Vêm aí os asiáticos. O cinema que não fala inglês pode ganhar o Óscar de melhor filme?

Entre os favoritos para os Óscares deste ano (a atribuir em Hollywood, na madrugada de domingo para segunda-feira), 1917 e Parasitas emergem como sintomas das muitas transformações por que têm passado - e estão a passar - a indústria e o mercado dos filmes.

Em julho de 2009, quando preparava o seu filme As Aventuras de Tintin - O Segredo do Licorne, Steven Spielberg protagonizou o estabelecimento de uma aliança cinematográfica francamente inesperada, para muitos injustificada ou mesmo incompreensível. Como membro fundador do estúdio DreamWorks (surgido em 1994) e também proprietário da Amblin (companhia que criou em 1981, quando montava o projeto de E.T. - O Extraterrestre), Spielberg viajou até à Índia. Para fazer um filme? Não exatamente. Antes para oficializar um acordo visando futuras produções com a Reliance Entertainment, uma companhia sediada em Mumbai (antiga Bombaim), envolvendo nada mais, nada menos do que 825 milhões de dólares (750 milhões de euros, ao câmbio atual).

Dir-se-ia que foi nesse ano de 2009 que começou a história da 92.ª edição dos Óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Porquê? Porque é muito provável que, na madrugada de domingo para segunda-feira, a distinção de melhor filme de 2019 venha a ser atribuída a 1917, o épico da Primeira Guerra Mundial que Sam Mendes dirigiu sob a égide dos estúdios Universal, tendo como produtores associados a DreamWorks, a Amblin e a... Reliance Entertainment.

A globalização é isto mesmo. No caso específico do cinema americano, se é verdade que continuamos a associar o nome de Hollywood a uma cultura narrativa muito própria e a conceitos de espetáculo marcados por prodigiosos avanços tecnológicos, não é menos verdade que, ao longo das duas primeiras décadas do século XXI, a história desse cinema é também uma saga de muitas, e muito diversificadas, alianças financeiras. De tal modo que, para lá da sua associação a vários títulos de Spielberg, incluindo Lincoln (2012), a Reliance já surgiu ligada, por exemplo, a O Quinto Poder (2013), o retrato de Julian Assange assinado por Bill Condon e protagonizado por Benedict Cumberbatch, e Ghost in the Shell (2017), de Rupert Sanders, recriando as aventuras de uma heroína da BD japonesa, interpretada por Scarlett Johansson.

De Cannes a Hollywood

Vêm aí os Russos, Vêm aí os Russos, avisava o título de uma deliciosa comédia burlesca americana de 1966, dirigida por Norman Jewison, colocando em cena a aventura de um submarino da União Soviética que, por mera curiosidade geográfica do seu comandante, se aproximava da costa dos EUA, na zona da Nova Inglaterra... Era uma paródia típica dos temas e fantasmas dos tempos da Guerra Fria que, agora, apetece dizer, deu lugar a um outro tipo de "invasão" cinematográfica. Tornou-se claro que os mercados "externos", a começar pela Ásia, são essenciais nas contas de tesouraria da indústria cinematográfica americana. "Vêm aí os asiáticos" - eis a questão.

Como é óbvio, mesmo não esquecendo as singularidades de produção de 1917, neste ano o protagonista dessa "ameaça", afinal uma bênção industrial e comercial, dá pelo nome de Parasitas - e o seu favoritismo tem crescido nas últimas semanas... Com assinatura de Bong Joon-ho, a comédia muito negra da Coreia do Sul começou o seu processo de consagração arrebatando a Palma de Ouro, em Cannes, em maio de 2019. Agora, encontramo-lo na linha da frente dos principais candidatos aos prémios da Academia de Hollywood, com seis nomeações, incluindo as de melhor filme, melhor realização e melhor filme internacional (esta a nova designação do Óscar até agora atribuído ao melhor filme estrangeiro).

Não é uma situação totalmente inédita. Por exemplo, nos Óscares entregues em 2019, Roma, de Alfonso Cuarón, arrebatou três prémios, incluindo o de melhor filme estrangeiro, mas não o de melhor filme do ano (para o qual também estava nomeado). O caso de O Artista (2011), de Michel Hazanavicius, será um dos mais singulares na história da Academia. Sendo uma produção francesa, não era exatamente um filme em língua francesa, já que se apresentava como uma "imitação" do cinema mudo. Não estava, aliás, nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro, mas sim para o de melhor filme... e ganhou (acumulando mais quatro prémios, um deles para o realizador, outro para o ator Jean Dujardin).

Em boa verdade, nessas duas categorias, a história dos Óscares está marcada por muitos cruzamentos de nacionalidades. Desde a cerimónia de 1956, ano em que foi criada a categoria de melhor filme estrangeiro - depois de um período (1947-55) em que existia apenas um prémio honorário para distinguir os filmes em línguas estrangeiras -, são muitos os títulos que, disputando tais categorias, surgiram também em muitas outras.

O italiano Federico Fellini e o sueco Ingmar Bergman são destaques reveladores. Assim, por exemplo, logo em 1956, A Estrada, de Fellini, foi distinguido como melhor filme estrangeiro, surgindo também entre os nomeados para melhor argumento original. Em 1960, A Fonte da Virgem, de Bergman, ganhou também entre os estrangeiros, tendo obtido uma nomeação para melhor guarda-roupa em imagens a preto e branco (categoria que, entretanto, desapareceu).

Ao longo da sua carreira, Fellini obteve 12 nomeações, nas categorias de realização ou argumento, mas nunca ganhou um Óscar competitivo pessoal (recebeu um honorário, em 1993). Ironicamente, isso não o impede de continuar a ser o cineasta que dirigiu mais títulos consagrados com o Óscar de melhor filme estrangeiro. São quatro: o já citado A Estrada e ainda As Noites de Cabíria (1957), Oito e Meio (1963) e Amarcord (1974).

Quanto a Bergman, nomeado oito vezes, também nunca recebeu um Óscar pessoal, tendo sido consagrado em 1971 com o prémio honorário Irving G. Thalberg. O seu Fanny e Alexandre (1982) valeu-lhe mesmo nomeações para realização e argumento original, mas o filme ganhou "apenas" nas outras quatro categorias para que estava nomeado: filme estrangeiro, fotografia, cenografia e guarda-roupa.

"Americanos" e "estrangeiros"

Todas essas memórias remetem-nos para uma época (que podemos situar entre as décadas de 1950 e 1980) em que a produção europeia era tratada na Academia e nos Óscares como a "alternativa" artística aos conceitos industriais de Hollywood. De alguma maneira, esse era também um reflexo ambíguo do facto de, a partir dos anos 1930/1940, o sistema de estúdios ter sido enriquecido e consolidado por muitos realizadores, atores e técnicos que iam chegando aos Estados Unidos, fugindo das convulsões no continente europeu, em particular a ascensão do nazismo. Afinal de contas, Alfred Hitchcock, Fritz Lang ou Michael Curtiz (o realizador de Casablanca) eram todos de origem europeia.

Simbolicamente, talvez possamos considerar que a "invasão" asiática começou em 2001 com O Tigre e o Dragão, de Ang Lee: relançando a moda dos filmes de artes marciais através de uma nova abordagem técnica e melodramática, a produção de Taiwan conseguiu a emblemática dupla nomeação - melhor filme e melhor filme estrangeiro -, vencendo nesta última categoria (e ainda em fotografia, cenografia e música).

Seja como for, o país asiático com melhor desempenho na categoria de filme estrangeiro continua a ser o Japão, com quatro vitórias, tantas quanto obteve a Espanha. Só dois países superam, de longe, este números: Itália e França, com 14 e 12 Óscares, respetivamente.

A confirmar que nada disto pode ser reduzido a uma oposição esquemática entre "americanos" e "estrangeiros" está a própria trajetória do realizador de Parasitas. Bong Joon-ho adquiriu notoriedade nos mercados internacionais graças a The Host - A Criatura (2006), produto típico de uma certa tradição asiática do terror, encenando a cidade de Seul sujeita aos ataques de uma figura monstruosa. Mais recentemente, surgiu a assinar Okja (2017), também sobre um gigantesco animal, agora em tom de parábola ecológica.

Apesar de não ter chegado aos prémios da Academia de Hollywood, Okja não deixa de apresentar características que, de certo modo, ecoam nos Óscares deste ano. Isto porque foi uma das primeiras grandes produções internacionais da plataforma de streaming Netflix (em associação, entre outras entidades, com a produtora Plan B, de Brad Pitt).

Em contexto francês, o filme esteve no centro de toda uma polémica motivada pelo facto de ter sido integrado na seleção oficial do Festival de Cannes, sem que a Netflix se submetesse às pressões dos exibidores franceses, considerando que não fazia sentido o certame acolher produções que, depois, não fossem mostradas nas salas do país. Os protestos dos exibidores envolviam, aliás, outra produção da Netflix: The Meyerowitz Stories (New and Selected), de Noah Baumbach.

Neste ano, Parasitas ilustra o regresso de Bong Joon-ho à produção do seu país, ao mesmo tempo que, com Marriage Story, Baumbach está também na corrida aos Óscares principais, com seis nomeações, incluindo melhor filme, mas não melhor realizador. Sem esquecer que Marriage Story é um dos trunfos do ano da Netflix, tal como O Irlandês, de Martin Scorsese, com dez nomeações, entre as quais uma para melhor filme, outra para melhor realizador e duas para melhor ator secundário (Al Pacino e Joe Pesci).

Mais do que as diferenças geográficas, a paisagem sem fronteiras do streaming está, para o melhor ou para o pior, a marcar todo o cinema contemporâneo.

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