Elogio da(s) técnica(s)

A fotografia de 1917, o som de Le Mans'66, o guarda-roupa de Mulherzinhas e outros pormenores importantes.

Quando referimos as categorias técnicas dos Óscares, a frieza do adjetivo parece funcionar como automática desqualificação. A tradição consagrou mesmo como proeza mais prestigiante a obtenção do chamado "quinteto mágico" em que, precisamente, as chamadas categorias técnicas não figuram. A saber: filme, realização, ator, atriz e argumento (original ou adaptado). Apenas aconteceu três vezes na história da Academia de Hollywood, a última das quais ocorreu em 1992, consagrando O Silêncio dos Inocentes.

Em todo o caso, importa não secundarizar o papel decisivo que um determinado trabalho técnico pode ter na concretização de um projeto fílmico. Neste ano, o exemplo mais sintomático será a direção de fotografia de 1917, assinada por Roger Deakins - a sua proeza é tanto mais admirável quanto a esmagadora maioria das imagens do filme dirigido por Sam Mendes são obtidas em imensos cenários de luz natural, quer dizer, sem possibilidade de controle das fontes de iluminação.

Algo de semelhante dir-se-á a propósito de Le Mans'66: O Duelo, pouco ou nada comentado nas previsões dos especialistas americanos, mas que é um pequeno prodígio de subtileza na recriação dos ambientes de uma tão especial prova automobilística como as 24 Horas de Le Mans. O seu envolvimento sonoro consegue expor-nos ao rugido dos motores sem escamotear os espaços de diálogo mais ou menos intimista dos protagonistas - por alguma razão o filme está nomeado nas categorias de melhor montagem de som e melhor mistura sonora.

Entretanto, mais uma vez, não podemos deixar de encarar a categoria de melhor caracterização (segundo a designação completa oficial, melhor caracterização e arranjo de cabelos) como decisiva para alguns trabalhos de representação. Lembramo-nos, desde logo, da espantosa "duplicação" de Megyn Kelly por Charlize Theron no drama televisivo Bombshell - O Escândalo. Mais do que a "reconstituição" na personagem, importa sublinhar a capacidade de executar tal trabalho sem anular, antes exponenciando, a especificidade do labor da atriz.

Algo de semelhante acontece nas candidaturas a melhor guarda-roupa. Convenhamos que recuperar os elementos figurativos de uma determinada época é o mais fácil. O mais difícil é executar essa recuperação sem reduzir a presença dos atores a uma passagem de modelos. Ou melhor: permitindo-lhes (também através do que vestem) encontrar os pormenores da sua postura e dos seus gestos. O guarda-roupa de Mulherzinhas é, nessa perspetiva, modelar, mesmo se não podemos esquecer a invenção de todo um modo de ser e estar que passa pelas vestes de Joaquin Phoenix em Joker.

Enfim, sublinhemos a repetida presença da veterana Thelma Schoonmaker nas nomeações para melhor montagem, com O Irlandês, de Martin Scorsese: os ziguezagues temporais e emocionais do filme resultam de uma prodigiosa gestão do espaço e do tempo. É a sua oitava nomeação, tendo já ganho três Óscares, sempre com filmes de Scorsese: Touro Enraivecido (1980), O Aviador (2004) e The Departed (2006).

A ausência: a religião de Malick

Para a história dos Óscares, fica a ausência de Uma Vida Escondida, de Terrence Malick, na corrida às distinções referentes à produção de 2019: o mundo lamenta-se da perda de espiritualidade nas relações humanas, mas o profundo sentimento religioso do cinema de Malick não encontra eco nas rotinas anuais dos prémios. Talvez seja esse o seu maior pecado: celebrar a arte do visível como uma viagem através do invisível.

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