Abrantes. A unidade modesta que passou a receber doentes covid de Aveiro a Setúbal

Em 2008, o médico intensivista Nuno Catorze foi convidado a abrir uma unidade de cuidados intensivos no Hospital Manoel Constâncio, em Abrantes. Aceitou o desafio. Um ano depois estava tudo a funcionar. Hoje já recebe doentes de Aveiro a Setúbal. Os resultados são de toda a equipa.

Maria, de 30 anos, vamos chamar-lhe assim, chegou à unidade de cuidados intensivos (UCI) de Abrantes com covid-19 e uma falência respiratória gravíssima. No historial clínico trazia uma doença psiquiátrica, controlada com muito apoio familiar e social, e obesidade mórbida, o que tornava o seu prognóstico muito reservado. Os médicos acharam mesmo que seria dos casos que não conseguiriam salvar, mas não foi assim. Maria respondeu de tal maneira aos tratamentos que "ao fim de seis dias estava a ter alta dos cuidados intensivos e a regressar à enfermaria".

António, de 77 anos, foi levado do Barreiro para Abrantes infetado com covid e com uma bactéria a agravar o seu estado respiratório. Teve múltiplas complicações, uma pneumonia no limite de poder ser tratado, explicam-nos. Mas, aos poucos, tornou-se um dos casos que contrariam a medicina. "Começou progressivamente a melhorar e teve alta da UCI, na semana passada, ao fim de 35 dias. Agora está na enfermaria a recuperar e a aguardar alta para regressar a casa no Barreiro."



Quem nos conta estes casos é Nuno Catorze, médico há 28 anos, intensivista há 20 e há 11 diretor da UCI do Hospital Manoel Constâncio, em Abrantes. "Fui convidado em 2008 para vir criar uma unidade de raiz e aceitei", para trás já tinha um percurso que começou em 1992 no Hospital do SAMS, onde esteve cinco anos, depois no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, mais dois anos, e por fim pela experiência no intensivismo no INEM e na coordenação do Centro de Operações de Doentes Urgentes (CODU) de Lisboa.

Um ano depois tinha a unidade a funcionar, e, hoje, "mais de 50% dos profissionais ainda são os mesmos do início". O que o deixa satisfeito. "Temos crescido uns com os outros, com os nossos erros e virtudes, e acreditamos que podemos crescer ainda mais, em espaço e em competências." Um espírito que está a fazer que a unidade de atividade modesta do Médio Tejo esteja a tornar-se a unidade satélite da região de Lisboa e não só.

Unidade satélite de Lisboa

Assim que a pandemia bateu à porta dos portugueses, a UCI de Abrantes percebeu que poderia ter um papel importante na medicina intensiva e no apoio aos hospitais dos centros urbanos que poderiam ficar lotados mais rapidamente.

E, em março, começaram logo a preparar-se. "Prevendo a evolução que a doença poderia alcançar estabelecemos com o conselho de administração haver um piso só para a medicina intensiva. O objetivo era dar resposta às necessidades locais e às de fora. Neste momento, a unidade está dividida em ala covid e não covid e tem uma capacidade harmónica que vai das oito camas até às 23", sublinha.


Para darem a resposta adequada começaram por "definir circuitos distintos em todo o hospital para doentes covid e não covid, a treinar todo o pessoal do hospital a vestir os factos de proteção e a saber funcionar com eles, e preparar profissionais de outras especialidades para darem apoio à UCI, caso fosse necessário", explica o médico.

Uma estratégia e planeamento que tem feito que o trabalho da unidade seja reconhecido pelos seus pares. "Da atividade mais modesta que tínhamos antes da pandemia, com nove camas divididas em nível dois e três, e a receber doentes da região e dos hospitais mais próximos, Santarém, Caldas da Rainha, Castelo Branco e Portalegre, porque tínhamos disponibilidade de camas para os receber, passámos para uma unidade mais dinâmica, a receber doentes de Aveiro a Setúbal."

Afinal, "estamos a 180 quilómetros da capital e mais ao menos a meio caminho do Porto. Estamos longe e perto ao mesmo tempo", argumenta o médico que integra também a task force da medicina intensiva que apoia a Direção-Geral da Saúde e o ministério.

Em Abrantes, nada como dantes


A equipa de oito médicos, 46 enfermeiros e 20 assistentes operacionais teve de se readaptar a uma nova dinâmica. "Todos tiveram de se adaptar, e fizeram-no, em pouco tempo. Todos passámos para horários duplicados, o que exige um grande esforço em termos profissionais e pessoais, mas vamos conseguir", admite Nuno Catorze, não escondendo orgulho e satisfação sempre que fala do projeto, da equipa e do trabalho que têm feito.



Uma equipa que ainda mantém muitos do que com ele iniciaram a unidade há 11 anos, o que "diz muito do espírito que aqui vivemos". Nos médicos, a média de idades é dos 40 aos 42 anos - três deslocam-se diariamente de Sintra, Oeiras e Leiria para Abrantes, os restantes são da zona - nos enfermeiros a média ainda é mais jovem, entre os 35 e os 36 anos.

É caso para dizer que, afinal, em Abrantes não está tudo como dantes. Algo mudou na medicina intensiva do hospital. "Conseguimos passar de uma resposta modesta, de quatro camas por cem mil habitantes para 13,2 camas, o que é muito semelhante ao que se passa na Alemanha, e até agora ainda não chegámos ao nível três do plano de contingência, a nossa resposta tem sido sempre articulada e em rede com os outros hospitais", afirma.

Música e café para estar alerta

Na UCI de Abrantes ouve-se música de manhã à noite, porque é assim que a equipa se mantém alerta, se motiva e, ao mesmo tempo, se sente ligada ao exterior à medida que os doentes entram porta adentro - quer sejam daquela zona, quer sejam de Aveiro, do Porto, da Figueira da Foz, de Lisboa ou até de Cascais, Vila Franca de Xira, Amadora-Sintra, Loures, Almada, Barreiro ou Setúbal.

"Se não fosse a música, só teríamos o som do bip dos aparelhos e dos ventiladores, e precisamos de nos manter alerta. É claro que a música que ouvimos de manhã, não é a mesma do fim de tarde nem a que ouvimos ao início da noite para recarregar energia, mas mantém-nos alerta e é assim que precisamos de estar", explica Nuno Catorze, diretor do Departamento de Urgência e de Medicina Intensiva daquele hospital.

Aliada à música "há o café", admite ainda, novamente a rir, e confirmando a imagem de cápsulas amontoadas junto à máquina. "Não podemos estar muitos numa sala, quando estamos aproveitamos para descontrair, e temos tido um consumo abissal de café, em dois dias acabamos com um pacote de 50 cápsulas", continua, bem disposto enquanto conduz em direção a Sintra, onde vive, para os últimos 180 quilómetros dos 360 que faz diariamente. "É uma hora e meia para lá e outra para cá. Faz-se bem", diz. O tempo não conta, quando se faz o que se gosta.

Desde o início da pandemia, a UCI de Abrantes tratou 32 doentes, alguns com internamentos muito prolongados de cinco a oito semanas, mas, se na primeira fase, "cerca de 50% dos doentes eram da nossa área, acima dos 70 anos e com muitas morbilidades associadas", o que se verifica nesta segunda vaga é "o aparecimento de doentes mais jovens, alguns já com comorbilidades associadas, mas que são pessoas perfeitamente autónomas, que vêm de várias regiões".



Segundo conta, há uma nuance importante em relação a outras unidades e que tem a ver com os doentes a que chamam habitantes temporários. "Doentes que vieram para a nossa região, a fugir dos grandes centros, para casa dos pais ou ao contrário, os pais vieram para casa dos filhos, e que acabaram por ficar doentes no próprio ambiente familiar, são internados na enfermaria e chegam à UCI."

Mas da primeira para a segunda fase há outra diferença, não só naquela unidade como em todas as outras do país. "Os profissionais perderam o medo, já reconhecem que é uma doença que pode deixar os doentes muito tempo internados e que, se não os abordarmos numa fase inicial, entre as primeiras 24 ou 48 horas em que começam a ter défice de oxigénio, vai ser mais difícil tratá-los, a doença desenvolve muito rapidamente. No início não fazíamos isto."

Esta é uma das certezas que a medicina intensiva passou a ter nestes oito meses. Só que para tratarem mais cedo os doentes são precisas camas disponíveis e recursos humanos. A UCI de Abrantes está preparada para o fazer, embora Nuno Catorze reconheça que a falta de pessoal nesta área é transversal no país e também ao seu serviço. A recompensa chega com os resultados - "tratámos 32 doentes com covid, alguns tinham poucas hipóteses de tratamento, mas responderam de forma extraordinária".


E, no que toca a resultados, não esquece uma classe profissional que muito contribui para a recuperação dos doentes, e, por vezes, é esquecida. "Os profissionais da medicina intensiva não são só os que estão à cabeceira do doente.

Há outros, e temos uma especialidade que é fundamental e que tem colaborado de forma extraordinária, são os fisioterapeutas, a maior parte não faz parte dos quadros hospitalares, o que nos permite ter esta valência quase 24 horas e ao fim de semana. Já tínhamos este hábito, mantivemos e estamos a perceber que tem resultados na recuperação precoce do doente."

Trabalhar em rede mas sem rede

Em plena pandemia, Nuno Catorze, médico há 27 anos, diz ao DN estar preocupado com várias situações. A primeira "tem que ver com a projeção para os doentes críticos, com uma agravante, "é a mesma estimada para a primeira vaga 0,5%, mas com a agravante que agora a média de idades é dos 52,54 e 56 anos, antes eram os 70 anos". Depois, porque o cenário que agora atinge o norte vai alastrar ao resto do país. Por fim, e apesar do bom trabalho que a medicina intensiva está a fazer, "a capacidade de cuidados é finita".

E deixa uma crítica: "Oito meses passados da pandemia não conheço num organismo que faça a gestão dos centros de cuidados intensivos conforme as vagas disponíveis. As Administrações Regionais de Saúde (ARS) fazem diariamente uma avaliação das camas, mas esta capacidade muda de hora a hora, minuto a minuto, e são os próprios serviços de medicina intensiva que fazem a gestão dos doentes, falando com os colegas, por vezes, até através de contactos pessoais, para se saber se há vagas e que têm de tratar da sua transferência, o que também não é fácil, nem sempre há ambulâncias e pessoal para os acompanhar."

Defendendo que há muito se deveria ter apostado num sistema otimizado - uma central ou um grupo de profissionais - ao qual seria reportada a toda a hora a disponibilidade de camas. O hospital que necessitasse de ajuda reportava a esta central e a este grupo, tal como se faz no sistema CODU, que tratava de providenciar a transferência e o transporte do doente, para que os médicos conseguissem continuar a tratar os doentes que têm na unidade.

Para Nuno Catorze, "é um problema de logística e de organização que não depende, em nada da medicina intensiva, mas de uma gestão atempada de meios e recursos". Ou seja, a medicina intensiva trabalha em rede mas sem rede.

O que o faz temer ainda mais do que tudo o resto: "Que os nossos recursos se esgotem rapidamente e que a racionalidade seja ultrapassada pela emoção."

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