O espelho das palavras

Foi há 50 anos que surgiu O Menino Selvagem, filme em que François Truffaut evocava o caso verídico de uma criança que, na mais absoluta solidão, sobreviveu numa floresta - é uma história de imagens e sons.

Reencontro, revejo ciclicamente o filme O Menino Selvagem, de François Truffaut. Cada vez que o redescubro fico (ainda mais) siderado com a sua subtileza temática e força simbólica, numa narrativa servida por uma linguagem do mais depurado classicismo. E faço novas contas para tentar dar um nome à distância que nos separa de tão belo objeto de cinema, distância que é também uma radical forma de proximidade. Desta vez, os números do calendário oferecem-me a sedução de uma efeméride redonda: O Menino Selvagem é uma estreia de 1970, quer dizer, um filme que nos fala a meio século de distância.

"Esta história é autêntica", informa uma legenda logo a abrir, "começa numa floresta francesa num dia do verão de 1798." Nesse dia foi descoberto o "menino selvagem" que viria a receber o nome de Victor: uma criança abandonada, nua, comportando-se como um animal acossado, em qualquer caso um sobrevivente. Como rapidamente deduz o seu protetor, o médico Jean Itard (1774-1838), Victor teria sido escorraçado pela família, ou por algum incidente perdido o contacto com os adultos, resistindo num universo em que nunca foi confrontado com os sons das palavras, desse modo ignorando o uso social da fala.

Especializado no tratamento de surdos-mudos, Itard vai tentar desenvolver todo um processo de aprendizagem de Victor que começa no conhecimento das possibilidades do seu aparelho vocal. Dito de outro modo: os ensinamentos começam no reconhecimento de que a voz pode produzir outros sons (a começar pela singeleza das vogais) que não se confundem com os grunhidos da vida na floresta, sejam eles de triunfo ou de pânico.

Há mesmo uma cena admirável em que Itard coloca Victor em frente de um espelho para que ele repita determinados sons, procurando repetir também o efeito que o sopro provoca na chama de uma vela. Literalmente, Itard tenta que Victor veja os sons. Ou como diria Jean-Luc Godard, companheiro de Truffaut nas convulsões artísticas da nova vaga francesa, trata-se de construir uma situação a partir dos materiais mais rudimentares, característicos do cinema: a imagem (de Victor e Itard no espelho) e o som (sinalizado pela agitação da vela).

Porventura o elemento mais intencionalmente simbólico da situação está nos livros sobre os quais Itard colocou a vela. A cena acontece, de facto, num universo de raiz literária em que a procura das singularidades das palavras e a aprendizagem das especificidades da escrita são, em tudo e por tudo, bem diferentes da comunicação virtual dos nossos dias. Ou ainda: comunicamos e, desse modo, humanizamo-nos, não através de um sistema de difusão de imagens, mas numa paisagem de metódica verbalização.

À distância de mais de dois séculos, a história de Victor e Itard não é uma aliança mágica - o filme resiste, aliás, a qualquer conclusão triunfal ou determinista, reconhecendo que o "menino" continua a ter uma parte "selvagem". O certo é que a visão de Truffaut envolve um fascinante efeito de retorno, ecoando nos nossos dias como uma defesa das palavras, resistindo ao domínio absoluto das imagens. Ou melhor, instalando uma poética visual e sonora: a certa altura, numa espécie de desespero melodramático, Itard tenta mesmo que Victor associe a escrita de determinados nomes de objetos aos próprios objetos.

Não será necessário sublinhar o carácter excecional da história de Victor nem a pertença de Itard a um momento peculiar (científico, cultural, etc.) na conceção do fator humano. Ainda assim, a sua experiência ensina-nos a reconhecer que qualquer mecanismo de comunicação está longe de se confundir com um automatismo natural, muito menos naturalista.

Sem dúvida por isso, Truffaut optou por assumir, ele próprio, a interpretação da personagem de Itard - dir-se-ia que o médico é também, à sua maneira, alguém que procura a mise en scène mais adequada para lidar com os enigmas humanos. Por sua vez, o magnífico Jean-Pierre Cargol (12 anos no momento da rodagem) não construiu uma carreira a partir da sua representação de Victor: um filme bastou-lhe para conhecer o poder libertador da linguagem cinematográfica.

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