaram a ir todos os dias e Ricardo, provando o argumento, até comprou "uma máquina de atirar bolas para ir treinando em casa". A fase da vida podia ser diferente e a vertente profissional não ter sido levada a sério, mas ainda assim só abrandou depois de levar para casa as taças dos torneios em que participou entre 2009 e 2011.

E depois veio a fase seguinte: "Como era empreendedor, desafiaram-me a tomar conta do projeto para desenvolver e federar o padel em Portugal. Fomos batalhando e acabámos por conseguir o reconhecimento", orgulha-se, concretizando a conquista: "Quando comecei, em 2012, tinha um orçamento de 3 mil euros, quatro clubes a oferecer a modalidade e 70 jogadores federados. Hoje há 250 clubes e quase mil courts no país, o orçamento é de 2 milhões de euros, há cem mil praticantes e temos a terceira melhor equipa feminina do mundo e a quarta masculina. Somos vice-campeões da Europa e até já estamos no desporto escolar."

E que próximos desafios planeia abraçar o presidente da Federação de Padel? "Não sei, não procuro desafios... há projetos que me vão chegando e a muitos digo que não, mas outros entusiasmam-me e acabo por me envolver", explica, com uma tranquilidade que não deixa adivinhar o borbulhar de vontade de experimentar e fazer coisas - do bridge às artes marciais, dos saltos de paraquedas ao oleoduto do Panamá, do pequeno-almoço com Hillary Clinton ao encontro com Shimon Peres, já se aventurou por muitas, mas nada que lhe retire a vontade de ir sempre mais além.

O sonho do Sporting

Profissionalmente, está agora focado num projeto com uma gigante do retalho desportivo que conta com 3 mil lojas no Brasil e quer entrar na Europa pela porta portuguesa - não revela nomes porque o segredo ainda é a alma da coisa e a covid atrasou os planos mas não os deitou por terra.

Quanto à sua outra paixão confessa, o Sporting, está neste ano a viver um sonho. "Vamos ser campeões!", antecipa o adepto incondicional que nunca teve hipótese de ter sido outra coisa. "O meu pai é presidente do Sporting de Luanda e cresci entre carros verdes, o nosso telefone era uma bola do Sporting...", conta a rir, enquanto admite que esse é um amor que tem tanto de inevitável como de inexplicável. "Temos uma grande equipa e um excelente treinador; haja ou não covid vamos ao Marquês festejar", garante.

E poderá passar por Alvalade o seu próximo projeto de vida? Sentar-se na cadeira hoje ocupada por Frederico Varandas? "Nenhum sportinguista deixa de ter o sonho de um dia ser presidente, mas eu não quero roubar o lugar a ninguém e nem é altura para essas movimentações", garante.

Falta saber o que estaria no menu se este brunch pudesse ter sido tomado ao vivo e a cores, em vez de digitalmente forçado pela pandemia. "Talvez aqui no meu escritório... ou numa esplanada, a usufruir deste sol maravilhoso de Lisboa. Ou então na escadaria do Estádio de Alvalade, a comer uma bifana da rulote."

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