Kirk Douglas, um homem para a eternidade

Morreu a última das grandes lendas da Hollywood clássica: Kirk Douglas (1916-2020). Protagonizou A Vida Apaixonada de Van Gogh, Spartacus e Horizontes de Glória, entre muitos outros, numa carreira com mais de 60 anos. Recordamo-lo também através de dez dos seus filmes.

Não é assim tantas vezes que a expressão corrente "morreu um dos grandes" faz pleno sentido. O desaparecimento, nesta quarta-feira, de Kirk Douglas, nascido Issur Danielovitch, homem de longa vida (103 anos), ator de sangue quente e moral de ferro, deixa um irremediável sentimento de vazio. Se excluirmos Olivia de Havilland (irmã de outra atriz, Joan Fontaine), ainda viva e com a mesma idade que Douglas, ele era a última grande estrela da chamada época dourada de Hollywood - não venceu os dois Óscares que ela venceu, mas o seu carisma internacional, a marca que deixou na história do cinema e a paixão inigualável das suas interpretações são valores para a eternidade.

No comunicado de confirmação da morte, o filho Michael Douglas sublinha a ideia: "Ele deixa um legado no cinema que perdurará pelas gerações vindouras." Pesam-se as palavras. E, ainda assim, não haverá ninguém como ele.

Filho de "imigrantes judeus russos analfabetos", como se lê na autobiografia The Ragman's Son (publicada em 1988), Douglas cresceu em Eagle Street, o bairro mais pobre da cidade de Amsterdam, Estado de Nova Iorque, e nesse lugar, lê-se, "onde todas as famílias lutavam para sobreviver, um trapeiro estava no último degrau da escada social". Issur Danielovitch era o filho do trapeiro. Sendo o irmão do meio numa casa cheia de mulheres (seis irmãs), fez-se homenzinho tentando ajudar a ganhar o pão, e foi entre a sinagoga e a escola que descobriu o gosto de representar. Tudo começou com um poema lido no jardim-de-infância, onde se sentiu orgulhoso pelos aplausos, depois veio o teatro na escola e, já com trinta anos, apanhou o comboio e desceu em Los Angeles: Hollywood era o destino, o "sonho de milhões".

Ator de palco, estreou-se no grande ecrã em O Estranho Amor de Martha Ivers (1946), de Lewis Milestone, com uma intimidante Barbara Stanwyck por perto. Contudo, o seu primeiro momento de notabilidade acontece em O Arrependido (1947), filme noir de Jacques Tourneur protagonizado por Robert Mitchum, num icónico papel, em que o contraste dos dois faz saltar à vista o perfil controlado que Douglas foi desmontando ao longo do tempo: ao lado de um estiloso e despreocupado Mitchum, ele é a ameaça de fato e gravata engomados, cigarro na boca e ironia elegante. Quantas mais vezes o veríamos assim? Contam-se pelos dedos de uma mão.

Kirk Douglas cresceu pela força da expressão do olhar, despenteou o cabelo, ofereceu o corpo às convulsões da alma e isso é logo evidente no início do seu percurso cinematográfico, tanto em O Grande Ídolo (1949), de Mark Robson, como em Duas Mulheres, Dois Destinos (1950), de Michael Curtiz, respetivamente, nos papéis de um pugilista e de um trompetista. A escalada das suas personagens impetuosas prosseguiu com O Grande Carnaval (1951), de Billy Wilder, tremenda parábola sobre o jornalismo, a abrasadora História de Um Detetive (1951), de William Wyler, Cativos do Mal (1952), de Vincente Minnelli, chegando ao ponto altíssimo de A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), também de Minnelli, que lhe deu o mais belo e doloroso papel da sua carreira, esse do artista holandês cuja história se lhe colou à pele e da qual demorou muito tempo a libertar-se: "Às vezes tinha de me controlar para não levar a mão à orelha, a fim de me certificar de que, realmente, ela continuava ali", escreveu na autobiografia, referindo-se à orelha cortada de Van Gogh.

Douglas era mesmo assim, um ator de entrega total e compromisso. Algo que se atestou igualmente em obras que produziu, caso de Horizontes da Glória (1957), um assumido incentivo direto ao talento de um jovem realizador chamado Stanley Kubrick - de quem tinha apreciado muito Um Roubo no Hipódromo -, que lhe valeu a personagem inesquecível do coronel Dax, e o caso também do emblemático Spartacus (1960), segunda colaboração com Kubrick, já em plena era das grandes produções que tentavam fazer frente à popularidade do pequeno ecrã, e que se tornou uma obra de forte simbolismo histórico: pela primeira vez, numa mão-cheia de anos, o argumentista Dalton Trumbo, personalidade da indústria marcada na famosa Lista Negra de Hollywood, saiu da sombra com o seu nome visível na grande tela. Kirk Douglas atreveu-se a "rasgar" essa lista negra - facto que recordou quando, em 2018, apareceu na cerimónia dos Óscares, de cadeira de rodas, acompanhado no palco pela nora Catherine Zeta-Jones, perante uma assembleia de aplausos. Mais, muito mais do que aqueles que recebeu quando leu o poema no jardim-de-infância... E, no entanto, ficou a faltar-lhe pelo menos um Óscar no bolso, para além do honorário recebido em 1996.

Entre cowboys, figuras míticas como Ulisses e Doc Holliday, ou outras literalmente bigger than life, Douglas viveu uma vida no grande ecrã a que a idade de 103 anos dá uma certa dimensão. O seu favorito de todos esses papéis foi o cowboy solitário do filme, raramente visto, Lonely Are the Brave (1962), de David Miller. Uma personagem angustiada com a modernidade - também ele o era - que, pela via da integridade masculina, se pode fazer corresponder ainda com outra de Céu Aberto (1952), a magnífica obra naturalista de Howard Hawks. Essa personagem, a certa altura, referindo-se à paisagem americana, comenta: "Claro que é um país grande. A única coisa maior é o céu." É para lá que segue.

Dez filmes para recordar Kirk Douglas

Lust for Life/A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), de Vincente Minnelli

Na autobiografia The Ragman's Son, Kirk Douglas classificou a experiência deste filme como "maravilhosa e sofrida" ao mesmo tempo. Foi a sua interpretação mais complexa e profunda, nos trilhos da alma atormentada do pintor Vincent van Gogh. No mesmo livro biográfico escreveu que não seria capaz de voltar a esta personagem que quase o consumiu... Baseado no romance homónimo de Irving Stone, Lust for Life é um drama supremo sobre a vida do artista que se pode dizer protagonizado pelo ator perfeito. Esta foi a segunda vez que Douglas trabalhou com o realizador Vincente Minnelli (a primeira foi em Cativos do Mal), e a terceira em que esteve à beira de receber um Óscar. Só lhe viria a ser entregue o honorário, em 1996.

Ace in the Hole/O Grande Carnaval (1951), de Billy Wilder

Até onde se chega para conseguir uma boa história? É a pergunta que atravessa O Grande Carnaval, filme de Billy Wilder com Kirk Douglas na vertigem da resposta. Aqui ele interpreta um jornalista com uma carreira moribunda, que se depara com o caso que a poderá relançar: um homem preso numa cave após um colapso, sem maneira de sair. Para isso manipulará a ação de resgate, de forma a prolongá-lo, gerando um autêntico ambiente de feira (daí o título português) à volta do local, com uma multidão instalada... Eis o retrato mais duro da decadência moral do jornalismo, que, pela delicadeza do tema, foi recebido com amargura pelos americanos. O filme é baseado numa história verdadeira, e, além de ainda dizer muito sobre os nossos dias, mostra-nos um Douglas no olho do seu furacão interior, intensíssimo.

Paths of Glory/Horizontes de Glória (1957), de Stanley Kubrick

Esta primeira colaboração com Stanley Kubrick surgiu depois de Kirk Douglas ter visto Um Roubo no Hipódromo (1956). Na faceta de produtor, quis conhecer o jovem por detrás desse filme, e acabou por ficar a par do seu próximo projeto: a adaptação do romance antibelicista de Humphrey Cobb, Paths of Glory. Douglas decidiu desde logo apostar nesta história sobre a tirania de um general francês durante a Primeira Guerra Mundial, ficando com o papel do coronel que defende os seus soldados. O resultado é uma inequívoca obra-prima, com Kubrick (28 anos apenas) a alinhar uma virtuosa realização com a sabedoria performativa de Douglas. O rosto deste último é lapidar para a iconografia do filme.

Champion/O Grande Ídolo (1949), de Mark Robson

Foi a primeira nomeação de Kirk Douglas para um Óscar, no seu também primeiro papel realmente físico: um pugilista com um percurso de ascensão moralmente controverso. Esta personagem pouco agradável, um assumido anti-herói - que a princípio levou os agentes de Douglas a desaconselharem o papel - foi a sua verdadeira rampa de lançamento para o estrelato, deixando registada no grande ecrã uma fremente persona, imagem de marca de muitos dos filmes vindouros. Aqui está o desafio que Douglas fez questão de aceitar na altura certa da carreira, precisamente porque até aí não tinha tido um papel que lhe enchesse as medidas e o entusiasmo. O Grande Ídolo é um dos mais célebres filmes de boxe da década de 1940, traduzido num sucesso comercial.

The Bad and the Beautiful/Cativos do Mal (1952), de Vincente Minnelli

Eis mais uma personagem sem escrúpulos - definitivamente, Kirk Douglas gostava deste tipo de papéis. Jonathan Shields é um produtor cujo retrato humano nos chega pelas memórias de um realizador (Barry Sullivan), de uma atriz (Lana Turner) e de um argumentista (Dick Powell). Em flashbacks são reveladas as facetas desse homem, do charme e génio inventivo ao carácter obsessivo e ditatorial, como um apurado olhar sobre os bastidores de Hollywood. Douglas, assegurando o enorme magnetismo da figura do produtor, obteve aqui a sua segunda indicação para a estatueta dourada (depois de O Grande Ídolo). Já o maior incómodo foi de David O. Selznick, produtor cujo nome surgiu nas comparações com o protagonista, assim como Orson Welles e Val Lewton... A ficção a iluminar a realidade.

Detective Story/A História de Um Detetive (1951), de William Wyler

Adaptação de uma peça de Sidney Kingsley, A História de Um Detetive é um filme com a ação concentrada num só dia e uma performance de Kirk Douglas tão veemente quanto a densidade temporal da narrativa. Tudo anda à volta do detetive de Nova Iorque por ele interpretado, que está prestes a chegar ao fim de uma investigação e descobre um segredo sobre o passado da esposa (magnífica Eleanor Parker). Ao lado de O Grande Carnaval, esta é a outra brilhante e memorável interpretação de Douglas no ano de 1951. Uma personagem definitivamente mais merecedora de simpatia do que a do filme de Billy Wilder, é certo, mas concebida na mesma linha de desassossego, com muita margem para as belas e pujantes fúrias de Douglas.

Lonely Are the Brave/Fuga sem Rumo (1962), de David Miller

Kirk Douglas dizia que este era o seu favorito, de entre os filmes que fez. Um western moderno, com um cowboy em fuga na paisagem, a simbolizar a recusa do novo mundo. Desde a primeira sequência, em que Douglas atravessa a cavalo uma estrada onde estão a passar carros e camiões, até à última, em que vai dar a essa mesma estrada, com o animal novamente desorientado pelo trânsito, este é o filme da beleza de um anacronismo. Figura solitária e corajosa (como o título original indica), o ator carrega aqui uma invulgar serenidade, convertendo-se na admirável silhueta de um inadaptado à procura de uma sombra para descansar. Um apontamento também para a atriz Gena Rowlands, a musa de Cassavetes, que surge neste filme num dos seus primeiros papéis no cinema.

Spartacus (1960), de Stanley Kubrick

É a segunda - e grande - empreitada de Kirk Douglas e Kubrick. O filme em que o ator e produtor decidiu colocar abertamente o nome do argumentista Dalton Trumbo nos créditos, depois de este figurar durante 10 anos na lista negra de Hollywood, vítima do macartismo. Spartacus é puro Douglas, no auge da demonstração física e carácter instintivo. E aqui temos um elenco assombroso para um filme colossal: além do protagonista, surgem Laurence Olivier, Charles Laughton, Jean Simmons, Tony Curtis e Peter Ustinov (que venceu o Óscar na categoria de ator secundário). Baseado no romance homónimo de Howard Fast, esta é a saga de um escravo romano que lidera uma revolta; um épico celebrado e um enorme sucesso de bilheteira em todo o mundo.

Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957), de John Sturges

Foi o filme que apertou os laços de amizade entre Kirk Douglas e Burt Lancaster, depois de se terem cruzado 10 anos antes em Lábios Que Sangram, de Byron Haskin. Eles formam a sugestiva dupla que tornaria Duelo de Fogo num dos mais populares westerns da fase tardia do género. De resto, a história do duelo de O.K. Corral faz parte da mitologia americana e foi muitas vezes levada ao ecrã, sendo esta a versão que mais se pode orgulhosamente aproximar do valioso My Darling Clementine (1946), de John Ford. No papel do lendário jogador Doc Holliday, tuberculoso, Douglas é a justa antítese de Lancaster, o homem da lei, desenhando com ele o belíssimo retrato de um companheirismo discreto mas bem visível na ação de pistolas em punho.

Young Man With a Horn/Duas Mulheres, Dois Destinos (1950), de Michael Curtiz

Esta é a história de um trompetista de jazz e suas atribulações amorosas. A grande paixão do protagonista Rick Martin é a música, que persegue desde pequeno, assistindo a concertos noturnos às escondidas. Mas quando adulto, a sinfonia do coração torna-se menos harmoniosa ao conhecer, uma depois da outra, Jo Jordan (Doris Day) e Amy North (Lauren Bacall). Duas mulheres completamente diferentes, começando por sair vencedora a sofisticação de Bacall face à candura de Day. Kirk Douglas personifica aqui o homem preso na armadilha do destino, à procura da redenção. E dir-se-á que poucos como ele nos convenceram tão bem de que tocavam realmente o instrumento musical - na verdade, foi Harry James quem tocou as músicas gravadas para o filme. A garra da performance, no entanto, é toda de Douglas.

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