Exclusivo "Kosovo agradece os seis mil soldados portugueses que ajudaram à paz"

Entrevista a Ylber Kryeziu, embaixador do Kosovo em Portugal, sobre o futuro do pequeno país de maioria albanesa que se separou da Sérvia e já é reconhecido por uma centena de Estados, mas continua fora da ONU. As fronteiras e os direitos da minoria sérvia continuam a ser negociados entre Pristina e Belgrado.

O Kosovo abriu a embaixada em Portugal no início do ano passado. Como primeiro representante do seu país em Lisboa, que impressão tem da sociedade portuguesa e da forma como esta olha para os kosovares?
Há uma canção que ouvíamos com frequência nos primeiros tempos, quando chegámos a Portugal com a minha família, Uma Casa Portuguesa com Certeza. A sociedade portuguesa é a espantosa encarnação de uma rica tradição histórica, absorvendo as tendências da globalização e do dinamismo tradicional que distinguem os povos das regiões mediterrânicas. Estamos a falar dos valores especiais e profundamente humanos que o povo português representa, a par da empatia e do carinho que demonstra com os outros. Devo dizer que encontrei padrões culturais entre os nossos dois povos que são muito semelhantes entre si. A hospitalidade, por exemplo, não é entendida simplesmente como uma necessidade de homenagear alguém. Em ambos os povos, ela representa mais uma tradição, um sentimento que se preserva de boa vontade, que se acredita e se promove entre famílias, instituições e sociedade. No nosso país, por exemplo, a palavra "convidado" e a palavra "camarada" fundem-se na palavra "amigo", e servir num país amigo, como no meu caso, é a melhor coisa que pode acontecer a um diplomata em área profissional. Além disso, quem não gostaria de servir num país ensolarado 300 dias por ano, um dos mais pacíficos do mundo, um dos maiores da história, um dos mais ricos em cultura. Quando cheguei, já ouvido falar, mas cá percebi bem porque é que Portugal é um país de grande turismo. Percebi porque é que Lisboa é chamada a capital cultural da Europa e porque está tão na moda em todo o lado. As pessoas estavam contentes com as suas vidas e a sua economia, do governo ao sistema em geral. As primeiras pessoas que conheci eram todas ex-alunos do Presidente, de quem falavam com admiração sobre a sua personalidade. Isso é algo lindo, é incrível.

Como avalia as relações do Kosovo com Portugal, quando hoje passam 12 anos exatos sobre o reconhecimento da vossa independência?
Posso dizer que partilhamos os mesmos valores europeus, somos europeus, pertencemos ao mesmo espaço e partilhamos as mesmas opiniões sobre a segurança da economia para o futuro comum. Neste ponto, devo sublinhar que o povo do Kosovo se destaca pela sua forte aspiração euro-atlântica; que no campo político se manifesta através do objetivo de pertencer à UE e à NATO, enquanto no aspeto cultural como uma personificação dos valores humanísticos de direitos humanos, democracia e justiça social. Como um dos países mais pró-europeus da UE, Portugal tem reiterado repetidamente o seu apoio às aspirações europeias dos países dos Balcãs Ocidentais, incluindo o Kosovo, e é disso que a nossa região mais precisa para ver mais dinamizado o caminho para a integração. Há anos que o Kosovo tem lutado e se tem empenhado pelo direito à liberdade de circulação na UE. Apesar de as próprias instituições europeias terem confirmado desde 2016 que o Kosovo cumpre os critérios para a liberalização dos vistos, infelizmente os cidadãos do Kosovo ainda não gozam deste privilégio, ao qual têm acesso outros países da região. Não estamos a falar aqui do acordo do espaço Schengen de 1995 entre os Estados membros da UE, mas sim de viagens sem visto até 90 dias, e não de uma autorização de trabalho ou residência em nenhum dos países do espaço Schengen. Havíamos entendido esse processo, iniciado há mais de uma década, como um verdadeiro indicador da aproximação da UE com o resto do Sudeste Europeu. Deste esforço, todos os nossos países da região beneficiaram, alguns em 2008 e outros em 2009, mas o Kosovo, até hoje, continua a ser o único país isolado. Gosto quando o ministro de Negócios Estrangeiros, o Dr. Santos Silva, nos chama de vizinhos, quando fala dos nossos países, ou seja, os países do sudeste da Europa. Como diz um provérbio, um mau vizinho é uma desgraça, no entanto um bom vizinho é uma grande bênção. As pessoas comuns costumam ter a impressão de que nós estamos em algum lugar a centenas de milhares de quilómetros de distância. Na verdade, neste mundo em que vivemos hoje, a Europa pode até parecer pequena. Um grande escritor nosso, Ismail Kadaré, cujos livros já foram traduzidos também para português, um dos quais tem o título Esse Mortal Caiu e Nós Vimos, faz sentido hoje neste maior desafio deste início de século no confronto global com a crise que trouxe a pandemia. Estamos a testemunhar o que aconteceu com o fornecimento de bens vitais, desde as máscaras até à falta de ventiladores, então acho que é hora de uma maior solidariedade, de uma maior aproximação entre as pessoas, entre sociedades, entre os estados. Viemos para Portugal, refiro-me à abertura da embaixada em Lisboa, porque sentimos que devíamos vir. Há várias razões para isso. Em primeiro lugar, Portugal é um país de especial importância na Europa e não só. Consideramos que Portugal tem uma voz importante nas organizações regionais e internacionais, bem como nos fortes laços políticos e económicos com muitos países e regiões fora do continente europeu. Para além disso, penso que existe uma dimensão e uma moral na razão da nossa presença, com uma missão diplomática permanente, em Lisboa. As pessoas podem esquecer tudo, mas não o perigo da sua dissolução, dos seus feitos, como aconteceu com o povo do Kosovo na última década do século passado. Mais de seis mil soldados de Portugal serviram no Kosovo como parte dos grandes esforços do mundo democrático para estabelecer a paz e a estabilidade regional. Muitas famílias do Kosovo deslocadas pela guerra encontraram refúgio e vieram para Portugal. De facto, Portugal já esteve na presidência da UE três vezes consecutivas em momentos de sensibilidade histórica para a nossa região, como os anos de 1992, 2000 e especialmente em 2007, durante a fase final das negociações em Viena para o Estatuto Final do Kosovo. O seu papel na coordenação de ações globais e coerentes com a UE era insubstituível. Estamos convictos do reiterado sucesso da presidência de Portugal do Conselho da UE a partir de janeiro do próximo ano. Esta presidência chega num momento importante para a UE e para as suas relações com os Balcãs Ocidentais e não só, de muitas formas, e nós expressamos o nosso total apoio ao trabalho e aos compromissos a partir da nossa embaixada em Lisboa. Completam-se hoje 12 anos desde que Portugal reconheceu o Kosovo como um Estado independente e soberano. Estamos aqui também como sinal de respeito e gratidão pelo reconhecimento de toda a contribuição prestada. Nós alegramo-nos com o facto de que o Kosovo e Portugal construíram uma relação estável e amigável e de que há um interesse crescente na intensificação da cooperação bilateral em todas as áreas. Consideramos que a cooperação política, económica e outras entre o Kosovo e Portugal podem ser aprofundadas, no interesse de ambos os países e da nossa região.

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