À espera dos elefantes que vão viver junto ao Douro

Fundado há 20 anos, o Zoo Santo Inácio fica em Vila Nova de Gaia e com os seus 15 hectares reivindica ser o maior do norte de Portugal. Conta já com rinocerontes, girafas, leões e tigres, e tem tudo em marcha para um dia receber três elefantes.

Prometi ao meu filho que quando ele fizesse 12 anos teríamos elefantes aqui. Como ele tem agora 7, são cinco anos para concretizar esse sonho", conta Teresa Guedes, diretora do Zoo Santo Inácio, tendo em fundo os três rinocerontes que, por agora, são os animais de maior porte neste parque em Vila Nova de Gaia, uns 15 hectares dedicados à vida selvagem numa zona arborizada junto ao rio Douro.

Cumprir a promessa feita ao José Maria implica cumprir toda uma série de requisitos de habitabilidade e de segurança. "Para três elefantes, que é aquilo que estamos a pensar, são necessários 3,5 hectares. E esse terreno já temos identificado um planalto aqui nesta propriedade de 60 hectares, dos quais só uma quarta parte neste momento integra o zoo. Mas temos de fazer um investimento de entre um e dois milhões de euros para tudo ficar em condições. Vamos ver se o nosso público, os nossos visitantes, nos ajudam", acrescenta esta engenheira zootécnica que herdou do pai, Roberto Guedes, a gestão daquele que é considerado "o maior e mais verde zoo do norte".

"O Zé Maria quer mesmo muito os elefantes. E ele, que conhece todos os animais, já diz que um dia me vai substituir como diretor, mantendo a tradição familiar", conta Teresa Guedes, entre risos.

Faz todo o sentido falar de tradição familiar, pois o Zoo Santo Inácio nasceu por iniciativa dos Guedes, donos da Quinta da Aveleda, companhia produtora de vinhos baseada em Penafiel, que um dia procuraram uma atividade económica que se adaptasse bem aos hectares que possuíam junto ao rio Douro, no concelho de Gaia.

Já vimos os tigres-da-sibéria, um casal com uma cria fêmea, também as três girafas, no caso um trio masculino, e pelo meio atravessámos um túnel de vidro do qual se pode olhar para o lado e ver mais uns imponentes felinos.

Falhadas algumas ideias, surgiu a do zoo, fruto da paixão de Roberto Guedes, um de seis irmãos, pelos animais. A filha diz que desde pequena se recorda do entusiasmo do pai pela vida selvagem e admite que a experiência que este teve em Angola e em Moçambique, em jovem, podem estar na origem de tudo. E em 2000 nasceu o zoo, que de início era chamado de Quinta de Santo Inácio, mas que acabou por perder no nome a palavra quinta "que dava a ideia errada de que era uma quinta com animais, uma quinta pedagógica, quando o que nós tínhamos era um zoo", conta, divertida, a diretora do zoo gaiense.

Já vimos os tigres-da-sibéria, um casal com uma cria fêmea, também as três girafas, no caso um trio masculino, e pelo meio atravessámos um túnel de vidro do qual se pode olhar para o lado e ver mais uns imponentes felinos. Na verdade, tivemos de olhar para cima. "Deve ser por ser um sítio alto ou então porque o vidro aquece e é confortável mas a verdade é que os leões gostam de vir para cima do túnel o que permite esta sensação incrível de os ver a caminhar por cima de nós", explica Teresa Guedes. Ana Manaia, responsável pela comunicação, acrescenta que "os leões, tal como os tigres e os outros animais maiores, são sempre os mais procurados pelos visitantes, mesmo que depois saiam muito impressionados com um lémure brincalhão ou com um pinguim que viram ser alimentado pelos nossos tratadores".


Continuamos o passeio e voltamos à zona das girafas. "Chamam-se Kuntu, Nuru e Djao", diz Teresa Guedes. Todos os animais maiores têm nome. Por exemplo, nos leões asiáticos Itar é o macho e as três fêmeas são Minou, Kanya e Keladi. E o casal de tigres-da-sibéria, felinos impressionantes, são Radzi (ele) e Mila (ela), com a filha a ser a Zoya.

"Falamos em inglês com todos. É uma espécie de norma internacional para facilitar a adaptação, pois é comum um animal nascer num zoo e depois ser colocado noutro. "Good boy, come here", este tipo de frases fáceis, diretas", nota a engenheira zootécnica que foi adjunta do pai, diretor desde a fundação do zoo em 2000. "Ainda lhe ligo, quando tenho dúvidas. "Ó pai, que achas de..." e esse género de coisas", admite Teresa Guedes, de 38 anos. O pai "tem 73", diz ela, a rir, depois de umas contas de cabeça.

"Pouco a pouco, as pessoas estão a voltar. Sempre tivemos mais portugueses do que estrangeiros e por isso estou otimista. Como o zoo é no fundo um espaço ao ar livre, mesmo com a covid-19 podemos sentir-nos seguros. Não é difícil o distanciamento social, afinal temos muito espaço", sublinha Teresa Guedes.

Hoje a companhia Quinta da Aveleda mantém a gestão do Zoo Santo Inácio, mas tem um sócio maioritário, a Thoiry, do grupo francês Ekkio Capital, uma empresa especializada em turismo e lazer e com vasta experiência em parques animais. "Trouxeram muito conhecimento e investimento", diz Teresa Guedes, que elogia também os veteranos do zoo, funcionários como Manuel Novais, responsável de manutenção, que trabalha aqui desde a abertura e começou com 16 anos, e José Alves, um dos chefes dos tratadores, que trabalha no zoo também desde a sua abertura.



O dia é de semana e são famílias com crianças a maioria dos visitantes, com os dias mais críticos da pandemia a ficarem para trás. "Pouco a pouco, as pessoas estão a voltar. Sempre tivemos mais portugueses do que estrangeiros e por isso estou otimista. Como o zoo é no fundo um espaço ao ar livre, mesmo com a covid-19 podemos sentir-nos seguros. Não é difícil o distanciamento social, afinal temos muito espaço", sublinha Teresa Guedes. E quem visita mostrou grande solidariedade durante o tempo de confinamento, pois se o zoo estava fechado ao público nem por isso deixou de funcionar, pois os animais têm de ser alimentados, tratados, e isso nunca pode parar. "Recebemos muitas ofertas de solidariedade, e aconselhámos o apadrinhamento dos animais como forma de apoio, que tem um custo de 50 euros anuais e dá direito a um diploma de padrinho, ao bilhete de identidade do animal e, melhor do que tudo, um passe que permite visitas ilimitadas pelo período de um ano ao Zoo Santo Inácio. Mas tivemos de abrir uma conta solidária para as muitas pessoas, crianças incluídas, que queriam muito ajudar nem que fosse com uns poucos euros", acrescenta, emocionada, a diretora.

A vinda dos elefantes deverá acontecer na mesma lógica da dos outros grandes mamíferos do Zoo Santo Inácio. "Fazemos parte de uma rede europeia envolvida na proteção das espécies. E é essa rede que é proprietária, se assim se pode dizer, dos animais. Têm identificados todos para que se promova a reprodução mantendo as linhagens puras, ou seja, evitando a consanguinidade. E os zoos aceitam ficar a cargo dos animais, segundo as normas dos seus tutores. Por exemplo, o casal de tigres-da-sibéria teve três crias, mas só uma está cá ainda. As outras foram enviadas para um zoo na Bélgica", explica Teresa Guedes.

Noutros casos, mais do que promover a reprodução, aos zoos é pedido que cuidem dos machos excedentários, como as três girafas aqui, mas a qualquer momento uma delas (ou deles) pode ser transferida para formar um casal. "E o transporte, por terra ou ar, exige muitos cuidados. Não só ao nível das condições do animal, como em termos de informação das autoridades de cada país por onde vai ter de passar", diz a diretora do zoo.

Outra das tendências internacionais muito fortes a nível dos zoos é tentar que o quotidiano dos animais se aproxime o mais possível da vida selvagem. E nisso o Zoo Santo Inácio, por ser recente e ter espaço para crescer, está na vanguarda. "Não vê aqui jaulas, pois não?"

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