"A Europa é a parte do mundo que tem razões para estar mais feliz com uma presidência Biden"

Em entrevista ao DN, Tiago Moreira de Sá, professor associado da Universidade Nova e investigador integrado do IPRI, garante que, a confirmar-se a vitória quase certa, o democrata tem a difícil tarefa de unir uma América tribalizada. Quanto a Trump, no pós-Casa Branca deverá continuar a influenciar o Partido Republicano.

Tudo indica que Joe Biden será o novo presidente dos EUA. Mas uma coisa é certa, estas eleições mostraram que a América está mais dividida do que nunca.
Tudo indica que Biden vai ser presidente e vai ter a tarefa muito difícil de unir os americanos, de unir a comunidade Atlântica, de unir os Aliados, de unir o próprio Partido Democrata e as suas muitas fações. Com a agravante de, também tudo indica, não ter maioria no Senado e de até ter perdido alguns lugares na Câmara dos Representante, onde, apesar de tudo, vai manter a maioria. E com um Supremo Tribunal hoje de maioria conservadora - 5-3-1 -, ainda que eu, com base nos estudos, sempre tenha considerado que o Supremo não será um fator tão relevante do ponto de vista político-partidário, mas sobretudo do ponto de vista dos costumes e dos valores. É uma América tribalizada. Quem estava à espera de uma vitória esmagadora dos democratas - e eu nunca estive - enganou-se. E resta saber se nos dias de hoje, e sobretudo na América, é possível voltar a unir as pessoas. No meio disto tudo, Biden parece estar empenhado em fazê-lo. A boa notícia também, se se confirmar a vitória, é que ainda é possível ganhar eleições ao centro - um centro moderado. Isso não só é importante para a América como cria uma dinâmica capaz de se espalhar além-fronteiras, inclusive para a Europa. Da mesma forma que a vitória de Trump favoreceu alguns fenómenos populistas e até nalguns casos extremistas, e iliberais; uma vitória do centro moderado democrático e liberal tenderá a favorecer - pelo exemplo e até talvez por ação - um voltar a virar ao centro dos sistemas político-partidários no mundo ocidental.

Donald Trump vai contestar os resultados nos tribunais. Onde é que isso o pode levar?
A primeira coisa que é preciso dizer é que já há processos nos tribunais, já houve decisões, os tribunais estão a funcionar com independência, e isso é muito bom sinal. As comissões eleitorais estaduais também estão a funcionar. Mesmo em estados vermelhos, estão a fazer a contagem dos votos com todo o rigor. Há bons sinais de que as instituições estão a funcionar e de que a democracia americana está a dar o exemplo. O próprio Partido Republicano tem deixado Trump a falar sozinho, ou quem tem falado tem-se pronunciado contra o que ele tem vindo a dizer e afirmado que os resultados são para respeitar. O próprio Mike Pence tem estado desaparecido ou tem sido muito cuidadoso. Há muitos bons sinais até agora. Desde o início que Trump tinha uma estratégia que depois deixou de ter pernas para andar: passava por dizer que as eleições tinham sido fraudulentas para poder depois contestá-las num ou noutro estado, levando os tribunais estaduais a anular o processo eleitoral nesse estado. Por exemplo, no Michigan, bastava. E caso não se resolvesse nos tribunais estaduais, podia subir ao Supremo. A partir daí, se houvesse anulação dos votos num estado, ninguém teria maioria no Colégio Eleitoral. Não havendo maioria, a decisão passava para a Câmara dos Representantes. Aí, a escolha do presidente é feita na base de um voto por estado e os republicanos teriam a maioria. Era possível neste caminho Trump legalmente ser nomeado presidente na Câmara dos Representantes. Agora isto já parece pura ficção científica. Os sinais que vêm do Partido Republicano são os contrários: deixou cair Trump e está preparado para o pós-Trump.

Podemos esperar protestos nas ruas?
Podemos. Como houve em 2000, como tem havido nos últimos meses, de vários grupos, à esquerda e à direita. É possível que haja mesmo episódios pontuais de violência. Mas não acredito nada em cenários apocalípticos. Mesmo que houvesse situações mais complicadas, as forças policiais estaduais, a quem compete em primeiro lugar resolver isso, acabariam por restituir a ordem. Aquilo não é a república das bananas. Tem uma tradição de instituições e de law enforcement muito grande. É uma questão de tempo. Passado este período, quando for a votação dos grandes eleitores a 14 de dezembro e depois a tomada de posse, os protestos vão acabar por se esvaziar, sobretudo se Biden for eleito presidente e fizer um grande esforço para unir e acomodar as várias sensibilidades. E ele disse uma coisa importante, que para ele como presidente não há estados azuis e estados vermelhos, há os Estados Unidos da América.

Mas este resultado tão renhido pode deixá-lo com a legitimidade abalada?
A grande maioria silenciosa da América é pacífica e só quer continuar com a sua vida. Se Biden for capaz de governar para essas maiorias, para essas grandes classes médias republicanas ou democratas, isolando os extremistas, que apesar de tudo são a minoria, acho que tem condições para acalmar as coisas. Vamos continuar a ter problemas, não vão desaparecer. É preciso perceber que muitos dos que votaram em Trump não o fizeram por ter qualquer amor de perdição por ele, mas porque tinham razões sérias para estar descontentes. Sofreram muito os efeitos da globalização, dos acordos de comércio livre, da automatização, da robotização, do colapso financeiro de 2007/08, da grande recessão que se lhe seguiu, da estagnação de rendimentos há mais de três décadas e do crescimento significativo das desigualdades. Tudo isto continua a existir. E a Cintura da Ferrugem está cada vez mais enferrujada. Não é só responder aos problemas destas pessoas, é preciso dar-lhe voz.

Esse é um dos desafios de Joe Biden? Ele fez uma campanha muito baseada no facto de não ser Donald Trump, de ser diferente e moderado.
Joe Biden apresentou algumas propostas económicas, só que são aqueles documentos de 300 páginas que ninguém lê. Por exemplo, apresentou um plano para o Buy America, que vai na linha de privilegiar estes setores que foram prejudicados porque as empresas se transferiram para o exterior. A ideia é trazer de volta uma parte da produção e das empresas para a América. Apresentou também o Green New Deal, que na versão de Biden não se chama assim. É uma questão com duas faces: é preciso fazer esta transição energética por forma a não se alienar de um dia para o outro todas as indústrias poluentes antigas. Porque há muitos empregos dependentes destas indústrias. Na questão dos empréstimos dos estudantes universitários, Biden também apresentou uma proposta importante. Este sistema na prática cria duas situações: a pessoa não tem acesso ao ensino de qualidade e fica para trás - o elevador social desaparece - ou então endivida-se brutalmente, e isso afeta-o para o resto da vida. Há algumas propostas do ponto de vista fiscal com que Biden tem de ter cuidado, sobretudo os aumentos de impostos para os rendimentos mais altos. Pode ser uma coisa divisiva. Tem também propostas importantes no combate às desigualdades, aumento do salário mínimo. Tem uma proposta da saúde que não é exatamente igual ao Obamacare, mas vai na mesma linha ao considerar que não é possível ter 30 ou 40 milhões de americanos fora do sistema de saúde porque não têm rendimentos para isso. Agora, em termos políticos, a grande lição é que Biden tem de dar sinais claros para os americanos que não votaram nele de que não é um perigoso socialista. Não pode governar como presidente de apenas uma parte da América. O país está muito dividido. Há uma expressão de Anatol Lieven no livro América a Bem ou a Mal - Uma Anatomia do Nacionalismo Americano e que diz que a América é simultaneamente a mais moderna e a mais tradicionalista das sociedades desenvolvidas. E o choque entre estas duas realidades está a contribuir para a crescente polarização. De facto coexistem estas duas Américas. A América progressista, próspera, cosmopolita, aberta ao outro, aos estrangeiros, dinâmica, confiante. E depois a América tradicionalista, que é uma parte da base de apoio de Trump, que é conservadora, profundamente nacionalista no sentido do "nós contra os outros", defensora da família, contra o aborto, contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, profundamente religiosa. Esta polarização já vem dos anos 60 e 70, mas tem vindo a agravar-se muito. De tal maneira que na ciência política inventou-se um conceito para tentar captar esta polarização atual, que é o de tribalização. A divisão da América em duas tribos distintas, irreconciliáveis, com visões completamente distintas do país, dos seus valores, da sua identidade, do seu passado e com leituras diferentes sobre o presente do país e o seu futuro. A grande tarefa de um presidente é ser capaz de transformar uma sociedade tribalizada numa comunidade institucional.

O Partido Republicano terá agora de traçar um rumo pós-Trump?
Sim. Uma possibilidade é o regresso ao pré-Trump, e isso é ao Tea Party, aos vários Tea Parties. Que é uma coisa inorgânica, muito popular e quase populista e que tem sobretudo o problema de ser desorganizado. Outra possibilidade é surgir alguém - por exemplo Mike Pence, mas ele não parece muito carismático -, um político tradicional, do sistema, que comece a preparar o partido para daqui a quatro anos, se tudo isto se confirmar. Percebendo que o partido não pode perder a base de apoio que elegeu Trump, também não pode perder a sua base de apoio tradicional antiga, que eram os conservadores e que são diferentes dos apoiantes jacksonianos de Trump, mas que tem de alargar a sua base de apoio para além disto. Até porque, em 20 anos, o Partido Republicano só ganhou uma única vez no voto popular - em 2004 com George W. Bush, e isso foi no contexto de pós-11 de Setembro, pós-Afeganistão, pós-Guerra do Iraque. Foi uma eleição completamente atípica. Ora, se as eleições americanas não se decidem no voto popular, este não deixa de importar. O Partido Republicano tem de alargar as suas bases de apoio. Tem de perceber que a demografia está a mudar alguns estados e tem de conseguir captar os jovens, as minorias, tem de captar os afro-americanos. Porque daqui a 20 anos estas minorias todas juntas vão ser a maioria.

A confirmar-se a derrota, o que podemos esperar de Trump após presidência?
Eu acho que Donald Trump continua a ter uma enorme força. Subiu a votação que tinha tido, tem um poder que pode usar no espaço no espaço mediático, inclusivamente para influenciar o futuro do Partido Republicano, para criar grupos lá dentro, ou até há quem diga que pode criar um novo partido. Pode tentar influenciar quem será o futuro candidato do Partido Republicano, e que seja alguém muito próximo dele ou até da família. Acho que ele próprio dificilmente voltará a ter um cargo político importante, embora não seja legalmente impossível, mas tem um imenso capital político.

Em relação à política externa, um presidente Joe Biden vai reaproximar os EUA da Europa? E irá mudar a relação com a China?
A Europa é a parte do mundo que tem razões para estar mais feliz com o resultado desta eleição, caso se confirme. A visão de Biden é muito mais atlanticista, de valorização das alianças permanentes, também com o Japão, com a Coreia do Sul. É uma visão muito mais assente no multilateralismo, e ele vai fazer disso o coração da estratégia mundial dos Estados Unidos, incluindo na relação com outros Estados e com a China também. Neste caso, embora venhamos a ter algumas nuances não irrelevantes na abordagem de Biden em relação a Trump, a questão de fundo permanece: há uma guerra de transição de poderes EUA-China. Essa guerra de transição veio para ficar. E há um amplo consenso nos EUA - bipartidário, na própria opinião pública - de que a ascensão da China é um grande problema de segurança para a América. Isso veio para ficar. Com este presidente, com o que vier, e vai ser uma coisa de longa duração. É uma relação que será necessariamente conflitual - a guerra comercial, a guerra em torno da tecnologia do 5G. A única dúvida é se tem necessariamente de ser um jogo de soma nula ou se pode ser algo diferente.

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