"O falso pintor amador de cenas entre o trivial e o obsceno"

Para quem gosta de se perder em museus a imaginar a vida dos pintores e os bastidores de como criaram os seus quadros, o romance de Isabel Rio Novo - que chegou terça-feira às livrarias - é o livro ideal.

Conta-se em Rua de Paris em Dia de Chuva, o romance de Isabel Rio Novo, a história de um pintor impressionista que demorou muito tempo a ser reconhecido. Até no seu país, França, onde o Estado e a Academia Francesa desprezaram a oferta que fez do seu legado, situação de posteridade que só foi alterada há poucas décadas, quando o Instituto de Arte de Chicago comprou o quadro com o mesmo título deste romance e Gustave Caillebotte 'renasceu'. É, praticamente, a relatar este pedaço da história do impressionista francês que Isabel Rio Novo dá início ao seu mais recente romance, após ter publicado Rio do Esquecimento e A Febre das Almas Sensíveis.

A ideia para este livro começou há dez anos, quando Isabel Rio Novo se preparava para dar aulas de História da Arte. Apesar de ter um mestrado na área, não se considera historiadora nem arista plástica, antes uma grande apreciadora da arte. Ao consultar muitos manuais, redescobriu um pintor que conhecia como mecenas e colecionador e tinha o nome associado ao núcleo da coleção do Museu D'Orsay e, principalmente, conhecido como um pintor amador: Gustave Caillebote. Ao estudá-lo, percebeu que era mais do que um amador, antes um pintor muito relevante e que a fascinou.

Entretanto, o romance ficou a aguardar vez por se dedicar a outro, mas nunca desistiu de votar a Caillebotte. Ainda se meteu pela frente "uma oportunidade única", a de biografar Agustina Bessa-Luís. Um trabalho que é impossível ignorar mesmo vários messes passados sobre o seu lançamento: "É o que tem acontecido com os meus livros, apesar de cada vez mais todos os livros terem um prazo de validade nas livrarias mais curto e de serem menos assunto nos jornais. Eu não me posso queixar, os leitores continuam a vir falar comigo sobre os que escrevo. Com a biografia de Agustina, então, continua a acontecer muito e daí não poder esquecer-me desse livro tão cedo".

Pergunta-se se Caillebotte é também uma espécie de biografia? "Tem elementos de uma biografia, mas se quiser ser justa, essa propensão para o retrato individual, uma espécie de tentação biográfica, está presente em quase tudo o que escrevo. Tem muito a ver com uma tendência pessoal, a de entrar numa sala de museu onde as paredes podem estar repletas de quadros de grande formato, paisagens, mas há sempre um retrato pequeno e escondido num canto sombrio e é nele que reparo. Tenho muita apetência pela individualidade e daí até à biografia é um passo. Mas este romance não pretende ser um trabalho desse género", explica Isabel Rio Novo.

Gustave Caillebottte conviveu com Renoir e Monet e muitos outros pintores importantes. Não seriam mais sedutores, questiona-se: "É uma pergunta que coloquei várias vezes, pois realmente há pintores que têm vidas fascinantes e facilmente dariam bons personagens. Caravaggio, por exemplo, tem uma existência incrível. E Da Vinci, ou entre os impressionistas como o próprio Monet e o Renoir. Como explicar como nos apaixonamos por um pintor e não por outro é a grande questão. No caso de Caillebotte temos alguém que a existência exterior foi discreta e pouco aventurosa, mas com um certo elemento de mistério proveniente desse mínimo que sabemos sobre ele a nível pessoal, algo propício à construção romanesca. Eu percebi a partir de um certo momento que a ideia para este romance se tinha consolidado e que grande parte do livro seria sobre a minha relação com a figura", refere.

Na perspetiva da ficcionista, acrescenta, existe "a história da amizade e o amor à distância entre uma 'Autora' e a sua personagem vencendo as barreiras do tempo." Aliás, a designação 'Autora' surge em muitas páginas. Porquê? Isabel Rio Novo explica: "Eu sou uma pessoa com existência real e que um dia se extinguirá, mas a personagem do livro, a 'Autora' ou 'A.' vai perdurar envolvida na história para sempre, espero. Ela podia chamar-se Ana ou Raquel mas ficou assim. Os leitores podem perceber que sendo ficcionada, aquela personagem pode conter elementos da própria autora real, situação que existe em todas as personagens de um romancista. Não deixo de ver traços meus também em Helena e no próprio Gustave, isso acontece quase sempre."

Este romance diferencia-se dos anteriores de Isabel Rio Novo, que garante que não deverá regressar dentre de breve tempo a este registo: "Neste caso, compreendi que só teria romance se conseguisse ultrapassar a mera ficção da personagem real do pintor Gustave Caillebotte e fizesse da relação entre uma 'Autora' fascinada por narrar uma vida sem saber porquê. Esta situação precisava de ser parte da história."

Que investigação exigiu o "desconhecido" Caillebotte, pergunta-se: "Tive condições especiais para escrever este romance, já que a primeira versão foi graças a uma bolsa de Criação Literária de seis meses da Direção Geral do Livro. Tive tempo para a criação, o que permitiu pesquisar e ler muito, além de uma situação bastante importante para mim, que é viajar aos lugares de Caillebotte e recolher a atmosfera dos sítios. Isso é fundamental para que, embora ficcionada, se encontre uma espécie de brecha por onde consiga evadir-me para o passado num exercício de imaginação."

O confronto físico com os cenários do livro não a dececionaram, garante Isabel Rio Novo: "Pelo contrário, há locais mágicos, como a propriedade em Yerres onde o pintor viveu durante muitos anos e que agora é um museu. São locais tão preservados, restaurados e redecorados como eram na época do pintor, em muito semelhante ao que está representado nos seus quadros. Percebe-se naquele lugar que uma vida humana tem uma duração ínfima no quadro geral da humanidade e que a natureza altera-se mas não muito."

Ao ler-se o romance surge a questão do quão diferente era Caillebotte dos pintores seus contemporâneos. Isabel Rio Novo concorda: "Já na altura ele não se encaixava muito bem nos estereótipos do que era um pintor e, provavelmente, terá sido por isso vítima da sua situação. Principalmente, dos preconceitos: por ser rico e não precisar de vender as suas obras. Uma realidade que lhe coloca o rótulo de um pintor amador quando tem uma obra muito volumosa e quadros muito trabalhados - não era apenas um pintor diletante. O facto de ter sido grande mecenas e, durante muitos anos a seguir à sua morte, o seu nome ter sido falado principalmente devido ao imbróglio do legado, desviou a atenção da própria obra".

Recorda Isabel Rio Novo que "a própria França não se preocupou em manter a obra; Caillebotte morre e o Estado e a Academia Francesa, que repudiavam a estética dos impressionistas e pós-impressionistas por não a considerem arte mas borrões de tinta e quadros inacabados, com cenas entre o trivial e o obsceno. Daí, a intenção do Estado era a de recusar o legado e para ter aceitado apenas alguns quadros foi uma complicação que se prolongou bastante após a sua morte."

A dado momento, Isabel Rio Novo escreve que "a arte podia tocar na vida". É uma linha autobiográfica ou apenas uma frase literária? "Pode ser tudo isso, pois tenho uma vivência constante de as experiências estéticas serem tanto ou mais reais que aquelas que vivo no quotidiano. Não estabeleço uma diferença entre a arte e a vida, mesmo que no romance sirva a uma estratégia literária porque parte dos quadros para a invenção de vário episódios do romance", esclarece.

Entre 1873 e 1893, Gustave Caillebotte (1848-1894) pintou 475 quadros. Em 1876, após a morte do seu irmão mais novo, o pintor redigiu o seu primeiro testamento por achar que teria também como destino morrer cedo. Nele, legava ao Estado o espólio que tinha na sua posse. Foi Renoir quem ficou encarregado de realizar o seu desejo.

Rua de Paris em Dia de Chuva

Isabel Rio Novo

Editora D. Quixote

Chega nesta terça-feira às livrarias

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