A Grande Gripe (2)

A taxa de mortalidade foi muito mais grave em Portugal do que noutros países: 102 750 mortes. Estar em combate nas trincheiras da Grande Guerra parecia ser menos perigoso.

Em Portugal, a gripe terá dizimado umas 50 mil pessoas, mas há quem avance números superiores, de 60 474 mortos, que têm de ser complementados com outros, ainda mais terríveis: em 1918, o obituário por gripe subiu de uma média anual de 800 para 55 780 mortes e o obituário geral de 125 mil para 248 978 óbitos. Contudo, o aumento do falecimento por gripe pneumónica não explica, por si só, a explosão de 123 mil mortos num só ano - esta deve-se ao facto de a pandemia gripal ter-se feito acompanhar de outras doenças infecciosas, como o tifo exantemático, a varíola, a encefalite epidémica, bronquites, pneumonias lombares.

A evolução da taxa de mortalidade foi, de resto, muito mais grave em Portugal do que noutros países: entre nós, no quinquénio de 1916-20, atingiu-se um valor inaudito de 42,5, muito superior aos de Itália (35,0) ou de Espanha (33,2). Comparativamente com esses países, bem como com França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Suíça e Estados Unidos, Portugal foi aquele que registou entre 1916-20 a subida mais acentuada da mortalidade. Entre nós, a mortalidade geral duplicou, passando de 22 por mil em 1917 para 42 por mil em 1918.

Reunindo as estatísticas relativas a essas doenças com uma ponderação moderada dos números relativos às mortes por causa desconhecida, o médico Fernando da Silva Correia chegou à conclusão de que, directa ou indirectamente, a gripe esteve na origem da "cifra formidável" de 102 750 óbitos e concluiu que esta superou em muito os valores atingidos na "peste grande" de 1569, responsável por cerca de 60 mil falecimentos. Curiosamente, estar em combate nas trincheiras da Grande Guerra parecia ser uma actividade menos perigosa do que viver em Portugal: os soldados do Corpo Expedicionário Português pouco sofreram com a epidemia gripal, registando-se apenas 37 óbitos.

Ocorreu ainda uma epidemia de varíola, responsável por mais de quatro mil mortes em 1918 e mais de oito mil em 1919, e uma outra de tifo exantemático, que eclodiu em Espinho em finais de 1917 e se espalhou às "ilhas" do Porto e depois a todo o norte do país, chegando a matar 543 pessoas numa só semana. Diz-se que causou 1725 mortes só em 1917-18. Tendo o piolho como principal agente transmissor, o tifo exantemático propagou-se rapidamente devido às precárias condições socioeconómicas das populações pobres do Porto, mas Ricardo Jorge não hesitou em atribuir responsabilidades ao conflito armado internacional, qualificando o tifo como uma "epidemia civil de guerra".

Aliás, também da gripe pneumónica se disse que poderia ter tido origem ou ter sido potenciada pela Grande Guerra, pois nunca como até então o Homem inventara e lançara na atmosfera tantos produtos químicos e biológicos, nunca tantos explosivos foram deflagrados ao mesmo tempo, em ocasião alguma se verificou tamanha movimentação e aglomeração de homens, muitos dos quais cansados, doentes e mal alimentados, nunca se amontoaram a céu aberto tantos corpos de indivíduos mortos ou feridos.

Ainda assim, não se deve esquecer que, a par da Grande Guerra e da grave crise socioeconómica da altura, os hábitos de higiene das populações terão certamente contribuído para uma mais rápida difusão da doença. Não por acaso, em 1920, uma epidemia de peste assolou o bairro popular de Alfama e infectou 112 pessoas, devendo igualmente recordar-se, a esse respeito, que num estudo levado a cabo na aldeia de Valas, em Trás-os-Montes, se observou que as populações acreditavam que tomar banho ou lavar-se com frequência estragava a pele, enfraquecia e relaxava as pessoas. As mães aconselhavam as filhas a não lavar os pés nem a cabeça durante a menstruação ou no pós-parto porque "podia subir a menstruação ou o parto à cabeça e morrerem, ficarem paralisadas ou malucas".

Em muitos lugares, julgava-se desde tempos imemoriais que o contacto com a água era causa da pneumonia e de muitas outras doenças. Naquele estudo, uma mulher da aldeia confidenciou que as pessoas raramente lavavam a cabeça, pelo que "criavam muitas lêndeas e o cabelo até parecia rijado com aquelas lêndeas todas. Untava-se o cabelo com azeite, para que caíssem as lêndeas, e as pessoas catavam-se umas às outras". Havia também a crença de que comer castanhas cruas fazia nascer mais piolhos...

Por ocasião da epidemia de tifo exantemático no princípio do século XX, um médico que analisou a situação de perto na região de Braga assinalou precisamente que a falta de higiene foi um elemento decisivo na propagação da doença: "No concelho de Braga é provável que o tifo se tenha tornado agora endémico devido à pobreza extrema que existe nos bairros mais populosos da cidade e freguesias limítrofes, acrescida da falta de higiene que se nota duma maneira geral em todo o minhoto."

No Porto, o tifo progredira, nas palavras do insigne Ricardo Jorge, "açoitando como é sua predilecção as classes ínfimas, mal alojadas, mal tratadas e mal mantidas". Os médicos envidaram esforços para impedir que a doença, declarada na Invicta, subisse ao Minho: o delegado de saúde estabeleceu um serviço de inspecção na estação do caminho-de-ferro de Braga, foram mandados regressar ao Porto mendigos que de lá tinham vindo a pé e que se tornaram suspeitos, os doentes foram isolados no edifício do extinto Colégio do Espírito Santo, transformado em hospital.

Contudo, uma aparente regressão da epidemia fez abrandar as medidas profiláticas, tendo-se deixado de proceder aos despiolhamentos sistemáticos - num total de 27 mil, realizados nas feiras, às portas das igrejas e dos quartéis, etc. - e às desinfestações familiares. Em resultado disso, o tifo reapareceu em força, bastando dizer que só na segunda quinzena de Março de 1919 o número de infectados cresceu de 120 para 390.

Mas mesmo os que cuidavam da sua higiene não estavam imunes ao contágio, como sucedeu tragicamente a um estudante universitário que, segundo o médico João Leitão, "estando em Braga por ocasião da epidemia de tifo exantemático de 1919, tinha o máximo cuidado em assuntos de higiene; contudo no dia... de Abril foi a um lupanar onde teve relações sexuais com uma mulher suspeita. Chegado que foi a sua casa, tratou de examinar a roupa e o corpo, pois tinha sentido uma picada. No corpo nada de anormal foi encontrado, porém nas ceroulas foram-lhe encontrados dois piolhos, um dos quais na parte interna do tecido, e ao qual ele atribui a picada. Ficou impressionadíssimo e desinfectou-se com sublimado. Decorre o tempo até que, passados três dias, a mulher com quem ele tinha tido relações fica doente e dá entrada no hospital com o tifo exantemático. O referido estudante, assustadíssimo, corre a um médico para saber o que há-de fazer para se livrar do tifo, respondendo-lhe este ser impossível fazer qualquer coisa em vista de serem já passados três dias". Foi infectado, não se sabe se morreu.

Além das deficientes condições de higiene, para o surto epidémico teve papel determinante a precariedade da resposta médica. As reformas sanitárias que vinham sendo empreendidas desde 1901 mostraram-se ineficazes na melhoria da saúde da população, que continuou a ser vitimada em especial por doenças infecciosas, a ponto de o médico Acácio da Silva Ribeiro ter dito, a propósito da gripe, não haver "obstáculo possível ao seu enorme poder de expansão".

Para mais, a gripe tinha uma singular capacidade de dissimulação: de início, surgia "por formas a tal ponto benignas que ninguém as levava a sério". Assim, quando apareceu em Salvador da Baía, no Brasil, os jornais apelidaram-na, sem grande alarme, de "a epidemia desconhecida", e um articulista do Diário da Bahia chegou a perguntar: "Será gripe? influenza espanhola? ou simples andaço sem graves consequências?" Entre nós, nas páginas do Portugal Médico, escrevia-se, em tom animador, no mês de Julho de 1918: "Foi relativamente de curta duração a onda gripal que invadiu o país." E Ricardo Jorge observava, optimista, que "a vaga epidémica que nos princípios de Junho rolou de Espanha há que reconhecer que nos tratou com acentuada benignidade".

Pouco depois, tudo mudou. A gripe, subitamente, "deixou cair a máscara e mostrou o seu verdadeiro rosto de caveira", como escreveu o historiador John Barry. Em Setembro, já o Portugal Médico noticiava: "Não nos abandonou a epidemia gripal." A 14 desse mês, a Direcção-Geral da Saúde enviava aos jornais uma nota oficiosa sombria, que começava assim: "A influenza continua a sua invasão, assumindo, com insistência, o carácter pneumónico." E, em Outubro, o Portugal Médico afirmava: "Como era de prever, a gripe alastrou por todo o país, não havendo um canto indene, desde o Alto Minho ao Algarve."

Enquanto a doença avançava a uma velocidade vertiginosa, beneficiando da facilidade de transporte aberta pelas linhas ferroviárias, os clínicos dividiam-se quanto ao seu diagnóstico, a ponto de já se ter dito que "existiram quase tantas teorias quantos médicos". Estes, na verdade, só souberam lidar com a doença depois de ela ter desaparecido, deixando atrás de si um rasto de morte e destruição. A princípio, julgou-se que tudo não passava de uns casos isolados de "peste pneumónica"; depois, atribuiu-se as mortes em crescendo a um surto de cólera; outros afirmaram que se tratava de dengue, como sucedeu com os professores Virgílio Machado e Carlos Tavares, tendo este, numa comunicação à Sociedade de Ciências Médicas, chegado a sugerir que a gripe deveria ser erradicada dos livros de Patologia. Pires de Lima, da Faculdade de Medicina do Porto, sustentava que a causa das mortes era a febre papataci, também conhecida por febre da Bósnia, febre estival ou febre dos três dias.

Porém, e uma singular partida do destino, Pires de Lima acabou por ser ele próprio infectado pelo vírus da gripe... Por sua vez, Carlos Ramalhão, numa comunicação feita à Associação Médica Lusitana, avançou o diagnóstico de febre papataci, o que logo foi contestado por Geraldino de Brito nas páginas da revista Medicina Contemporânea. Na mesma publicação, o médico Nicolau Bettencourt reconhecia as dificuldades que enfrentava: "Em relação ao tratamento também não tenho colhido impressões pessoais que valham. No meio hospitalar e numa emergência destas, talvez seja mais difícil apurar dados interessantes." Os médicos, claramente, não se entendiam quanto ao diagnóstico de uma doença que alastrava de forma imparável. A indefinição era, de resto, assumida pelos próprios clínicos, que por esse tempo escreviam que as "discussões sobre diagnóstico aparecem sempre nas grandes epidemias". Outros citavam, não sem alguma ironia, a frase de um professor alemão segundo a qual "gripe é o diagnóstico que o médico faz quando não sabe o que o doente tem".

A confusão instalada na comunidade médica não foi um exclusivo português. Em muitos pontos do globo, clínicos de renome afirmavam que a doença tinha uma única e singela causa - a malnutrição dos infectados -, mas ao fim de pouco tempo a propagação da epidemia infirmou por completo essa tese.

Em Agosto de 1918, uma segunda e mais violenta vaga gripal eclodiu em simultâneo em três das principais zonas portuárias do planeta: Freetown, Brest e Boston. Ao aperceber-se de que existia algo diverso em relação à gripe que surgira na Primavera, os médicos começaram a explorar hipóteses: disse-se que os infectados tinham estado expostos a gás de cloro, suspeitou-se de cólera asiática entre os que se queixavam de uma "dor ardente acima do diafragma", observou-se que as fortes dores de cabeça dos pacientes poderiam indiciar febre tifóide, notou-se que muitos pacientes apresentavam sintomas de uma estranha conjuntivite aguda, pensou-se que se tratava de uma intoxicação de origem alimentar, entre muitas outras explicações desencontradas e imaginosas, todas erradas.

Estudos recentes sustentam que, paradoxalmente, foi a violência da resposta do sistema imunitário, combinada com a violência da infecção, que tornou a gripe mais virulenta e letal. Quanto ao tratamento, exaltavam-se as virtudes do ar puro, injectavam-se os doentes com cafeína e adrenalina, enquanto outros aconselhavam a aspirina... Os médicos britânicos prescreviam álcool, ópio, quinino, aspirina, cânfora, eucalipto, coco, água salgada, tabaco, sabonete, sem resultados visíveis. Porventura, a opinião mais avisada, mas mais letal, terá sido a de um reputado médico inglês, Sir Arthur Newsholme, que considerou que não havia nada a fazer; como tal, nada fez aos seus pacientes, deixando-os morrer uns atrás dos outros.

Perante este cenário, não admira que, em Outubro de 1918, um editorial do The New York Times dissesse: "Science has failed to guard us". O melhor remédio, na verdade, talvez fosse o preconizado pelas enfermeiras norte-americanas: comida quente, lençóis quentes, ar puro e muito TLC (tender loving care).

Enquanto isso, acumulavam-se histórias terríveis, como a de um jovem médico do Rio de Janeiro a quem um transeunte, logo após pedir uma informação sobre o destino de um autocarro, caiu fulminado no chão, morto de gripe. Um caso particularmente grave foi o das mulheres grávidas: com a interrupção do ciclo menstrual, não podiam ter esperança numa hemorragia que libertasse as toxinas do seu corpo. Sucederam-se, assim, os abortos espontâneos e os partos prematuros, com taxas de mortalidade que, segundo um obstetra de Nova Iorque, chegaram a atingir a arrasadora cifra de 70%. Do mesmo passo, muitos ficavam órfãos de pai e mãe: cerca de 2000 crianças na Cidade do Cabo perderam os pais, por exemplo, enquanto os jornais de Estocolmo publicavam anúncios solicitando que algumas famílias tomassem a seu cargo os cerca de 500 menores que nessa cidade ficaram sós.

Sós num mundo assolado pela guerra, pela fome - e, agora, pela doença.

(Continua)

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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