Muralha como estrada

Faz agora dez anos, foi em 2010, o ano em que vivi em Nova Iorque, e em que ainda se falava da gripe das aves, e foi por esta altura, em março, que no Museum of Modern Art, MoMa, Marina Abramovic se sentou numa mesa e os visitantes do museu podiam lá sentar-se, em frente dela, o tempo que quisessem. Foi a primeira vez que ouvi falar de Marina Abramovic, não o suficiente para dar um salto ao outro lado da cidade para ver a tal performance The Artist Is Present, mas o suficiente para não me esquecer.

Uns anos depois, as imagens de Marina cansada nessa performance, e noutras, exausta, transpirada, em visível sofrimento, foram alvo da internet que as editou e transformou em anúncios de aspirinas e medicamentos para a gripe e a constipação.

Em 1975, na performance Freeing the Memory, Marina associa palavras em sérvio até não se lembrar de mais nenhuma, durante horas. Há uma sequência de três palavras, epidémia, lepra, gripe, com esta pronúncia, e gripe é gripe, como cá.

Um ano depois, em 1976, Marina começou uma relação com Frank Uwe Laysiepen, conhecido como Ulay, e até 1988 criaram uma série de performances. Em 1988 começaram a andar cada um de um lado oposto da Muralha da China para se encontrarem a meio, 2500 quilómetros cada, para dizerem adeus, estava tudo acabado, a performance chamava-se The Lovers: The Great Wall Walk. Ela começou pelo lado leste, ele pelo oeste. Há uma parte da muralha perto de Tianjin, o lado mais a leste.

Mas não tinha acabado, em 2010, enquanto ela esperava na mesa por quem se sentasse, ele entrou e sentou-se, esteve lá uns minutos, ela estendeu-lhe as mãos, chorou, ela recolheu as mãos, ele levantou-se e saiu. Não se falavam há anos. São artistas, ainda para mais aqueles dois, mais do que qualquer casal treinados a representar, mas há um momento nos olhos dela em que se vê o amor passado, porque os olhos traem sempre talvez porque nunca traem.

Ulay teve um cancro logo em 2011 e morreu nesta semana. Mas entre a mesa dos olhos que não traem e a morte, ainda tiveram um processo judicial em que ele lhe pediu dinheiro, e nunca há maior prova de um amor que ainda dura quando partes dele são entregues à barra do tribunal, à muralha da lei.

Em Tianjin, uma cidade de 15 milhões de habitantes, há novas paredes, muralhas de metal azul, como se fossem partes de contentores, proteções das obras, que isolam ruas, bairros, partes da cidade. O azul é azul-cobalto, não cerúleo, e o cobalto era usado para tratar o cancro, mas agora talvez fique a ser a cor da gripe. Há muralhas que dividem, outras que protegem, outras que são apenas cercas de cenários. Mas nenhuma muralha impede que quem queira a percorra, que faça dela o caminho, que em cima dela comece, continue ou mesmo termine, mas sobretudo que olhe com aqueles olhos de sede. Com ou sem gripe.

Advogado

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