E eu com isso?

É preciso ter pelo menos 40 anos para ter celebrado a queda do Muro de Berlim e a vitória do Ocidente capitalista sobre a União Soviética comunista. Quem tenha 30 anos cresceu com o medo do pós-11 de Setembro. Quem tenha 20 anos, praticamente só conheceu o pessimismo do mundo depois da crise financeira de 2008. Não é, por isso, de estranhar que vejamos coisas diferentes, que a satisfação de uns contraste com a falta de esperança dos outros. Acresce que a realidade é contada como uma tragédia em curso, e não como a história de um mundo cada vez melhor. E isso manifesta-se.

Num estudo publicado há poucas semanas pela Gapminder, uma organização não governamental que nasceu do trabalho de Hans Ronsling, um quinto dos suecos, finlandeses, dinamarqueses e noruegueses inquiridos erraram nas respostas a 18 questões factuais sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (estabelecidos em 2015, pelas Nações Unidas). Na maior parte dos casos, as pessoas tendem a acreditar que o mundo é um lugar pior e mais desgovernado do que é. Que há mais refugiados do que há, que há mais plásticos nos oceanos do que há, que há mais pobres no mundo do que há, que as raparigas dos países pobres vão menos à escola do que de facto vão, que as taxas alfandegárias valem mais do que de facto valem nos orçamentos dos países ricos.

As pessoas comparam o presente com as suas expectativas e com o que ouvem, veem e leem que se passa no mundo, não com o passado nem com a verdade factual. É desse confronto que se alimenta parte da desilusão de tantos eleitores no Ocidente. A estagnação económica faz o resto.

Ainda que seja verdade que nunca se viveu tão bem como agora (globalmente), há pouca consciência disso. Mas dizê-lo não é uma proposta política de futuro.

O pós-morte das ideologias deu isto. As propostas dos "partidos tradicionais" não são lidas como ideias, são interpretadas como estratégias de mera manutenção do poder.

Há quem diga - em parte acertando, em parte para poder dizer coisas que de outra forma não diria - que os eleitores dos extremos, dos radicais, têm razão. Não têm. Mas têm razões. E entre elas estará esta mistura de descrença no futuro, uma ignorância do que poderia ter sido o presente e a necessidade de acreditar em alguma coisa.

Se o melhor que temos para lhes dizer é que o presente podia ter sido pior, o mais que nos vão responder será um encolher de ombros e um "e eu com isso?". Se deixarmos que o melhor que há para oferecer seja dizer que a culpa é dos outros (dos ciganos, dos heterossexuais, dos imigrantes, dos homens, dos homossexuais, dos privados todos, ou de outro outro qualquer), estaremos a construir comunidades de ressentimento.

No debate político em Portugal é frequente haver quem, sobretudo à esquerda, ainda invoque o 25 de Abril a pretexto seja do que for. À direita, há alguns reféns da queda do Muro. Ambos têm razões para celebrar, mas isso não é um programa político.

O Adolfo Mesquita Nunes, de quem sou amigo (fica feito o disclaimer), publicou recentemente o livro A Grande Escolha, que é, essencialmente, uma resposta a quem acha que o mundo está pior e a quem acha que o que está pior no mundo é por causa da globalização. Reconhecendo que o mundo está melhor, também reconhece que há muito por fazer, começando pela escolha entre sociedades abertas ou fechadas. É isso que mais interessa no livro, porque essa foi a razão que se teve no passado que será útil ao futuro.

Consultor em assuntos europeus

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