O segundo incêndio do Capitólio

Num final de tarde de há mais de dois séculos, o Capitólio em Washington foi posto a arder. A jovem nação americana calculara mal a relação de forças com a Grã-Bretanha, antigo colonizador, e numa guerra que durou entre 1812 e 1814 não só ambicionara anexar o Canadá como, frustrada pelo fracasso, incendiara York, a atual Toronto. Em retaliação, os britânicos desembarcaram no Maryland, derrotaram a tentativa de resistência dos americanos e marcharam sobre a capital. O Capitólio, ainda em construção mas já sede do Senado e da Câmara dos Representantes, foi deixado em chamas, e a Casa Branca também.

Aquele 24 de agosto de 1814 é ainda hoje de má memória nos Estados Unidos. Tal como são o 7 de dezembro de 1941, data do ataque japonês a Pearl Harbor, e o 11 de setembro de 2001, dia da destruição das Torres Gémeas pelos aviões desviados pela Al-Qaeda. Três datas que relembram ao mais poderoso dos países que nem ele é invulnerável a inimigos externos.

Mas o que se passou nesta quarta-feira no Capitólio, mesmo sem fogo e não destruindo nem paredes nem telhados, é trágico de uma forma mais intensa do que aquilo a que se assistiu nas margens do Potomac no início do século XIX. De repente a formidável democracia americana, que tenta dar o exemplo ao mundo e serve mesmo muitas vezes de exemplo ao mundo, foi atacada e por inimigos internos. Gente que ignorou toda a solenidade do edifício e, pior ainda, ignorou o resultado das eleições presidenciais, a voz que os americanos fizeram ouvir a 3 de novembro.

E entre essa gente bárbara, ou a incentivar essa gente, esteve o mais improvável dos inimigos internos: o presidente dos Estados Unidos. Um presidente cessante, Donald Trump, que desde o próprio dia das eleições, assim que percebeu que o democrata Joe Biden seria o vencedor, tem insistido em denunciar fraudes e conspirações sem apresentar provas.

Parece agora que Trump ganhou finalmente consciência da gravidade dos acontecimentos e ordenou "uma transição ordeira", depois de o Senado, presidido pelo seu vice, Mike Pence, ter formalizado o triunfo de Biden, que tomará posse no dia 20. Mas o mal está feito. As imagens trágicas, algumas até trágico-cómicas, da ocupação do Capitólio correm mundo e afetam a imagem de liderança pelo exemplo que os Estados Unidos desde os tempos de George Washington e Thomas Jefferson sempre quiseram dar, aquilo a que se chamou "a cidade sobre a colina" ou "o farol da democracia".

Com Biden, a América recuperará, sem dúvida, o prestígio internacional. E não deixará de ser o mais forte país do mundo, mesmo que desafiado cada vez mais por uma China em ascensão. Mas ultrapassar a profunda divisão interna que existe no país será tarefa mais árdua. Exige antes de tudo que os republicanos renunciem de vez ao magnata de ego descomunal que tomou o partido como refém nestes últimos quatro anos. Basta de Trump!

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