Fadiga e falta de ar. As sequelas da covid-19 que podem afetar até os doentes ligeiros

Os efeitos da covid-19 em infetados que precisam de ventilação começam a ser conhecidos. E são graves, quer nas funções físicas quer nas cognitivas. Agora surgem relatos de doentes ligeiros recuperados: sentem uma fadiga invulgar e têm falta de ar. Mas pode haver outras sequelas escondidas.

Os estudos ainda decorrem e provavelmente só daqui a alguns anos se terá mais certezas sobre as sequelas da covid-19 nos humanos. Mas os médicos e especialistas estão cada vez mais convencidos de que os efeitos da SARS-CoV-2 não são apenas sentidos a médio e longo prazo pelos doentes mais graves. Mesmo os que tiveram sintomas ligeiros ou foram mesmo assintomáticos podem vir a ter sequelas na sua saúde, como já indicam alguns estudos e análises. Fadiga, insónias e ansiedade são efeitos que infetados, que não precisaram de internamento hospitalar intensivo, podem sofrer, entre outros, até mais graves, que o curto tempo de existência do vírus ainda não permitiu ainda descobrir.

Ron Daniels, médico nos Hospitais da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, foi uma das pessoas infetadas com covid-19 logo no primeiro pico da doença em solo britânico. Teve apenas sintomas ligeiros, como tosse, e ultrapassou a doença. Mas não está convencido de que não tenha sequelas. "A tosse passou mas a falta de ar agora é recorrente. Por exemplo, costumo subir cinco ou seis lanços de escadas do hospital em vez de usar o elevador e agora ficou com mais falta de ar do que habitualmente acontecia. Noto isso, mas consigo subir as escadas da mesma forma", contou ao jornal inglês The Telegraph.

É um exemplo que pode acontecer a muitos infetados. Sentem que estão mais cansados ou com maior dificuldade de respiração e nem sempre ligam estas situações à doença. Existe mesmo a hipótese, por comprovar, de o mesmo suceder com assintomáticos. Não ter sintomas não é garantia de que não haverá consequências para a sua saúde. O ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, já alertou para este problema: "É realmente sério para uma minoria de pessoas que têm covid-19. Algumas têm efeitos a longo prazo que se parecem com uma síndrome de fadiga pós-viral."

"As sequelas a médio e longo prazo estão ainda por descobrir", disse ao DN Filipe Froes, pneumologista e consultor da Direção-Geral da Saúde, realçando que já se sabe existirem efeitos para a saúde dos doentes mais graves e que muito provavelmente vamos descobrir, "daqui a cinco ou dez anos", que também afeta os ligeiros e mesmo os assintomáticos.

"Sobre os assintomáticos não sabemos, mas perante a incerteza e a ignorância - é um vírus com seis meses - podemos antever a possível descoberta de sequelas tardias", aponta o médico. De resto, o conhecimento sobre a covid-19 está em permanente desenvolvimento desde o início do ano, período em que alastrou no planeta. "Está sempre a ser reformulado. Por exemplo, ainda há uma carta científica a recomendar à Organização Mundial da Saúde para ser mais protetora em relação às vias de transmissão, sobretudo via aerossol [transmissão pelo ar]. Agora há mais conhecimento."

Por isso, o coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos afirma que as "sequelas podem ter uma dimensão mais alargada", para já ainda desconhecida na sua dimensão. Mas há indicadores já recolhidos. Neste momento, os doentes graves são um sinal do que pode ser uma realidade mais ampla no futuro. Estes infetados pelo novo coronavírus que passaram por unidades de cuidados intensivos ou receberam ventilação são os que apresentam efeitos mais notórios da infeção. "Há três áreas em que são evidentes as sequelas: a nível das funções físicas, os pulmões são muito afetados; na saúde mental também se manifestam; a nível cognitivo, as sequelas passam pela perda de memória e até da fala."

"A exaustão é grave, real e parte da doença"

Ansiedade, insónias, fadiga. São sintomas que podem afetar uma parte considerável dos infetados, como se vê pelo exemplo do médico Ron Daniels. A maioria dos doentes tem apenas sintomas ligeiros e até há pouco estava instalada a ideia de que a recuperação era definitiva. Não é bem assim. Paul Garner, outro especialista inglês da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, escreveu no British Medical Journal sobre a sua experiência enquanto doente em recuperação de covid-19. E contou como a fadiga e a exaustão passaram a ser uma constante. "Para algumas pessoas a doença continua por algumas semanas. Os sintomas vão e vêm, são estranhos e assustadores. A exaustão é grave, real e parte da doença", escreveu ainda durante o mês de maio.

"O vírus desaparece, mas as consequências permanecem por semanas", relatou também outro especialista, o virologista Peter Piot, diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que foi infetado em meados de março e esteve hospitalizado. Habituado a lidar com vírus, desde o VIH ao ébola, sentiu dificuldades respiratórias durante semanas e a sua saúde mental também foi afetada. "Agora que senti a presença convincente de um vírus no meu corpo, olho para os vírus de maneira diferente. Sei que isso mudou a minha vida. Sinto-me mais vulnerável ", escreveu.

Um número crescente de pessoas, mesmo aquelas com casos ligeiros, estão a relatar sentir sintomas após seis, oito e até 12 semanas. A Organização Mundial da Saúde tem as duas semanas como referência para que os casos ligeiros sejam ultrapassados. Com uma maior número de infetados, verifica-se que há cada vez mais casos de efeitos que se prolongam. Relata a publicação Quartz que há grupos de doentes já recuperados que relatam ficar sem fôlego com frequência. Alguns desenvolvem coágulos sanguíneos, que podem levar a derrames e problemas renais. E outros queixam-se de fadiga extrema e cansaço neurológico.

"A própria fadiga assumirá muitas formas diferentes", disse ao The Guardian Chris Brightling, professor de Medicina Respiratória da Universidade de Leicester, que lidera um recém-anunciado estudo sobre os impactos a longo prazo da covid-19 na saúde. "O grande desafio é que há muita coisa que ainda não entendemos. Os especialistas em fadiga estão a encontrar pessoas com múltiplas causas para o estado a que chegaram", referiu o cientista que irá coordenar o estudo que abrange dez mil doentes.

Decorrem os estudos para avaliar até onde podem ir as sequelas da covid-19 - como é o caso dos hospitais portugueses de referência, como o de São João - mas só o tempo irá possibilitar conclusões mais certeiras. "Muitas pessoas pensam que a covid-19 mata 1% dos pacientes, e o restante livra-se com alguns sintomas semelhantes aos da gripe. Mas a realidade é mais complicada. Haverá centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, possivelmente mais, que precisarão de tratamentos como diálise renal no resto das suas vidas. Quanto mais aprendemos sobre o coronavírus, mais perguntas surgem", alerta o virologista Peter Piot.

Vírus chega ao rins, ao coração e até ao cérebro

Os cientistas estão a olhar para os dados dos estudos sobre as sequelas da SARS-CoV-2 e verificam que houve uma grande percentagem, 40% segundo um estudo, de doentes que ficaram com sequelas como fadiga extrema, problemas respiratórios e renais. E o número de infetados foi muito menor, cerca de oito mil pessoas. A diferença é que o novo coronavírus transmite-se com muito maior facilidade e ataca as células de forma diferente, Ambos infetam as células através dos recetores ACE-2, mas enquanto o vírus de 2003 precisa de muitos recetores - e assim concentra-se nos pulmões -, "a SARS-CoV-2 não precisa de tantos recetores ACE2", disse Panagis Galiatsatos, pneumologista do Johns Hopkins Institute. O vírus que causa a covid-19 pode invadir qualquer célula com um recetor ACE2, independentemente da concentração. Isso inclui células na parte posterior da garganta, no aparelho digestivo, no coração, nos rins e até no cérebro.

Por isso, Filipe Froes aponta que as sequelas inevitáveis da covid-19, sobretudo nos doentes mais graves, podem passar por "doenças arteriais e neurológicas como a esclerose múltipla". E outras que irão sendo identificadas. O processo é dinâmico e é necessário acompanhar a evolução da doença a cada dia para se conhecer a fundo as suas implicações para a saúde pública.

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