Trabalhadores da TAP contra "venda a preço de saldo"

Sindicatos insistem na reavaliação do plano de reestruturação; governo procura base alargada de apoio.

A dois dias da apresentação do plano de reestruturação da TAP a Bruxelas, os sindicatos representativos dos cerca de 13 mil trabalhadores da companhia área nacional desdobram-se em reuniões com os partidos políticos em busca de apoio, porque consideram que os termos em que o plano foi desenhado vão levar ao desaparecimento da empresa. "Não existe nenhuma possibilidade de resolver o desequilíbrio financeiro da TAP com cortes de custos com pessoal", defende o sindicato do pessoal de voo da aviação civil. A administração da TAP escreveu na segunda-feira aos trabalhadores garantindo que a reestruturação "assenta em projeções atualizadas, credíveis e equilibradas".

O comunicado, assinado por Miguel Frasquilho e Ramiro Sequeira, respetivamente presidente e CEO da companhia, e a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, socorre-se dos dados da IATA e da Eurocontrol que apontam para uma recuperação da procura, mesmo com a vacina, só para lá 2024. "Para que não restem quaisquer dúvidas, este plano assenta em projeções atualizadas, credíveis e equilibradas, ao abrigo das quais a TAP tem vindo a desenvolver os cenários que entende ser os mais ponderados para ajustar os custos às previsões", pode ler-se no documento. Que termina com a garantia: "Nunca poremos de parte a ambição e a flexibilidade necessárias para acomodar uma eventual retoma da procura, caso esta ocorra antes das previsões."

Uma carta que surge no mesmo dia em que o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) exigiu a suspensão do plano de reestruturação e a sua reavaliação, antes de ser enviado para Bruxelas, acusando o governo e a UE de se prepararem "para 'desenhar' uma TAP que no fim do processo será novamente vendida a preço de saldo".

Já no domingo, o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil havia considerado que as orientações de resgate, que estruturaram o auxílio concedido à TAP, são inadequadas e vão levar à extinção da transportadora.

Na qquinta-feira, o plano terá de ser apresentado em Bruxelas, condição para a concessão de um empréstimo do Estado de até 1200 milhões de euros para a companhia. Confirmada parece estar a intenção de, após a sua aprovação pela Comissão Europeia, o governo pretender levá-lo a debate na Assembleia da República. Um propósito divulgado, pela primeira vez, por Marques Mendes, no seu espaço habitual de comentário aos domingos à noite, dizendo que, caso o parlamento chumbe o plano, que prevê o despedimento de cerca de duas mil pessoas e cortes salariais médios de 25%, a companhia aérea "vai para liquidação". E isso mesmo foi confirmado por fonte da direção do PSD, que "estranha" este tratamento diferenciado: "O governo diz que quer mais transparência em relação à TAP, mas no caso do Novo Banco não se nota essa preocupação", disse fonte da direção social-democrata à Lusa.

Em sentido contrário vai a posição do Bloco de Esquerda, que considera "estranho" sim é que um plano "seja aprovado em Bruxelas antes de ser aprovado em Portugal". Catarina Martins recusou "comentar comentadores", considerando, sim, que "um plano que não ouça os trabalhadores não pode servir, também, a empresa".

E ontem mesmo o Bloco de Esquerda voltou à reunião com os sindicatos. Em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, Isabel Pires Falou numa "alteração de procedimentos democráticos, que "desprestigia o papel que o parlamento deve ter neste tema" e manifestou-se "muito preocupada" com o que é conhecido do plano até ao momento, designadamente as intenções de despedimentos. As reuniões mantidas com os representantes dos trabalhadores nos últimos dias não convencem. "O governo disse que os sindicatos seriam envolvidos neste processo e não o foram. Isto não é uma negociação, especialmente tão em cima do próprio dia 10"", frisou.

À hora de fecho desta edição, a reunião com os sindicatos e a administração da empresa ainda decorria.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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