A Europa filtrada pelas lentes americanas em tempo de covid-19

Aqui não é sempre cada um por si. Mas, ao contrário do que sugere o mote em latim dos Estados Unidos, E pluribus unum, raramente é todos por um.

Com uma bandeira dos Estados Unidos na mão e um gorro forrado com estrelas, o homem segurava um cartaz de fundo vermelho e duas suásticas ladeando uma fotografia do governador da Califórnia, Gavin Newsom. Nela, adicionara um pequeno bigode emulando a imagem do ditador que matou milhões de pessoas e causou a Segunda Guerra Mundial. Neste protesto, à porta do capitólio de Sacramento, capital do estado, as ordens de confinamento assinadas por Newsom foram comparadas ao fascismo. Tal como aconteceu em Huntington Beach, mais a sul, em Rancho Cucamonga e em vários outros distritos onde, a espaços, tem sido exigida a reabertura da economia em plena pandemia.

A América, que nunca conheceu o fascismo no seu território, alberga uma certa desconfiança do governo e das autoridades que elege como se houvesse um Hitler à espreita em cada esquina. "Heil Newsom", lia-se no cartaz de uma jovem mulher, decorado com uma suástica. "Prefiro a liberdade perigosa à escravidão pacífica", lia-se no de outra.

Estes dissidentes são uma minoria mas as suas vozes ecoam, dando respaldo aos pânditas que pressionam os governos estaduais a reabrir. Fazem barulho em zonas conservadoras, onde os eleitores querem governantes que intervenham o menos possível nas suas vidas, deixando o mercado livre e o "trabalho duro" guiar os destinos de cada um. Em comum com os manifestantes que assolaram outras partes do país, incluindo as milícias armadas que tentaram entrar no capitólio do Michigan, está um etnocentrismo profundo que vai mais além do "excecionalismo americano."

Neste posicionamento, a ameaça do coronavírus é vista como uma crise artificial engendrada para prejudicar o seu estilo de vida, a prezada liberdade americana e o seu lado político. A Europa aparece como uma amálgama de estados mais ou menos repressivos, que exercem um controlo perigoso sobre as populações que oprimem habitualmente com impostos pesados e regulamentos complexos e, agora, com um confinamento brutal.

Foi essa a posição que tomou um luso-americano que está na Califórnia desde a adolescência e passou toda a vida adulta a interiorizar as ideias peculiares de liberdade esposadas pelos americanos. Não é uma negação de que o vírus existe e é perigoso, mas sim a crença fundamental de que o governo não tem o direito de nos salvar desse perigo - ou de nós próprios. Se é para morrer com uma doença contagiosa, então morre-se livre.

Este português de sangue e americano de alma não obedeceu a confinamentos, continua a juntar-se com os amigos e a fazer almoçaradas ao pé da piscina. Disse-me que tudo isto é um exagero. E como ele ouvi vários, abstraídos do meu espanto de europeia apanhada no vórtice da reação americana a uma pandemia mortífera.

Percebi que, para muitos, as imagens de aflição nos hospitais italianos e os apelos dramáticos de enfermeiros espanhóis são encarados como fenómenos longínquos, em países com menos recursos do que a grande potência mundial onde vivem.

Não se trata de dissonância cognitiva, mas de um filtro côncavo que continuamente modela a sua interpretação do que se passa na Europa. Que os governos europeus caíram na ratoeira armada pelos chineses com este vírus ou que estão a aproveitá-lo para controlar ainda melhor a população. É um destino inadmissível para quem tem sangue vermelho, branco e azul. Liberdade ou morte.

O fervor pungente nesta defesa da individualidade e a atitude que se toma em relação à covid-19 estão relacionados com o posicionamento político de cada pessoa. Quem apoia o presidente Donald Trump tende a pressionar para a reabertura da sociedade e a recuperação da economia, aceitando que tal trará um aumento do contágio e das mortes mas desvalorizando a sua dimensão. Aqui, a Suécia é dada como exemplo de sanidade na Europa, o único país que foi capaz de dizer não ao confinamento e aos encerramentos compulsivos dos negócios. "Sejam como a Suécia", pedia um cartaz num dos vários protestos que saíram à rua desde meados de abril. Vários meios de comunicação, e não apenas conservadores, têm realçado o que consideram ser o modelo exemplar do país escandinavo, onde as autoridades pediram às pessoas que pratiquem distanciamento social sem o imporem. A mesma Suécia que há um par de anos era usada como retrato infernal do excesso de emigrantes e a irracionalidade da esquerda progressista é agora aplaudida pela abordagem aparentemente ordeira a um vírus que gerou o caos em todo o mundo.

Os contornos específicos do país, ou a sua elevada taxa de mortalidade, não têm especial relevo para esta discussão, até porque ela faz-se em tweets e comentários no Facebook. A realidade sueca, como a italiana ou a portuguesa, não é traduzível facilmente para a mentalidade americana. Só a dimensão dos países torna a coisa difícil; Portugal inteiro tem a mesma população do que o condado de Los Angeles.

A isso acresce o imperativo de liberdade que se considera mais importante que qualquer outra coisa, mesmo ameaças biológicas. O tom da discussão que tenho ouvido assemelha-se ao impasse gerado em torno da não restrição do armamento da população, apesar dos tiroteios em massa. As mortes com armas são um efeito colateral da liberdade, uma liberdade que os europeus não têm. As vítimas mortais da covid-19 são um efeito colateral da salvação da economia. E há que pôr as pessoas a trabalhar em vez de lhes pagar subsídio de desemprego para não fazerem nada. Era o que mais faltava na terra dos livres, onde os direitos constitucionais são mais essenciais do que a saúde pública, na perspetiva dos que querem o regresso imediato da normalidade. Do outro lado estão os que repudiam, precisamente, essa normalidade.

"Mal posso esperar para sair deste país, não aguento mais", disse-me, há dias, uma amiga americana que sempre questionou porque é que uma europeia como eu teria atravessado o Atlântico. Queixa-se de um país de idiotas, racistas e oligarcas, onde o "normal" a que tantos querem voltar é feito de uma massa imensa de gente com três empregos, sem direito a subsídio de férias nem licença parental, a ganhar ordenados de miséria, sem cuidados de saúde nem perspetivas de reforma digna.

Os que têm o azar de ser hospitalizados com covid-19 arriscam-se a receber contas pesadas pelo tratamento quando regressam a casa, uma espécie de prémio de sobrevivência que pode afundá-los financeiramente mais do que a perda do emprego. Ou a perda de emprego remove-lhes o seguro de saúde, pondo-os em risco no caso de adoecerem. Isso explica que haja em muitos uma inveja palpável da forma como os governos na Europa organizaram o confinamento, garantiram apoios às empresas e aos cidadãos, trataram do abastecimento de materiais necessários e oferecem tratamento gratuito a quem fica doente com covid-19. Muitos destes suspiros baseiam-se numa romantização exagerada, é certo. Mas isso acontece por contraste ao que está a ser feito a nível federal nos EUA.

"A liderança na Alemanha parece-me fenomenal", comentava um amigo, filho de um especialista em doenças infecciosas, agastado com a atitude da administração americana nesta crise. A resposta da Casa Branca "tem sido um absoluto desastre em múltiplas frentes. A ideia do governo federal é ser um unificador competente, na mensagem e nas ações", opinou. Deu o exemplo da Espanha, onde, apesar dos números elevados, "a resposta unificada do governo foi muito melhor, fornecendo informação sucinta sobre o que se está a passar e qual o plano". Por contraponto, nos EUA, "temos este narcisista preocupado com o que isto parece no curto prazo, em termos políticos, e disposto a sacrificar todos".

Há uma imagem que retrata o quão diferentes as coisas são e porque é que deste lado se olha para a Europa com enlevo. Inspirados pelos vídeos de cantoria nas varandas italianas, houve quem tentasse fazer o mesmo em Nova Iorque, o estado mais afligido pela covid-19. O resultado foi iminentemente americano: alguém gritou "shut the fuck up", ou "cala-te" com um impropério pelo meio. Aqui não é sempre cada um por si. Mas, ao contrário do que sugere o mote em latim dos Estados Unidos, E pluribus unum, raramente é todos por um.

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