Montijo voa, mas voa baixinho

Enquanto andamos todos inebriados com as eleições nos EUA - e, de repente, até descobrimos que há tantos portugueses especialistas na política norte-americana -, e enquanto estamos também ocupados a debater o estado de emergência suave, por detrás da cortina avançam outros temas estruturais para o país. Um deles é, sem dúvida, o novo aeroporto.

O governo fez finca-pé no Montijo. O ministro Pedro Nuno Santos tem hasteado essa bandeira, mas, de repente, o Montijo afinal voa, mas voa baixinho. O ministro das Infraestruturas admitiu, nesta semana, que, devido à pandemia, se tornou menos premente a necessidade de ampliar a capacidade aeroportuária de Lisboa e que "há abertura para se ponderar fazer essa avaliação ambiental estratégica" para o Montijo. Primeiro, a ordem era para avançar, sem ouvir o chilrear dos pássaros e das autarquias da região, que terão de se pronunciar todas por unanimidade. Agora, a ordem é para "ponderar".

Diz o ministro que "continua a ser necessário aumentar a capacidade aeroportuária da região de Lisboa. Não deixamos de acreditar na solução Montijo. O que ponderamos fazer é uma avaliação ambiental estratégica que, obviamente, seria sempre respeitada. O que há aqui é: perante a pandemia há a possibilidade de ganharmos tempo, o que nos pode permitir fazer uma avaliação ambiental estratégica".

Em resposta a questões dos deputados, mais disse: "Há abertura para se ponderar fazer essa avaliação ambiental estratégica. A questão não se trata aqui de enfrentar a Vinci. Trata-se de defender o que interessa ao país." A expansão da capacidade aeroportuária da região tem feito correr muita tinta nos jornais, como este. Várias organizações de carácter ambiental têm vindo a público pedir que seja feita uma avaliação ambiental estratégica ao projeto do Montijo.

As suspeitas sobre a Agência Portuguesa do Ambiente e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas terão pressionado no sentido de se reconsiderar o caminho que estava a ser tomado? Também os dois votos favoráveis do PEV ao Orçamento do Estado para 2021 foram nesse sentido? As suspeitas sobre essas entidades, que deram pareceres favoráveis, e o voto condicionado dos Verdes ao OE 2021 não terão surgido, certamente, por acaso de algum chilrear dos passarinhos que sobrevoam a nova localização do aeroporto. Mais: ao PCP, que ajudou a viabilizar o OE na generalidade, interessa também manter fiéis as suas autarquias que circundam a área indicada.

Ontem a Quercus manifestou-se satisfeita com a disponibilidade para a avaliação ambiental. Os ambientalistas parecem respirar de alívio, tal como os especialistas que se têm pronunciado contra aquela localização por causa da inevitável da subida da água do oceano e do Tejo e têm alertado para acidentes provocados por aves com aviões militares.

Não deveria ser preciso enfrentar uma pandemia e e uma crise para que se parasse para pensar na opção Montijo. Ou então, como diz o povo, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Jornalista

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