PSD encheu a boca de "unidade" mas as feridas continuam abertas

No segundo dia do 38.º Congresso do PSD faltou algum brilho aos apelos quase unânimes de unidade no partido. O PSD encheu a boca com a palavra, mas as feridas da disputa interna continuam abertas. Luís Montenegro deu sinais de que vai mesmo andar por aí, sem se calar. E os ruistas acabaram a pedir o fim do "cinismo".

"O problema foi o almoço, os sinais de que isso transmite que não vai dar tréguas ao líder, nem ele nem os que o apoiam." O almoço que causa preocupação nos dirigentes próximos de Rui Rio, que neste domingo fará o discurso de consagração como líder reeleito a falar para o país, foi o de Luís Montenegro com os seus apoiantes num restaurante de Viana do Castelo, onde decorre o congresso. E os sinais até foram evidentes quando o candidato derrotado à liderança do partido subiu ao palco para discursar. Preto no branco, para não existirem dúvidas, disse que não irá calar-se. Os homens de Rio contra-atacaram imediatamente.

Luís Montenegro começou por insistir na ideia de que não vê nem em Rio nem em Miguel Pinto Luz - que fez um discurso muito equilibrado - adversários. Nunca sem abdicar das ideias que o conduziram à candidatura à liderança e com as quais procurou demarcar-se do líder eleito. Disse que é preciso ir buscar os votos dos que já não acreditam no PS. "Não somos o partido da troika, somos o partido do reformismo e da transformação". Por isso, garante que o PSD não pode esperar que o PS esgotado perca as eleições: "É preciso ganhar pelo mérito das nossas propostas"; "se a geringonça ruir, o PSD não pode ser a tábua de salvação de António Costa"; "se acontecer, só resta a António Costa demitir-se e ir à sua vida", frisa. Levantou o congresso, que gritou "PS, PSD" - a primeira farpa a insinuar que o presidente do partido continua à espera de se aliar aos socialistas na governação.

E foi ainda mais claro quando entrou no tema da unidade. "Precisa mesmo, todos temos de contribuir para isso! Temos de dizer uma coisa e não fazer outra. Há demasiada crispação e excessos que são de responsáveis políticos que não devem continuar. O partido precisa de tolerância e de respirar mais liberdade e menos seguidismos." Invocou a sua condição de militante, mas citou o exemplo de Sá Carneiro quando disse "o que não posso, porque não tenho o direito, é calar-me". Uma promessa clara de que vai andar por aí, sem baixar os braços.

Pouco depois, Paulo Cunha, presidente da Câmara de Famalicão e que lidera a lista ao Conselho Nacional da ala montenegrista, ajudava a acentuar a ideia de que Rio é um líder que não está disponível para dar a mão a quem o desafiou - ainda que o próprio Rio tenha garantido que o fará se existir "lealdade".

"Não se entrincheire entre os seus! Se o PSD quer ser forte não pode dispensar ninguém, nenhum militante, nenhum autarca." Paulo Cunha, o autarca mais votado do PSD, deixou o desafio ao líder: "Não torne o PSD um partido de sentido único, que exclui."

Um tom que já tinha sido o de Hugo Soares, antigo líder parlamentar do PSD e braço direito de Montenegro, que também se recusou a abdicar das ideias. Citou Rui Rio sobre o combate ao populismo, que nas últimas eleições os dois maiores partidos saíram reforçados. "Ora, o PSD perdeu eleitores, lugares e as eleições. O PSD saiu reforçado onde?" Em remoque aos resultados eleitorais do PSD nas legislativas, os parcos 28% conseguidos. "É hora de deixarmos de ser socialistas de segunda, somos sociais-democratas." Mais uma tentativa de passar a ideia de que Rio está refém do PS.

Hugo Soares falou antes de Rio ter assumido na RTP que não se opõe à ideia de Mário Centeno no Banco de Portugal, mas não deve ter gostado de o ouvir...

Do lado de Rui Rio a resposta não tardou. O secretário-geral do partido, José Silvano, que se mantém no cargo, e o vice-presidente Salvador Malheiro saltaram em defesa do líder e pediram aos críticos que abandonem o "cinismo", que "só fez mal ao PSD".

Fora do Pavilhão Cultural de Viana do Castelo, fontes próximas de Rio insistiram na ideia de que do lado de Montenegro não há vontade de trabalhar com a direção do partido, ainda que a segunda volta das diretas tenha sido muito clara no resultado. Existia também a preocupação de que na proliferação de listas ao Conselho Nacional, pelo menos umas três pró-Rui Rio, os votos se dispersem e as afetas a Montenegro e a Pinto Luz acabem por conseguir um número superior de conselheiros. A votação decorre neste domingo de manhã, antes do encerramento do congresso e são dez as concorrentes ao Conselho Nacional e quatro ao Conselho de Jurisdição Nacional.

Pinto Luz "no ativo" contra os "senadores porque sim"

Seja como for, atitude e palavras muito diferentes teve o candidato à liderança que não passou à segunda volta. Miguel Pinto Luz em momento algum assacou erros ou responsabilidades passadas a Rio. Preferiu projetar no futuro. Afirmou que se candidatou à liderança, não ficou na "reserva ou preso a "taticismos", porque quis contribuir para o debate interno. "Fui derrotado, mas só não ganha quem nunca foi capaz de disputar eleições." Mas assegura que as suas ideias não foram derrotadas sobretudo para conquistar as novas gerações.

Miguel Pinto Luz foi às propostas da sua moção sobre saúde, educação e ambiente para demonstrar que continuam válidas. "A partir de hoje essas ideias não são minhas, são de todas vós, de todos que as queiram utilizar para servir os portugueses."

"As eleições autárquicas somos obrigados a ganhá-las. É preciso regenerar, há muitas pessoas que são boas e nunca tiveram oportunidade. Dr. Rui Rio não tenha medo dos novos rostos, da diferença. Eu sei que não tem." Para ganhar esta eleição, assegurou, é preciso escolher os melhores rostos.

"Não podemos olhar para esta eleição com olhar cínico à espera de que tudo corra mal" e saírem os senadores a apontar o dedo e darem a cara pelo partido. "São senadores apenas porque acham que sim, somos senadores pelo serviço que prestamos ao nosso partido e ao nosso país." E garantiu: "Não estou na reserva, estou no ativo para ajudar a derrotar o PS. Contem comigo para fazer do PSD o maior partido da democracia portuguesa."

Rangel aberto ao Porto pede referendo à eutanásia

Uma das figuras com maior destaque neste segundo dia de congresso foi Paulo Rangel, que acabou mesmo a liderar a lista de Rui Rio ao Conselho Nacional. O eurodeputado acabou por assumir nos bastidores que "não exclui nada à partida" quando questionado sobre uma eventual candidatura à Câmara do Porto, de onde é natural, nas autárquicas de 2021. Embora com muitos ses pelo meio.

Entre os apelos à unidade efetiva, para que o partido se mobilize para os combates eleitorais, a começar pelas autárquicas, Paulo Rangel pediu um referendo à eutanásia.

As restantes intervenções dos delegados não fugiram muito deste tom, sem grandes picos de emoção. O partido olhou mais para dentro do que para fora e as eleições autárquicas são a preocupação unânime dos sociais-democratas. Como disse o próprio Rio, mas também Paulo Rangel, é preciso o PSD recuperar substantivamente nas próximas eleições, sendo certo que as regionais dos Açores também estão na mira do partido.

Listas de "continuidade com alguma renovação"

Rio assumiu em pleno congresso que as entradas e saídas dos órgãos nacionais causaram-lhe mais alguns inimigos. A renovação deu-se no núcleo duro da direção, a Comissão Permanente, com duas saídas - a de José Manuel Boleiro, agora presidente do PSD-Açores e candidato ao governo regional, e de Elina Fraga, a antiga bastonária da Ordem Advogados, que está a ser investigada pelo Ministério Público por um processo relacionado com esse cargo. O secretário-geral do PSD apelidou as listas de "continuidade com alguma renovação".

Para o lugar destes dois vices entram André Coelho Lima, deputado por Braga que já era vogal da Comissão Política, e Isaura Morais, ex-autarca de Rio Maior e deputada. Mantêm-se David Justino, Isabel Meireles, Nuno Morais Sarmento e Salvador Malheiro.

Mudanças também na liderança do Conselho de Jurisdição Nacional. Rio não voltou a convidar o antigo chefe da Casa Civil de Cavaco Silva, Nunes Liberato, para assumir a lista oficial àquele cargo. Preferiu escolher o antigo líder parlamentar Fernando Negrão. Manteve, no entanto, Paulo Mota Pinto como presidente da Mesa do Congresso.

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