Da Chick: "Faço música por necessidade e não para agradar a alguém"

A artista lisboeta está de regresso com Conversations with the Beat, um disco mais pessoal e menos direto do que a festa funk dos trabalhos anteriores, no qual, pela primeira vez, assume também as rédeas da produção.

Quem se habituou a ver os espetáculos de Da Chick, o alter ego musical de Teresa Sousa, decerto não deixará de estranhar o som menos imediato e até um pouco experimental de Conversations with the Beat, o novo disco da artista lisboeta, que nos últimos anos se tornou uma das figuras de proa da nova pop eletrónica portuguesa. Mas tal como o velho reclame em tempos anunciava, o que inicialmente se estranha depressa se entranha. E no que a Da Chick diz respeito não é preciso muito tempo para isso acontecer. Foi assim quando se deu a conhecer, em 2012, com o EP Curly Mess, com o álbum de estreia Chick to Chick, editado três anos depois, mas especialmente quando subia a um palco e transformava cada atuação numa imensa festa de funk, disco e hip hop. Os mesmos elementos que agora volta a baralhar neste novo registo acabado de editar, mas de uma forma muito mais experimental e introspetiva.

Nascido em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde viveu durante alguns meses em 2017, na companhia de um laptop e de um pequeno teclado, Conversations with the Beat é a derradeira prova de maturidade de uma artista completa, que compõe, toca, interpreta e agora, finalmente, também produz a sua própria música. Uma artista "muito diferente" da anteriormente existente, como confessa nesta entrevista ao DN e os fãs poderão testemunhar em breve, nos primeiros concertos de apresentação, marcados para Braga (6 de março), Lisboa (20), Porto (27) e Aveiro (28), nos quais, pela primeira vez, se vai apresentar na companhia de músicos com instrumentos reais.


Mais um disco de Da Chick, mas feito de uma forma completamente diferente, por ser a primeira vez que fez tudo sozinha, da composição à produção, certo?
É diferente não só por ser também o primeiro em que faço tudo, mas prioritariamente porque a sonoridade de Da Chick está de facto diferente neste álbum. Está bem mais calma, mais...

Experimental, talvez? Ou não tão direta...
Talvez, sim, eu própria já utilizei essa palavra para descrever o álbum, mas com outro contexto, mais no sentido de ser, de facto, um álbum experimental, por me ter permitido experimentar instrumentos novos, aos quais não estava tão habituada. Mas sim, reconheço que é uma música com muito mais espaço para divagar, com algum dub, com mais ambiente do que a Da Chick de outros tempos, claramente mais pop e mais direta, sempre com o objetivo de fazer singles. Essa é a principal razão de ser um disco muito diferente, para mim.

E essa mudança é resultante do facto de ter sido a Da Chick a fazer tudo, sem delegar noutros, por exemplo, a produção do disco?
Sim, porque quando produzo música sozinha dou quase sempre por mim a fazer este tipo de sonoridades e não tanto aqueles cocktails pop que as pessoas se habituaram a ouvir. Foi o que saiu e é o que tem saído ultimamente e portanto a verdadeira essência de Da Chick está muito presente neste trabalho, que tanto vai da soul ao hip hop mas sem nunca deixar de ser música eletrónica. É daí que eu venho e é por aí que quero continuar a inserir-me.

É também um disco muito rico, em termos musicais, como é que vai transpor isso para o palco nesse registo mais eletrónico?
Convidei alguns músicos para me acompanharem em palco. A opção era entre fazer tudo sozinha ou tornar o espetáculo mais orgânico. Tenho noção de que existe muito espaço, muitas repetições nestas músicas e para tornar isto mais interessante ao vivo achei importante acrescentar mais algumas camadas, através dos músicos. No fundo a base está lá e depois o baixo, a percussão e o trompete são como que o recheio. Os instrumentos servem mais como complemento e não tanto para marcar as melodias. E depois, apesar de ser muito solitária, na forma como faço música, gosto muito de ter companhia em palco. Acima de tudo é isso, vai ser mais orgânico, daí também esta opção de ter gravado um videoclip ao vivo, para as pessoas perceberem que Da Chick mudou e também o que podem esperar dessa mudança.

Como crê que os fãs mais antigos, que desde o início enchem os seus espetáculos, vão reagir a esta mudança tão radical?
Quero acreditar que esses fãs vão continuar a acompanhar-me, mas se isso não acontecer com certeza que irei ganhar outros. Reconheço que este é um álbum muito pessoal, talvez até um pouco egoísta, porque faço a música mais pela necessidade que tenho de me expressar e não tanto para agradar a este ou àquele. Mas creio que isso tem sido visível ao longo do meu percurso, portanto a prioridade é sempre aquilo que estou a sentir em determinado momento. E isto é o que me está a sair agora, portanto vamos lá fazer com que aconteça. Mas tenho noção de que a base está lá e os meus verdadeiros fãs ou pelo menos aqueles que retiram algum prazer dos meus espetáculos vão percebê-lo. Ou seja, se gostavam antes, também vão gostar agora.

Há cerca de dois anos viveu algum tempo na Califórnia, como foi essa experiência?
Sim, vivi lá durante quatro meses e foi uma experiência muito boa. O meu objetivo era sair de Lisboa, onde estava um pouco bloqueada a nível criativo e senti necessidade de me desafiar numa cidade como Los Angeles, que ainda por cima tem bom tempo e onde pude surfar todos os dias [risos]. Já lá tinha estado, em digressão com o Moullinex, mas foi menos de 24 horas, portanto era mesmo uma cidade desconhecida. E o desafio era mesmo esse, chegar a um local completamente novo, conseguir fazer novos amigos e colocar-me em situações que nunca viveria em Portugal. Isso enriqueceu-me de tal forma que enquanto lá estive consegui criar dois álbuns, um é este e o outro ainda está para sair.

Este disco é então resultado disso?
Sim, levei o meu computador, uma placa de som e um teclado pequeno e como tinha muito tempo comecei a explorar novas sonoridades. E depois, enquanto lá estive, vi e ouvi muita coisa, estive exposta a muita coisa. Fui a muitos concertos, porque, literalmente, todos os dias havia algo que queria ver. Vi artistas incríveis, que consciente ou inconscientemente me inspiraram a tentar fazer música sozinha. Fiz contactos, conheci pessoas, mas acima de tudo foi muito importante a nível criativo. É sempre bom sair, gosto muito dos Estados Unidos, porque me identifico com a cultura americana, mas também é muito bom voltar.

Quem é a Da Chick agora?
Não sei bem responder. Sei que a Da Chick, agora, precisava deste momento, de passar por isto para crescer. Até o facto de começar a tocar instrumentos em palco faz parte desse processo, porque não tenho formação musical e tive de reaprender tudo. E o tal próximo álbum, que já está quase terminado, também vai ganhar com isso.

E nesse próximo álbum, vai prosseguir por estes caminhos mais experimentais?
Não querendo revelar tudo, vai ser novamente uma Da Chick mais de festa, talvez mais parecida com a do passado, mas que mesmo assim nunca mais irá voltar a ser a mesma. E isso é bom.

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