Por um fio

No Iowa houve primárias, mas ainda não se sabe bem quem ganhou, o que não espanta dado o primarismo das primárias. Ganhou o mayor Pete, mas ninguém tem mesmo a certezinha se foi foi por um fio. O sistema do caucus é menos sofisticado do que uma eleição numa escola secundária. Em vários recintos espalhados pelo Estado, reúnem-se os apoiantes dos vários candidatos, cada um com o seu canto, e têm um tempo determinado para convencer os outros de que o seu candidato é o melhor, depois vê-se quem muda de grupo, penso que o procedimento repete-se e no fim um júri tenta dizer quem teve mais pessoas; juntam-se os votos dos milhares de recintos e tenta-se extrapolar um número de votos e uma correspondência com os delegados. Pois.

Nunca passei no Iowa, nunca estive em Des Moines, por isso nunca vi o letreiro de que fala Bill Bryson, "Bem vindo a Des Moines. É assim que é a morte". Não vi porque não fui, mas também porque o letreiro não existe, foi Bryson que o inventou, como, aliás, esclarece logo na linha de baixo. Também diz que quase nunca ninguém deixa Des Moines, cidade serena, onde nada se passa, por isso a mais poderosamente hipnótica de todas. E é nesta cidade hipnótica, neste pequeno estado rural e milharento, que se definem presidentes da América e os seus opositores por serem as primeiras primárias. Sobre o método já ali, linhas acima, falei, naquele método de dança do quadrado, uma grande noite do fado, os verdadeiros votos com os pés.

Não sei como se vota na escola primária, não havia lá votos no meu tempo, e as escolas onde sempre votei foram secundárias, agora os nomes são diferentes, as primárias são básicas, já não há ciclo preparatório, o ciclo, ciclo como na máquina de lavar, como na quimioterapia, que raio de nome, mais valia dizer-se preparatória, escola de recruta, cinzenta, castanha, com lama, para veres o que a vida é depois do sono e sonho da primária. Nem cinzento nem castanho são cores primárias.

A cidade de Kavafis também não deixa ninguém sair de lá, a cidade persegue quem lá viveu, impede todos os outros lugares do mundo. Há cidades, há pessoas assim. Talvez as melhores, mas apenas quando o magnetismo atrai e junta, não do que prende pelo medo de fugir, ou pela falta de horizonte, que prende só por prender, íman que é prenda e não prensa, pathos puro, karma.

Em Nova Deli, conta o The New York Times, dois irmãos dedicam a vida a socorrer os pássaros que são feridos pelos papagaios de papel. Pássaros verdadeiros, livres, falcões, feridos e mortos por pássaros de papel, pelos fios que seguram os falsos pássaros. A culpa é da manja, fios revestidos com pó de vidro, boa para soltar os papagaios de papel, cortando o fio que prende os outros, mas mata e fere os pássaros verdadeiros, e todos os anos mata dezenas de pessoas. Há aqui algo alegórico, um fio que dá liberdade a um pássaro falso mas que a tira a um verdadeiro, mas a semana foi cansativa demais para espremer mais a ideia. É sempre a ideia da liberdade, do que falta para ela e do que sobre para ela.

Não sei se sou infeliz porque não sou livre, ou se não sou livre porque sou infeliz, dizia Patricia a Michel, em À bout de soufflé, de Godard, em 1960. Patricia era Jean Seberg, dos mais lindos cabelos curtos que a terra viu, e Jean Seberg tinha nascido no Iowa, quarenta anos antes de se matar em Paris, talvez porque nunca tivesse sido nem livre, nem feliz.

Advogado

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