"Sou fadista mas sonho relatar um jogo de futebol"

Carlos Leitão foi jornalista desportivo, mas a vocação que sentia desde criança triunfou. Ganhou agora um prémio pelo tema Um Quarto para as Duas.

Carlos Leitão está sentado numa esplanada frente ao Museu do Fado e mesmo quando pede uma água o vozeirão não passa despercebido. Também a mim, há uns 20 anos, quando fui professor do agora reputado fadista, recente vencedor do prémio o International Portuguese Music Awards, o vozeirão me impressionou, mas imaginava-o a ser usado para relatar jogos de futebol na rádio, afinal Carlos (é assim que o trato, e o tu é agora a regra entre nós) sonhava ser jornalista e era com esse objetivo que estava a tirar o curso de Comunicação Social no Instituto Politécnico de Setúbal. "Estava a pensar ser jornalista de desporto, de futebol sobretudo. Foi o que me motivou a tirar o curso. Fiz um dia um relato de um Benfica-Paço de Arcos, na Voz de Almada, mas nunca um de futebol", conta, ele que trabalhou durante uns anos como jornalista, estagiou n'A Bola e até foi durante algum tempo meu camarada de redação no DN, escrevendo para um suplemento dedicado aos automóveis.

Nascido em Lisboa em 1979, viveu na Margem Sul, mas, filho de alentejanos, um dia cansou-se da capital e foi viver para Arraiolos. Ali manteve-se jornalista mas freelancer e foi retomando a ligação ao fado, que vinha de pequeno.

"Comecei a cantar aos 10 anos. O meu avô paterno tocava requinta e o meu pai ouvia muito fado. Com 11 anos ganhei a Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios, na categoria de juvenis. Foi uma letra que a minha mãe escreveu e a música era de um fado tradicional do Alfredo Marceneiro. O fado manteve-se mas como hobby, aprendi a tocar viola e gravei umas cassetes e até um disco quando tinha 17 anos. É já perto dos 30 anos que o fado finalmente ganha ao jornalismo e com o meu nome já um pouco mais conhecido recebi o convite para integrar o elenco do Clube de Fado, onde estou há dez anos", conta.

As voltas da vida trouxeram-no de novo para perto de Lisboa, ainda que a sul do Tejo, em Azeitão, mas confessa que continua a ser no Alentejo que se sente mais inspirado. "O Alentejo tem um deslumbramento natural que todos nós reconhecemos e tem acoplada a isso uma carga melancólica muito forte. Para um tipo ligado ao fado, isso é ouro. O meu primeiro disco de originais escrito por mim foi todo ele feito no Alentejo. Comecei a escrevê-lo aos 24 anos. Foi o primeiro desses três discos meus oficiais", explica sentado em Alfama, não longe de onde costuma cantar para quem gosta de fados ao jantar, numa Lisboa que a pandemia quase esvaziou de turistas. Sobre isso, e o impacto em quem trabalha na cultura, Carlos não tem dúvidas e lança o alerta: "A covid afetou toda a gente a nível de trabalho, mormente a parte turística e as casas de fado, os concertos, com uma diferença grande: quem faz concertos não tem contratos de trabalho. Quando não há concertos, não se ganha. Depois cabe a cada um fazer a sua gestão para se precaver. Isto foi inesperado e tenho a certeza de que foi um colapso total para muita gente, principalmente para os técnicos, os motoristas, os roadies. O artista, para ser artista, tem de ter uma série de gente à roda que as pessoas não conhecem, mas esses são os primeiros a ir ao ar."

A trilogia, que Carlos diz ter agora encerrado, tem como títulos Do Quarto (2013), Sala de Estar (2017) e, este último, Casa Vazia.

Entre discos, concertos e casa de fado, o antigo jornalista vai construindo a sua carreira. Por vezes leva o fado até lá fora e tem um público muito especial entre os austríacos. "São melómanos. Desde a gaiatice que têm aulas de música e de esqui. Os austríacos são instruídos a irem conhecer, experienciar, para irem avaliar se gostam ou não e isso para um artista é extraordinário. É o que todos procuramos", diz.

A assistir à conversa está Vanda Salgueiro, que tem um duplo papel na vida do fadista: "A Vanda era um quadro superior da EDP e teve a ideia absurda de largar o conforto que tinha, já depois de casarmos. Estamos juntos há sete anos e só há três é que ela largou o trabalho que tinha. Houve um dia em que me disse 'tu precisas de um manager mas não confias em ninguém e eu estava a pensar tirar um curso de management e fazer esse trabalho'. Tirou o curso na ETIC e passados uns tempos ele andava tão entusiasmada com o trabalho que tínhamos que veio a hipótese de largar aquilo."

Além do Carlos, Vanda Salgueiro é também manager de Lenita Gentil. E isso traz à conversa um sentimento muito curioso que o fadista diz sentir: o associar-se o fado a vozes femininas. "O fado é uma questão complicada porque é um meio misândrico, aos olhos do público. As pessoas conotam o fado - muito por culpa da Amália - com as mulheres, então no estrangeiro é gritante. As pessoas não imaginam como é difícil vender um espetáculo de um homem fadista no estrangeiro. Não só pela Amália mas depois pelo caminho de sucesso que foi seguido por Mariza, Ana Moura, Cristina Branco. Tirando o Carlos do Carmo, o Camané e ultimamente o Ricardo Ribeiro, é essencialmente mulheres. Eu e todos os homens que cantamos em casas de fado gostamos de explicar, não por ressabiamento, que havia uma realidade que não era só de mulheres. O Alfredo Marceneiro é um nome incontornável e curiosamente muitos estrangeiros o conhecem."

Carlos sente o fado como o seu destino (reforçado pelo prémio para o tema Um Quarto para as Duas) e não há planos para regressar ao jornalismo. Curiosamente, o homem do vozeirão, tão apegado ao Alentejo e admirador do cante, não se atreve a experimentá-lo. "Só em tertúlias, oficialmente nem quero. Tenho demasiado respeito por aquilo. Quando não estão a cantar é tudo malta de copos e petiscos, tudo superinformal, mas há uma carga mística quando eles se juntam para cantar e eu não quero passar a linha que me separa daquele misticismo", nota. Mas, e voltando ao jornalismo, o relatar um jogo de futebol, do seu Benfica já agora, isso sim atrever-se-ia se fosse desafiado: "Se uma rádio me desafiasse a fazer um relato, não só alinhava, como até ia a Fátima agradecer - eu que sou um ateu convicto."

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