"Não hipovalorizo os homens, nem quero hipervalorizar as mulheres, mas cuidar é inato nas mulheres"

Maria Amélia Ferreira foi a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde continua a dar aulas e a fazer investigação. Também é provedora da Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses e é nessa qualidade que elege as mulheres que trabalham nesta área da proteção social como as grandes heroínas da luta à pandemia de covid-19. Num discurso sobre o saber cuidar que, garante, é tudo menos feminista.

É médica, investigadora e provedora da Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses. Segue esta luta contra o novo coronavírus em várias frentes...
A minha principal atenção tem que ver com a área social e da saúde nesta grande estrutura que é a União das Misericórdias. A nível da carreira académica, uma Faculdade de Medicina tem de se focar nos problemas de saúde pública e atuais da sociedade e o covid-19 é claramente uma situação dessas. A minha preocupação atual em relação à Faculdade de Medicina é o modo como uma pandemia deste tipo interfere na educação dos futuros profissionais de saúde e como temos de lidar com o ensino e a aprendizagem.

É um desafio?
Foi um desafio muito forte para as instituições, que tiveram de adaptar as suas modalidades de ensino - uma faculdade de medicina tem uma componente presencial muito grande, temos de ver os doentes, de ter atividade laboratorial. Estão a ser desencadeados processos que no futuro vão ser muito úteis em termos de aproveitamento da relação médico/doente e tudo o resto ser feito à distância. Mas de modo algum tem de ser despriorizada a relação pessoal com o doente. A relação médico/doente é a mais importante no exercício da medicina.

Como é que Portugal vai ultrapassar esta pandemia?
Estou confiante de que vamos ultrapassar esta situação. Neste momento, os números são razoavelmente positivos em relação aos outros países, com a reserva que faço da necessidade premente de haver testes. A dificuldade que tem havido na realização dos testes pode alterar os números que diariamente a Direção-Geral da Saúde (DGS) nos vai transmitindo.

Podem não ser os reais?
Sim, e chamo a atenção para situações que podem ser dramáticas, como é o caso dos lares e das instituições que tratam da população mais fragilizada - e aqui passo à minha função de provedora e de pessoa que trabalha na área da proteção social. Quando começarem a ser realizados os testes de forma massiva nos lares, o cenário traçado relativamente à pandemia pode alterar-se.

No lar da Santa Casa que dirige há idosos infetados?
Não foram ainda feitos testes aos utentes e aos funcionários, não temos nenhum caso sintomático. A instituição conseguiu estruturar-se de modo a setorizar os diferentes andares, ter uma política de higienização e constituição de equipas- espelho. Não acontece em todo o lado. Com uma vantagem muito grande: temos desde há muitos anos um médico contratado de medicina geral e familiar que vai ao lar avaliar os 60 utentes. Temos também equipas de enfermagem, o que não acontece na maioria dos lares em que a única coisa que é obrigatório é ter uma enfermeira para 40 utentes. Esta desgraça que nós temos ouvido de Aveiro e de Vila Real, com mortes de pessoas, é muito fácil de acontecer.

Quando tomaram essas medidas?
Desde muito cedo, antes das recomendações da DGS proibimos as visitas - às vezes com alguma má compreensão, o que também se percebe. O isolamento foi rapidamente ultrapassado com telechamadas - usamos os nossos iPads, telefones, e pusemos as pessoas a verem-se umas às outras. Foi uma política não reativa, mas proativa.

E no hospital da Misericórdia qual é a situação?
É um hospital aberto à comunidade, mas que tem internamento muito especial, ou seja, para utentes muito idosos que estão à espera para entrar no lar. É um hospital de doentes crónicos e que podem agudizar. O nosso diretor clínico é o professor Agostinho Marques Lopes, que durante 30 anos foi diretor do serviço de pneumologia do hospital de São João.

Há infetados internados?
Uma senhora internada teve de ir ao hospital de Penafiel e fizeram-lhe lá o teste que deu positivo. À custa da Misericórdia testámos todos os doentes e funcionários do hospital e dos cuidados continuados porque são áreas muito sensíveis. Detetámos quatro caso positivos que estavam no mesmo andar. Foram isolados, tratados - uma das pessoas tem 93 anos. Instituímos um tratamento que tem sido estabelecido com a hidroxicloroquina e azitromicina e estão sem sintomas. Não temos mais nenhuma situação além de uma funcionária que está em casa de quarentena. Está a ser uma sobrecarga muito grande, não temos apoio do Ministério da Saúde. Estamos a assegurar tudo, com as dificuldades que se sabe na obtenção de equipamento de proteção social.

Quanto gastaram em testes e equipamentos?
No que encomendámos, temos à volta de 100 mil euros e só em testes gastámos 6 mil euros. E as empresas exigem pagamento à cabeça, temos de pagar primeiro e depois esperar que chegue. A União das Misericórdias Portuguesas tem estado a acompanhar todo este processo e tem tido um papel muito relevante junto do governo, particularmente do Trabalho e da Solidariedade Social e da Saúde, mas as respostas não têm sido muito eficazes. Até ao momento não chegou nenhuma das encomendas feitas quer ao Infarmed quer à Cruz Vermelha. E porque acabámos por cancelar as consultas e cirurgias, o aporte económico reduziu brutalmente e temos de pagar ordenados. Além desta crise da saúde, a crise económica vai ser dramática.

Em termos gerais, onde é que tem havido falhas?
Na proteção dos idosos... estarmos a portar-nos mais reativamente do que proativamente, mas também ninguém estava preparado para uma coisa destas. E temos de ter números corretos.

E o que está a correr bem?
O empenho dos portugueses, embora haja sempre os outliers. Mas tem corrido bem o facto de mais uma vez as instituições de solidariedade social assumirem a defesa dos mais fracos em pontos onde o Estado não tem dado respostas. E os lares e os mais idosos têm sido esta situação.

Esta pandemia vai alterar a forma como nos posicionamos?
Vai mudar completamente. Vai mudar os nossos valores de vida, a tipologia do próprio consumo. Começou a emergir aquilo que de facto é importante na vida. O isolamento a que somos obrigados consegue transmitir-nos de uma forma muito mais forte o que significa a comunidade, que a nossa vida não depende só de nós, das nossas escolhas, porque estamos na mão uns dos outros.

Também uma oportunidade para olharmos de outra forma para os idosos?
Dos mais frágeis, sem dúvida. Numa altura em que temos uma inversão demográfica muito grande, claramente estamos a ver que os idosos, para além da idade, têm muita doença associada que os torna muito mais frágeis. Há muita gente a viver isoladamente. Aqui na Misericórdia criámos um serviço móvel de saúde multidisciplinar para as freguesias mais afastadas - já estávamos a seguir cerca de 150 idosos, muito isolados, muitas mulheres. É aquilo que muitas vezes o professor Adalberto Campos Fernandes dizia: somos um país de mulheres, velhas, pobres, viúvas e doentes.

"Depois disto, todos nós vamos ter muita consciência da finitude da vida."

Vamos sair mais unidos, mais solidários, ou quando passar voltamos a olhar para o umbigo?
Vamos ser mais solidários. Vamos tirar a lição, não estávamos habituados a partilhar e a compartilhar muito das nossas vidas. E isso vê-se por exemplo nas questões do isolamento, que pode dar para o bem ou para o mal. Há muitas situações em que as pessoas são incompatíveis, que têm dificuldade em viver juntas. A responsabilização dos pais pela edução e formação dos filhos nesta altura é mais evidente. Tudo isto, não sei até que ponto nos pode trazer surpresas desagradáveis em termos de violência doméstica. Que a vida vai mudar, vai. Não tenho a mínima dúvida de que, depois disto, todos nós vamos ter muita consciência da finitude da vida, e ainda mais se algum dos nossos amigos morrer com isto. E estamos a ter muito mais respeito pelas pessoas que trabalham na área da saúde. Este momento mostrou que essas pessoas estão a dar o corpo às balas e estão onde são precisas para salvar outras vidas. É uma demonstração muito relevante do que é o profissional de saúde e de quem, para salvar vidas, está a pôr em risco a sua própria vida e a de familiares.

"O que se está a tratar é de colocar os valores em primeiro lugar e esta foi uma oportunidade mágica para que isso possa ocorrer. E isso é o sentido mais explícito de humanidade."

Também pode ser uma oportunidade para humanizar a medicina?
A humanização da medicina era algo que estava a ser muito bem trabalhada por uma série de organizações, entre as quais a Ordem dos Médicos, até com a publicação de um livro sobre a relação médico/doente e que estava proposta para ser património imaterial da humanidade. Os aspetos da humanização da medicina são cruciais numa fase em que a tecnologia teve um desenvolvimento muitíssimo grande. Como costumo dizer, é muito mais fácil ensinar técnicas do que ensinar a ser boa pessoa e a cumprir com os deveres que se têm de cumprir. Com esta situação, vemos que as pessoas estão dispostas a ir para a frente da luta e para a defesa dos seus pares, dos cidadãos, da humanidade. O que se está a tratar é de colocar os valores em primeiro lugar e esta foi uma oportunidade mágica para que isso possa ocorrer. Isso é o sentido mais explícito de humanidade.

Que palavras diria aos seus colegas que estão na linha da frente?
Que, neste momento, eles representam aquilo que pautou a escolha que fizeram da profissão e que representam os valores que pautam e referenciam - o que é humanização. Claramente o papel do profissional de saúde é um legado para as próximas gerações, de exemplo de altruísmo competente. Gente que demonstra competência, mas também a disponibilidade para com os outros.

Num artigo que escreveu para a União das Misericórdias, elegeu as mulheres como as heroínas desta batalha.
Vamo-nos entender: eu estava a preparar uma peça para a União das Misericórdias sobre uma mudança de paradigma, que tem que ver com um número já muito elevado de mulheres que estão à frente - em 2020 temos 68 provedoras, um cenário que não existia há uns anos. E são mulheres cuja maioria ainda mantém a sua atividade profissional, que consegue conciliar atividades exigentes - como eu tenho e tive enquanto diretora da faculdade, mantendo a provedoria da Santa Casa - ao mesmo tempo que mantém o resto das funções de mães de família e donas de casa. Fazemos aquilo que as mulheres sabem fazer, que é muita coisa ao mesmo tempo.

"Uma das características fundamentais das mulheres é que são cuidadoras."

Estava, portanto, a falar das mulheres que trabalham nas Misericórdias...
Elegi as mulheres porque quando olhamos para este contexto de gente que cuida de todos estes utentes, toda esta gente que está sujeita a esta infeção, que está nos lares, que trata dos idosos, claramente que são mulheres. Grande percentagem das técnicas sociais são mulheres, a grande percentagem na enfermagem ainda são mulheres, as auxiliares de ação médica são mulheres, as cozinheiras são mulheres, a psicologia tem muitos homens mas também tem mulheres, na direção e no campo das redes de cuidados continuados estão mulheres. Emerge aqui uma população que tipicamente e caracteristicamente cuida. Uma das características fundamentais das mulheres é que são cuidadoras. Não nos podemos esquecer que as mulheres são as mães dos homens. Se temos homens de jeito devem às mulheres que são suas mães.

Pegou nas palavras do cardeal Tolentino de Mendonça quando ele diz que é a esperança que faz andar o mundo para lhe dizer que ele está errado...
A mulher materializa a esperança. E quando ele diz que a coisa mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe, também são os olhos das mulheres. E eu digo que são as mulheres das Misericórdias que olham e cuidam e nós, neste momento, devemos-lhe um reconhecimento muito grande. Mas também a nível dos hospitais. Mais de 80% da nossa população que cuida no dia-a-dia nas Misericórdias e que, nesta altura, está na frente da batalha, têm de limpar os espaços, tratar da comida, dos aspetos sociais... Não hipovalorizo o valor dos homens, nem quero só hipervalorizar o papel das mulheres, mas de facto neste aspeto de cuidar é inato nas mulheres.

Não é um discurso feminista, é um discurso realista?
Não é feminista. Eu não tenho um discurso feminista, nem nunca tive. Acho que os discursos feministas têm de ser focados na igualdade de oportunidades. Tem de haver igualdade de oportunidades e isso é o que não tem havido naquilo que é a discussão de género. As mulheres não têm tido as mesmas oportunidades e, quando se fala disso, fala-se de direitos humanos.

Mas não se define como feminista? Pelo que eu li de si, diria que é feminista e não estou a ser pejorativa.
Não, eu percebo o que está a dizer. Quando dei o artigo a ler antes de o enviar para a publicação, também me disseram que, se não fosse nesta altura, poderia ser considerado um discurso feminista.

"Eu não preciso de queimar soutiens até porque só tenho uma parte do soutien porque tive cancro de mama."

Mas já chegou a dizer que as mulheres do norte é que deviam mandar no país...
Ah, mas isso não tenha dúvida, foi o Miguel Esteves Cardoso que disse e lá tinha a sua razão. São mulheres com pelo na venta, como se costuma dizer. Já começou com a D. Antónia Ferreira. As mulheres do norte são mulheres muito sofridas...

As mulheres do sul podem ficar zangadas...
Não, não ficam nada zangadas, nem é um discurso feminista, eu acho que isto tem de ser feito.

Mas é feminista ou não?
Eu não sou feminista, mas tenho a noção exata e custa-me, e sofro, com a diferença de oportunidades que as mulheres têm em relação aos homens. Para que uma mulher se afirme em posições de chefia pode ter a certeza de que tem de ser muito melhor do que qualquer homem que possa assumir o mesmo posto. E não é por qualquer outra razão que só ao fim de 190 anos é que a Faculdade de Medicina do Porto teve uma mulher como diretora.

Não faz mal sermos feministas...
Não, não.

Ser feminista hoje em dia já não é andar a queimar soutiens...
Costumo dizer que não é preciso queimar soutiens, eu não preciso de queimar soutiens até porque só tenho uma parte do soutien porque tive cancro de mama e, portanto, dou muito valor ao que é cuidar nestas situações de fragilidade.


Que idade tinha quando teve cancro de mama?
Tinha 50 anos e correu tudo bem. Um dos aspetos que eu nunca mais me esqueço é a perceção daquilo que nos fica, de que precisamos de muito pouco na vida para sermos felizes. E muito pouco de materialidade. Temos a noção de que não morremos, não é? Confrontados com a morte, vemos exatamente isso. Um outro aspeto que também nunca mais me esqueço é que estive sempre a trabalhar e que a primeira aula que dei depois de ter passado pela quimioterapia, radioterapia, mastectomia, tudo isso, foi uma aula sobre tórax e sobre mama. Acho que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Aguentou-se?
É, é...

Conseguiu aguentar-se?
Consegui aguentar.

Mas contou aos seus alunos o que tinha passado?
Eu assumi perante a faculdade, toda a gente sabia. Eu ia fazer a quimioterapia e estava dois dias em casa e depois continuava a trabalhar na faculdade.

Imagino que regressar e dar uma aula dessas tenha sido duro...
Foi complicado, mas foi a prova de fogo.

E como é que reagiram os seus alunos?
Reagiram bem, com um silêncio, digamos, ensurdecedor. Aquele silêncio que é mais significativo do que qualquer ruído que possa haver...

Ou qualquer palmada nas costas...
Exatamente. Mas com isto nós também reconhecemos o valor, não é? E os valores da família são valores que também temos e eu acho que esta pandemia vai fazer emergir muitos desses valores, vai fazer que encontremos gente. O Tolentino Mendonça também diz que pode ser o momento para irmos ao encontro de tudo aquilo que perdemos, daquilo que não dissemos, do amor que nunca encontrámos. Este momento está a pôr muito em claro esses aspetos.

É o momento de adotarmos essas atitudes?
É um momento trágico em termos de impacto na saúde, mas também do impacto económico que vai trazer. Vai haver muita gente a precisar de ajuda, muitas empresas, nós vamos ter de dar um apoio muito grande a Portugal, temos de dar um impulso enorme à economia nacional, temos de comprar o que é português, temos de ampliar tudo aquilo que é português para poder suportar os défices e a pobreza que vai surgir.

Foi a primeira pessoa da sua família a ir para a universidade. O que é que os seus pais faziam?
A minha mãe era dona de casa, sempre quis ser enfermeira e, naquela altura, os homens não queriam que as mulheres trabalhassem. Portanto, tive um pai que não deixou que a minha mãe fizesse um trajeto profissional.

Ele fazia o quê?
Surpreendentemente o meu pai foi a pessoa que ao longo da minha vida sempre me apoiou nas opções profissionais que tive de fazer. O meu pai era contabilista, empregado em fábricas, perdeu o emprego três vezes. Passámos por situações complexas de desemprego do meu pai, vi-o muito deprimido.

Deve ter sido difícil...
Tinha um avô que era major, era da tropa. Foi ele quem nos deu muito apoio do ponto de vista económico, mas sempre tivemos em casa, quer eu quer o meu irmão, as condições para poder estudar e para poder desenvolver a nossa atividade.

"Como era muito boa a matemática, queria ir para Engenharia Aeronáutica."

Mas era um dado adquirido que ia para a universidade?
Era um dado adquirido porque no 7º ano eu tirei a melhor nota a nível nacional e tive um prémio - acho que era dado pelo Américo Thomaz .

O 7.º ano era o que antecedia a universidade?
Era o correspondente ao 12.º ano. Na altura, eu já estava numa turma especial, dos melhores alunos, e dos quais alguns neste momento são professores catedráticos na Universidade do Porto. Tivemos uma mulher - acho que é importante dizer isto -, uma professora que nos estimulou de tal maneira para a ciência e daí muitos termo-nos tornado investigadores dentro das nossas profissões. Era a professora do ensino secundário, da área de Biologia. A professora Luísa Cortesão marcou-nos profundamente a todos. Precisamos de modelos, e esses modelos existem. Na altura não queria ir para Medicina...

Não queria ser médica?
Não é não querer ser médica, eu já tinha alguma experiência, porque o meu avô trabalhava no Hospital Militar na parte administrativa e eu nas férias cheguei a ir para lá, mas como era muito boa a matemática, queria ir para engenharia aeronáutica, que é agora o curso que tem as melhores notas. Mas a engenharia aeronáutica era em Lisboa, nós não tínhamos dinheiro, nem cultura na minha família para deixar uma rapariga aos 17 anos ir para Lisboa. Como tinha notas para entrar em Medicina... foi uma boa escolha. As vocações também são muito modeladas pela vida que as pessoas têm.

Mas depois optou pela investigação.
No 5.º ano da faculdade fui convidada para ir dar aulas de Anatomia. Durante 40 anos fui professora de Anatomia, Anatomia Clínica, integrei a equipa do professor Joaquim Pinto Machado, que foi uma referência da humanização da medicina enorme. Com ele criámos o curso de Medicina do Minho.

O contacto com o doente nunca a atraiu?
Atraiu. Cheguei a fazer três anos de neurologia. Depois a oportunidade era ou me doutorava rapidamente - e doutorei-me com 30 anos, na altura ninguém se doutorava com 30 anos na Faculdade de Medicina do Porto, penso que fui eu e o professor Manuel Sobrinho Simões, com quem eu aprendi imenso do ponto de vista da investigação. Trabalhei mais 30 anos em investigação de neurociências, no desenvolvimento dos circuitos nervosos, o que também me permite compreender os comportamentos e as aprendizagens e isso é tudo um valor acrescentado àquilo que nós fazemos na área social. Se me perguntasse "e se fosse hoje?" Se fosse hoje, tinha feito uma especialidade médica, tinha o contacto com os alunos, com os utentes da Misericórdia... O mundo está muito mais facilitado em termos de conciliação da atividade clínica com a atividade de investigação.

O 25 de Abril apanha-a na faculdade?
No dia 25 de Abril de 1974 fiz exame prático de Anatomia. No próprio dia.

No próprio dia? E a faculdade estava aberta?
Estava. Passei a noite - há marcos na vida que espero que as pessoas não se esqueçam - a estudar Anatomia para fazer o exame prático com uma colega que neste momento é diretora do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. Quando acabámos de fazer o exame prático apercebemo-nos... já nos tínhamos apercebido... Quando chegámos de autocarro à Av. dos Aliados vimos muitos militares, vimos o movimento. Quando acabou o exame percebemos realmente o que tinha acontecido.

Em que ano estava?
Estava no 2.º ano.

Então ainda apanha muito do pós-revolução na faculdade...
Exatamente. Acabámos o curso em 1978 e em 1979, aluna do 5º ano, fui convidada para ser professora de Anatomia. Portanto, a minha atividade académica começa em 1977.

Mas não se envolvia nos movimentos estudantis?
Estive sempre muito envolvida com a associação de estudantes, com a primeira associação de estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Fomos fazer a primeira escritura com o professor Pinto Machado, eu e o Nuno Delerue, que era na altura aluno da nossa faculdade.

Logo a seguir ao 25 de Abril?
Já foi em 1978/79, já pertencia ao conselho pedagógico. Depois, envolvi-me muito na área pedagógica porque acho que a formação dos profissionais de saúde é crucial. E integrar a humanização médica é muito importante, é por isso que me tenho debatido nos últimos anos.

Ganhou a distinção de melhor aluna com que nota?
Nessa altura tive 18. Se fosse agora não entrava em Medicina.

A Engenharia Aerospacial não lhe ficou atravessada na garganta?
Não, lembro-me sempre disso como um exemplo de que podemos atravessar dificuldades ou obstáculos que temos e sermos muito felizes e conseguirmos fazer um trajeto profissional e pessoal noutras áreas.

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