Quem quer suceder a May? Do karateca à ex-apresentadora da BBC, passando por Boris

O fracasso de Theresa May traçou o seu destino, mas o ninho de vespas que é o Brexit não foi motivo suficiente para afastar o interesse de mais de uma dezena de candidatos à liderança do Partido Conservador e, por extensão, do cargo de primeiro-ministro. Na segunda-feira, as candidaturas são oficializadas e na quinta os deputados começam a votar no sucessor de May.

A candidata que desistiu a favor de Theresa May

Andrea Leadsom, de 56 anos, foi a última a juntar-se à lista de 50 pessoas que se demitiram (ou foram demitidas) durante os três anos do governo de Theresa May. A sua demissão do cargo de líder da Câmara dos Comuns foi a estocada final na liderança do executivo.
Em 2016, Leadsom foi a adversária final de May na corrida à presidência do partido, mas acabou por desistir na sequência de uma entrevista ao The Times. Disse que pelo facto de ser mãe tinha vantagem em relação a May, que não pode ter filhos, o que lhe valeu um coro de críticas.
Andrea Leadsom formou-se em Ciência Política mas fez carreira na banca e no setor financeiro. Entrou na política já no século XXI, tendo sido eleita deputada pela primeira vez em 2010. No ano seguinte, juntou-se ao grupo de deputados eurocéticos que defendiam uma reforma profunda da União Europeia e mostrou-se favorável a um referendo. Em 2016 fez campanha pela saída do Reino Unido da UE.
Sobre o Brexit defende "um acordo com o qual todos possam viver" e que o Reino Unido tem de sair até ao final de outubro, com ou sem acordo, embora neste caso através de uma "saída gerida".

O favorito Boris tem como adversário Johnson

O maior adversário de Alexander Boris de Pfeffel Johnson é o próprio. Prova disso foi o processo que lhe foi movido por ter mentido durante a campanha do referendo. Porém, o homem que foi mayor de Londres entre 2008 e 2016 terá respirado de alívio na sexta-feira, ao saber que os juízes do Supremo Tribunal contrariaram a decisão da primeira instância que dera provimento ao caso de má conduta em cargos públicos.
Sem a justiça a ensombrá-lo, Boris Johnson, de 54 anos, reforça o favoritismo atribuído nas sondagens e nas casas de apostas. Segundo o blogue ConservativeHome, Johnson recolhe o apoio explícito de 48 deputados (em 313), seguido de Jeremy Hunt, que conta com 33 votos, e de Michael Gove, com 32. Mas o homem que liderou a campanha pelo Brexit por parte dos conservadores também era favorito em 2016 e ficou atrás de Leadsom e de May. E não faltam exemplos na história dos tories de candidatos menos cotados, ou quase desconhecidos, vencerem. Aconteceu com Margaret Thatcher em 1975, com John Major em 1990 ou com David Cameron em 2005, por exemplo.
Com ascendência inglesa, francesa, turca e russa, Johnson promete uma saída da UE no dia 31 de outubro, com ou sem acordo.

O karateca que só quer pagar metade da conta à UE

Filho de um judeu checoslovaco fugido dos nazis e casado com uma brasileira, Dominic Raab, de 45 anos, é um fervoroso adepto da saída do Reino Unido da UE. Foi ministro para o Brexit durante cinco meses, tendo pedido a demissão do governo no mesmo dia que Boris Johnson. Alegou então que o plano apresentado por Theresa May não correspondia às promessas realizadas pelos conservadores.
Com um currículo de estudante em Oxford e Cambridge, Raab começou por trabalhar numa empresa de advocacia antes de fazer carreira nos Negócios Estrangeiros (de 2000 a 2006) e depois no Parlamento (de 2006 a 2010, ano em que foi eleito deputado). Estreou-se em cargos governamentais em 2015, durante o consulado de David Cameron.
Karateca e pugilista, Dominic Raab ignora - como tantos outros conservadores - o facto de Bruxelas reiterar que não há mais negociações ao querer reabrir as conversações. Quer acabar com o backstop (mecanismo de salvaguarda) e quer a saída no dia 31 de outubro a qualquer custo. Se o Brexit se realizar sem acordo, propõe ficar com 25 mil milhões de libras da fatura de 39 mil milhões do divórcio e investir essa quantia para apoiar as empresas.

Antiga apresentadora de TV é a voz do No Deal

Esther McVey, de 51 anos, tem o discurso mais radical entre os candidatos à liderança dos conservadores. "Precisamos parar de perder tempo com debates artificiais sobre a renegociação de backstops ou sobre a ressurreição de acordos fracassados. A única forma de concretizar o resultado do referendo é assumir ativamente a saída da UE sem um acordo", escreveu no The Telegraph.
Em consequência, o prazo de saída nunca poderia passar de 31 de outubro. Para resolver a questão da fronteira irlandesa, McVey propõe uma "fronteira invisível" entre a República da Irlanda e a província da Irlanda do Norte, o que lhe valeu bastantes críticas.
De ascendência irlandesa, Esther McVey nasceu em Liverpool e viveu os dois primeiros anos num lar de acolhimento, tendo depois regressado ao seio familiar. Formada em Direito, Jornalismo Radiofónico e em Gestão de Empresas, McVey foi apresentadora e produtora na BBC e no Channel 4.
Eleita para o Parlamento em 2010, chegou ao governo em 2012. Em novembro passado bateu com a porta do Ministério do Trabalho e das Pensões, em desacordo com a primeira-ministra Theresa May.

O chefe da diplomacia é a imagem da continuidade

Como Theresa May, Jeremy Hunt, de 52 anos, votou pela permanência do Reino Unido na UE, mas fará por respeitar a vontade da maioria de então. Mas não de qualquer forma. Também num artigo no The Telegraph, Hunt declinou a ameaça da saída sem acordo pela simples razão de que os deputados não irão permiti-lo. "Qualquer primeiro-ministro que prometesse deixar a UE até uma data específica - sem tempo para renegociar e aprovar um novo acordo - estaria, de facto, a submeter-se a eleições gerais no momento em que o Parlamento tentasse impedi-lo. E tentar não chegar a acordo através de eleições gerais não é solução; é suicídio político", escreveu.
Com a popularidade desgastada pelos seis anos à frente do Ministério da Saúde, Hunt substituiu Boris Johnson nos Negócios Estrangeiros. Ambos estudaram em Oxford e iniciaram-se na política enquanto estudantes, mas a prática política é divergente. Para desatar o nó com Bruxelas, Hunt propõe a criação de uma nova equipa de negociações com membros das várias tendências dos conservadores e dos unionistas da Irlanda do Norte.
Hunt, que começou a trabalhar como professor de Inglês no Japão, é casado com uma chinesa.

O homem das contas quer adicionar mais tempo para a saída

É um dos outsiders da corrida à liderança. Mark Harper, de 49 anos, defende a extensão do artigo 50.º para uma saída da União Europeia em condições.
No referendo de 2016, Harper fez campanha pela permanência no clube europeu, mas hoje é um defensor do Brexit. Para que isso aconteça como deseja - "uma tentativa séria de conseguir um bom acordo" - terá de passar a data de 31 de outubro.
"Quero sair com um acordo, mas se não conseguirmos um acordo que passe no Parlamento precisamos de sair sem um acordo de retirada, no entanto acho que só conseguiremos convencer uma maioria no Parlamento se sentirem que fizemos uma tentativa séria e real", disse.
Também formado em Oxford, Harper foi eleito deputado em 2005, deixando a sua atividade de técnico de contas. Cinco anos depois ascendeu ao governo. Em 2014 demitiu-se de secretário da Imigração porque tinha um empregado de limpeza há sete anos que era um imigrante em situação ilegal.

O ministro que pretende tratar da saúde ao acordo

Matt Hancock, de 40 anos, é o atual ministro da Saúde. Formado em Oxford, foi economista no Banco de Inglaterra e conselheiro de George Osborne, então ministro-sombra das Finanças, tendo mais tarde sido seu chefe de gabinete.
Eleito deputado em 2010, Hancock acumulou experiência governamental em seis secretarias diferentes até chegar ao Ministério da Saúde, em substituição de Jeremy Hunt.
Como Hunt, Hancock votou a favor da permanência na UE e igualmente argumenta que uma saída sem acordo não é viável, até pelo facto de os deputados não o permitirem.
Hancock afirma que os candidatos que dizem que vão mudar o acordo de retirada "não estão a ser sinceros". Em alternativa vai propor um limite temporal ao mecanismo de salvaguarda e melhorar o acordo existente no Parlamento.

O homem que atraiçoou Boris e que está com May até ao fim

Entre outras coisas, Michael Gove, de 51 anos, ficou conhecido por ser o diretor da campanha de Boris Johnson, em 2016, e da noite para o dia ter decidido também concorrer à liderança - e mais tarde, como Johnson e Leadsom, integrou o governo da ex-adversária Theresa May. Mas ao contrário daqueles, Gove mantém-se no governo. É o ministro do Ambiente e um dos raros defensores do acordo de Theresa May bem como da sua estratégia.
Foi um dos mais viscerais defensores do Brexit na campanha do referendo. Hoje afirma que tem de estar preparado para um No Deal. "É um desfecho possível. Seríamos capazes de ultrapassá-lo, mas, em última análise, é melhor para todos nós se garantirmos um acordo e sairmos de forma ordenada", disse à BBC.
Gove defende a extensão do Brexit até ao final de 2020 e que uma saída sem acordo iria acabar em eleições antecipadas e num governo de Jeremy Corbyn com o apoio dos nacionalistas escoceses.
Gove, ele próprio um escocês, foi adotado em criança e, depois de ter crescido em Aberdeen, estudou em Oxford. A exemplo de Boris Johnson, foi jornalista antes de desempenhar cargos políticos.

O diplomata que acredita no poder da persuasão

Roderick "Rory" Stewart, de 46 anos, é mais um candidato conservador que mudou de ideias quanto ao Brexit. É hoje favorável a uma saída "pragmática e moderada".
Filho de um diplomata, Rory nasceu em Hong Kong, tendo vivido na Malásia e na Escócia e sido formado em Eton e em Oxford. Seguiu os passos do pai e, enquanto diplomata destacado em Jacarta, trabalhou no dossiê da independência de Timor-Leste.
Rory Stewart disse que não iria tentar mudar o acordo de retirada de May, que foi rejeitado três vezes pelo Parlamento, e afirmou que qualquer pessoa que dissesse que consegue fazê-lo até ao final de outubro estava a "iludir-se ou a iludir o país".
O atual secretário do Desenvolvimento Internacional acredita que pode mudar o sentido de voto de 50 a 60 deputados. "Temos um acordo negociado com a União Europeia sobre a retirada. O que eu faria no Parlamento e com o povo britânico seria resolver essa declaração política e colocá-la à disposição para podermos sair."

O Brexit em versão musculada pelo ministro do Interior

"Alguns argumentam que devemos ter um segundo referendo. Outros, que devemos ter eleições. Alguns até sugerem que devemos revogar o artigo 50.º. Usando as palavras de uma grande primeira-ministra [Margaret Thatcher] que sabia como obter o que queria da Comissão Europeia, não, não, não." É este o ponto de ordem de Sajid Javid, de 49 anos, ministro do Interior.
Filho de um motorista de autocarro paquistanês, Javid é um ex-banqueiro e defensor do mercado livre. Apesar de eurocético, votou a favor da permanência na UE. Mas agora quer levar o Brexit a bom porto, reformulando o acordo antes de levá-lo ao Parlamento, tudo isto até 31 de outubro.
A reformulação do acordo passa pela renegociação do backstop e pela criação de uma fronteira "digitalizada".
"Devemos sair a 31 de outubro. Se não conseguirmos chegar a um acordo, devemos, com grande pesar, partir sem um, tendo feito tudo o que estava ao nosso alcance para minimizar as perturbações."

O único defensor de um segundo referendo

Em 11 candidatos, só um acredita que a solução para o impasse do Brexit passa por devolver a palavra aos eleitores. Esse candidato é Sam Gyimah, de 42 anos, ex-secretário do Ensino Superior e da Ciência.
Filho de pais ganeses, Samuel Gyimah passou parte da infância e adolescência no Gana. Uma vez regressado ao Reino Unido, estudou em Oxford e enveredou pela banca de investimento. Foi eleito deputado em 2010 e chegou ao governo de Theresa May em janeiro de 2018, mas o acordo da primeira-ministra levou-o a demitir-se em novembro.
"Há uma grande variedade de candidatos, mas há um conjunto muito limitado de opiniões sobre o Brexit em discussão", disse à Sky News. "O Parlamento está num impasse, todos sabemos disso. Penso que dar a palavra final sobre o acordo do Brexit é o caminho a seguir."
Gyimah defende um referendo com três opções: uma saída sem acordo, um Brexit baseado num acordo diferente, e a permanência na União Europeia.

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