River-Boca. O dérbi vai ser jogado noutro continente

Os dois clubes de Buenos Aires decidem hoje a Taça Libertadores em Madrid. Uma história marcada por conflitos sociais, políticos e uma disputa desportiva intensa.

O jornal The Guardian elaborou há uns anos uma lista com as cem coisas que uma pessoa devia fazer antes de morrer. Entre elas estava ver ao vivo no La Bombonera um jogo entre o Boca Juniors e o River Plate, para muitos o maior clássico do futebol mundial.

Hoje (19.30, Sport TV2), os dois clubes decidem a Taça Libertadores em Madrid, no Bernabéu, a casa do Real Madrid, devido aos episódios de violência registados antes da partida da segunda mão (o primeiro jogo terminou empatado a dois golos), que aconselharam que o jogo fosse adiado e disputado longe da Argentina.

A história da rivalidade entre Boca Juniors e River Plate tem mais de 100 anos. E não se explica apenas no campo desportivo. Vai muito além disso! Os dois clubes foram fundados no mesmo bairro, em La Boca, Buenos Aires, onde ainda hoje está situado o La Bombonera. O River foi criado em 1901, o Boca em 1905.

Mas o que começou como uma simples rivalidade de bairro ganhou dimensões gigantescas, com contornos sociais e políticos. Em 1930, depois de uma doação de terrenos, o River deixou o bairro pobre para se instalar a norte de Buenos Aires, numa zona nobre da cidade. Por isso ganhou a alcunha de milionarios. O Boca manteve-se em La Boca, com o cognome de xeneizes, homenagem aos genoveses que fundaram o bairro. E a partir daqui a rivalidade passou também a ser vista como o povo vs. a elite.

Em 1976, com o golpe de Estado que derrubou a presidente Isabel Péron, o país foi governado por uma junta militar numa ditadura de quase 20 anos. E o River Plate passou a ser considerado o clube do regime, porque os três militares que chefiavam a junta militar eram adeptos e sócios honorários (haveriam de ser expulsos em 2003). O River começou a ser conotado com a direita; o Boca e outras equipas populares, com a esquerda resistente. Por isso, nestes anos, os clássicos também eram uma guerra política.

Foi muito devido a estes contornos sociais e políticos que a rivalidade entre os dois clubes aumentou, muitas vezes marcada por graves episódios de violência. O mais brutal aconteceu em 1969, no Monumental de Nuñez, casa do River. Após o jogo (0-0), os adeptos do Boca tentaram sair do estádio, mas muitos acabaram esmagados porque a porta daquele setor estava fechada. Morreram 71 pessoas e mais de cem ficaram feridas, num episódio que ficou conhecido como a Tragédia da Porta 12.

Ainda hoje, uma das maiores alegrias dos adeptos do Boca Juniors foi a descida de divisão do River Plate, em 2011, que tornou os xeneizes, a par do Defesa e Justicia, como os únicos clubes argentinos que nunca foram despromovidos. Foi como um sinal de superioridade. O pior momento desportivo dos milionarios ainda hoje é motivo de troça dos adeptos do Boca, que nos clássicos provocam os rivais com a música River Decime Que Se Siente.

Mas um Boca-River é também paixão, emoção e espetáculo. E tem até um lado romântico. O escritor uruguaio Eduardo Galeano dedicou capítulos do livro Futebol ao Sol e a Sombra ao futebol argentino. E, claro, não passou ao lado do Boca-River. "Tenho um céu e um inferno... que se alimentam mutuamente. Pode imaginar o que seria de Deus sem o diabo, pobre? Se iria a um fundo de aposentadoria, teria de se aposentar. É como imaginar o River sem Boca ou o Boca sem River", escreveu.

Também fez referência a Di Stéfano, um dos grandes jogadores da história do River, que curiosamente treinou as duas equipas: "O campo inteiro cabia nas suas chuteiras (...) corria e corria pela relva: com a bola, mudando de rumo, mudando de ritmo, do trotezinho cansado ao ciclone incontido."

Adepto ferrenho do Nacional do Uruguai, Galeano dedicou um texto a um célebre golo de Atilio García, num jogo diante do Boca Juniors. "Recebeu a bola, enfrentou uma selva de pernas, abriu espaço pela direita e engoliu o campo comendo rivais (...) a bola fazia parte do corpo de Atilio e ninguém podia parar esse redemoinho que derrubava jogadores como se fossem bonecos de pano, até que por fim Atilio se desprendeu da bola e o seu disparo sacudiu a rede. O ar cheirava a pólvora."

Pelos dois clubes rivais argentinos passaram alguns dos melhores jogadores sul-americanos de todos os tempos. Nomes como Di Stéfano, Mario Kempes, Daniel Passarella, Enzo Francescoli, Marcelo Salas, Hernán Crespo, Sorín e Pablo Aimar fizeram parte da história do River; Diego Maradona, Juan Riquelme, Martín Palermo, Tévez, Batistuta, Burdisso e Caniggia estão no museu do Boca Juniors.

Esta é a primeira final da Taça Libertadores que tem os dois clubes como finalistas. Mas Boca e River protagonizaram ao longo dos anos vários jogos históricos. Uns pelos piores motivos, como nos oitavos-de-final da Libertadores de maio de 2015, em que os adeptos xeneizes lançaram gás pimenta na direção dos jogadores do River no túnel de acesso ao relvado, o que custou a eliminação do Boca. Outros pela emoção - um dos melhores exemplos foi um clássico disputado em 1997 em que o Boca vencia por 3-0 na casa do rival, mas que depois do intervalo o River arranjou forças para empatar. Ou até por imagens icónicas que duram até hoje - em 1996, no La Bombonera, Diego Maradona e Claudio Caniggia beijaram-se na boca após o primeiro golo.

Nesta noite, em Madrid, debaixo de fortes medidas de segurança, os dois clubes jogam aquele que já é considerado o clássico do século. "A equipa que perder vai demorar 20 anos a recuperar", disse recentemente o presidente argentino, Mauricio Macri, que curiosamente foi líder do Boca Juniors antes de chegar à presidência.

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