Trump entre a debandada e os pedidos de afastamento

O mandato de Donald Trump expira numa dúzia de dias, mas os acontecimentos de quarta-feira desencadearam pedidos para a sua destituição por parte do vice-presidente, e demissões em catadupa na Casa Branca.

Ao longo dos mais de 220 anos de história, o Capitólio dos Estados Unidos foi palco de vários casos de violência. Desde as tropas britânicas que atearam fogo ao edifício em 1814 a um tiroteio desencadeado por um doente mental, em 1998, que resultou na morte de dois polícias, houve ataques bombistas (1915, 1971 e 1983), uma sova de bengala entre representantes (1856), uma tentativa de homicídio ao presidente Andrew Jackson (1835) e uma salva de tiros que feriram cinco congressistas em nome da liberdade de Porto Rico (1954).

Nada, no entanto, que se assemelhe aos acontecimentos de quarta-feira: o presidente cessante a pressionar o vice-presidente Mike Pence a desferir um golpe inconstitucional e a instigar uma multidão de fiéis oriundos de fora da capital a "serem fortes" e a não aceitarem a vitória de Joe Biden.

Mas às cenas de violência e a inédita invasão da sede da democracia norte-americana, que se saldaram em quatro mortos, 14 polícias feridos e mais de 50 detenções, há a acrescentar que na sessão conjunta do Senado e da Câmara dos Representantes para a cerimónia de certificação dos resultados oficiais do Colégio Eleitoral, mais de 140 congressistas (sete senadores e 138 representantes) puseram em causa o processo eleitoral, ao levantarem objeções relativas aos números de seis estados conquistados pelo candidato democrata.

O mundo reagiu entre a estupefação dos países aliados ao cinismo dos seus rivais, mas as maiores ondas de choque produziram-se no epicentro do sismo político. Na quinta-feira, o FBI emitiu um pedido de informações sobre as identidades dos indivíduos que instigaram à violência, ao que a representante Karen Bass respondeu no Twitter com uma fotografia de Donald Trump durante o comício e a frase: "Encontrei um." A rede social preferida de Trump suspendeu-o durante 12 horas e apagou as suas últimas mensagens. Numa delas afirmava: "Estas são as coisas e os acontecimentos que surgem quando uma sagrada e esmagadora vitória eleitoral é retirada de forma tão grosseira e maldosa aos grandes patriotas que têm sido maltratados e injustamente tratados durante tanto tempo" e dizia aos seguidores para lembrarem aquele dia para sempre. Num vídeo acabou por pedir aos invasores do Capitólio para se retirarem, dizendo que os ama e reiterando que as eleições foram roubadas.

Já o Facebook e o Instagram bloquearam as suas contas "pelo menos até que a transição pacífica de poder" se concretize. "Os eventos chocantes das últimas 24 horas demonstram de forma clara que o presidente Donald Trump pretende usar o tempo que resta no cargo para minar a transição de poder pacífica e legal para o sucessor eleito, Joe Biden (...) Acreditamos que os riscos de permitir que o presidente continue a usar os nossos serviços durante este período são simplesmente demasiado grandes", explicou o fundador daquela rede social, Mark Zuckerberg.

Mais tarde, na conta de Twitter do seu assessor para as redes sociais, Dan Scavino, Trump comprometeu-se com uma "transição ordeira", apesar de insistir no "desacordo total" com o resultado eleitoral e de afirmar que a luta pela contagem de votos legais "representa o fim do maior primeiro mandato na história presidencial". Foi a primeira vez, apesar de por interposta pessoa e sem dirigir uma palavra a Biden, que Trump reconheceu ter os dias contados na Casa Branca.

A mensagem foi emitida no final de uma jornada de 15 horas no Congresso e que, apesar do fogo e da fúria de Trump e dos seus leais seguidores, entre manifestantes e congressistas, chegou ao fim como estava já determinado pelos grandes eleitores: a certificação dos resultados oficias que atribuem a vitória a Joe Biden e Kamala Harris. A tentativa de golpe ou de insurreição, como muitos definiram a invasão do Capitólio, teve como primeira consequência que alguns dos senadores e representantes republicanos tenham desistido de colocar objeções às vitórias nos seis estados contestados por Trump. Foi o caso de Lindsey Graham, senador da Carolina do Sul que em novembro telefonou ao secretário de Estado da Geórgia Brad Raffensperger - o mesmo republicano que há dias ouviu Trump durante uma hora a pedir-lhe para "encontrar" 11780 votos - a tentar pressioná-lo no sentido de anular os votos por correspondência. "Trump e eu fizemos uma viagem e tanto. Detesto que seja assim. Do meu ponto de vista tem sido um presidente consequente. Mas hoje tudo o que posso dizer é que não contem comigo. Já chega", afirmou Graham. Antes, outros dois homens que tinham seguido o presidente de forma acrítica, o vice-presidente Pence e o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, haviam sinalizado o fim de uma época.

As consequências do comportamento de Donald Trump foram a oportunidade para alguns membros da administração baterem com a porta. Foi o caso da chefe de gabinete de Melania Trump, Stephanie Grisham, da secretária para os eventos sociais, Anna Cristina Niceta, do conselheiro adjunto para a segurança nacional, Matt Pottinger, e da vice-porta-voz Sarah Matthews.

Ao que se juntou Mick Mulvaney, que desempenhava agora as funções de enviado especial para a Irlanda do Norte. "Não posso mais. Não posso ficar", disse o ex-chefe de gabinete de Trump. Sem entrar em pormenores, à CNBC Mulvaney disse que Trump "não é o mesmo que há oito meses" e que alguns dos que se vão manter em funções fazem-no precisamente porque "estão preocupados que o presidente possa piorar a situação". Dia 7 de novembro Mulvaney escreveu um artigo no Wall Street Journal no qual garantia que se Trump perdesse iria reconhecer a derrota com elegância.

Um dos homens que se mantém em funções é o secretário da segurança interna Chad Wolf, que classificou a invasão do Capitólio de "trágica e doentia".

Enquanto se esperava que o êxodo ganhasse novas proporções (por exemplo, Trump proibiu a entrada na Casa Branca do chefe de gabinete de Pence; Marc Short, o conselheiro de segurança nacional Robert O"Brien saiu em defesa do vice-presidente; e era esperada a saída de Chris Liddell, adjunto do chefe de gabinete), a secretária dos Transportes Elaine Chao tornou-se na primeira pessoa do governo a demitir-se.

Houve ainda quem, como o advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani, ou o representante Matt Gaetz, tentasse criar uma realidade alternativa. O antigo mayor de Nova Iorque, que na manifestação de Washington usou termos como "julgamento por combate" para resolver as contendas eleitorais, comentou que "a violência no Capitólio foi uma vergonha". Já Matt Gaetz, eleito pela Florida, atirou a responsabilidade pela violência aos antifa, os ativistas de extrema-esquerda que Trump queria equiparar a uma organização terrorista. "Algumas das pessoas que hoje invadiram o Capitólio não eram apoiantes do Trump. Estavam disfarçados de apoiantes do Trump e, de facto, eram membros do violento grupo terrorista antifa", afirmou, no que foi secundado por outros republicanos como os colegas de bancada Lou Dobbs ou Paul Gosar.

Perante um presidente derrotado e cujos assessores e conselheiros comentam os seus atos recentes de "insano" e de "monstro total", segundo confidenciaram ao Washington Post, algumas vozes elevaram o tom. O até há pouco fidelíssimo procurador-geral William Barr classificou a conduta "indesculpável" de Trump "uma traição ao seu cargo e aos seus apoiantes". O líder dos democratas no Senado Chuck Schumer disse que o ataque ao Capitólio foi "uma insurreição contra os EUA incitada pelo presidente", pelo que o presidente "não se deve manter no cargo nem mais um dia".

O democrata defende a destituição através da 25.ª emenda da Constituição, quando o vice-presidente e uma maioria da administração, ou o vice e um órgão criado pelo Congresso, determinem que o presidente é "incapaz de cumprir os poderes e deveres". A Schumer juntou-se o representante republicano Adam Kinzinger.

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