Cinco filmes de Steve McQueen sobre a comunidade negra londrina na HBO

A HBO Portugal está a disponibilizar Small Axe, série de cinco longas-metragens de Steve McQueen, o realizador de 12 Anos Escravo. Dois dos filmes tiveram o carimbo da seleção oficial de Cannes 2020 e são do melhor que se pode ver no streaming.

São cinco longas-metragens que o realizador Steve McQueen fez para a BBC e que agora estão disponíveis na HBO Portugal. Mangrove, Lovers Rock, Education, Alex Weathle e Red White and Blue, todos os filmes feitos de uma assentada e com um denominador comum: a Londres da comunidade negra dos anos de 1960 aos de 1980.

Os temas vão da descriminação racial e passam por histórias verdadeiras e testemunhos passionais do próprio realizador. Uma evocação intima e generalista que começou a ser preparada há cerca de nove anos e cuja conceção foi apenas possível através de investimento da Amazon Prime.

Estes cinco filmes estão agrupados num título: Small Axe, alusão a um tema de Bob Marley que, por sua vez, glosava um provérbio japonês que invocava a força de uma união das minorias perante as grandes maiorias, as árvores grandes, ou seja, um pequeno machado poderia cortar pela raiz os males maiores. Na base destes cinco filmes, que não são telefilmes, estão as experiências dos negros britânicos provenientes do fenómeno da emigração dos povos jamaicanos e das índias ocidentais. Uma antologia que diz respeito a uma geração que cresceu na década de 1980, a geração de McQueen, cineasta oriundo das artes plásticas e que terá vivido na pele o preconceito britânico.

Dois destes filmes, Mangrove e Lovers Rock, antes de chegarem à HBO, tiveram neste verão estreia em festivais de prestígio como o Festival de Nova Iorque e o London Film Festival, ainda que já antes tenham sido títulos com o carimbo da seleção oficial de Cannes, mesmo de forma virtual. Sinal de aprovação para um projeto que neste momento ainda só tem três filmes disponíveis para os assinantes do gigante do streaming: Mangrove, Lovers Rock e Red White and Blue.

Nas próximas duas semanas vão ficar disponíveis os filmes seguintes. Ressalve-se que os filmes não estão no menu como cinema, mas no menu das séries, neste caso sob o título de Small Axe, embora seja garantido que esta linguagem não é de ficção televisiva, é de cinema puro.

O primeiro dos filmes a ficar disponível em streaming foi Mangrove, história verdadeira sobre um caso de tribunal acerca de um protesto de jamaicanos em Notting Hill. A história centra-se nas vivências de um restaurante das Caraíbas em Londres que é visado pela polícia. Tudo se passa em 1970 e o julgamento dos 9 de Mangrove acabou por ser um marco da justiça britânica numa altura em que a agitação racial estava no auge e a violência policial a aumentar.

Tal como em Fome, onde se abordava a questão do IRA, Steve McQueen filma a memória de uma denúncia de uma comunidade perante um preconceito racial que tentou pôr atrás das grades ativistas que tentaram protestar pacificamente contra ações ofensivas e racistas das forças da lei. Como filme de tribunal, Mangrove</em> é acutilante, feito com um ritmo sem falhas e um poder dramático tão certo como eficaz.

No elenco estão alguns nomes conhecidos, em especial Letitia Wright (Black Panther) e Jack Lowden (England is Mine/Descobrir Morrissey), mas é sobretudo um filme repleto de ideias estéticas e no qual McQueen se faz valer de um olhar luminoso em cima dos rostos e dos lugares, tendo a música de Mica Levy um efeito perturbante notável. Mangrove</em> é um drible aos problemas do telefilme de causas e das ilustrações dos "casos verídicos". Uma evocação que é tudo menos automática.

Bastante recomendável é também Lovers Rock, exercício que evoca o espírito das festas de reggae no começo da década de 80 em Londres</strong>. Tudo se passa numa só noite numa festa privada em que apenas entram emigrantes das Caraíbas. Uma festa em que a pista de dança pode ser uma projeção das pulsões românticas, de uma ideia de celebração e esperança mas também de todas as tensões raciais de uma cidade que nunca soube respeitar a comunidade rastafári. Em menos de uma hora e dez minutos, acompanhamos o romance entre uma jovem que vai à festa às escondidas e um jovem romântico que a conquista através da dança.

Dir-se-ia que é um filme ao sabor do ritmo, dedicado "a todos os amantes e farristas". A câmara de Steve McQueen está literalmente no meio da pista, a dançar, a apalpar corpos suados e em plena manobra de sedução. Nesse capítulo, é um filme de uma sensualidade desarmante, capaz de momentos sem cortes, onde o espírito do embalo é respeitado na íntegra. O momento de dança do hit Kung Fu Fighting, de Carl Douglas, é uma afirmação de que o milagre da música em cinema é algo que pode permitir um fluxo narrativo para além das palavras. São momentos enérgicos e inesquecíveis, puro hedonismo de um cineasta que propõe ao espectador uma experiência explícita do prazer da dança e da música. Nesta set list cabem também pérolas melómanas como Janet Ray, Dennis Brown ou Sister Sledge.

Se Lovers Rock é um souvenir empírico da memória musical de uma geração, Red White and Blue</em> é outra evocação afro-caribenha, neste caso ancorado num relato de um jovem polícia que tenta o respeito social junto da sua comunidade. Um jovem que troca uma vida como cientista forense para combater o racismo e a violência policial por dentro. Uma obra magoada e com uma explícita mensagem de preconceito das forças policiais de Londres.

Marcado por uma extraordinária interpretação de John Boyega, ator conhecido dos últimos Star Wars, Red White and Blue</em> peca apenas por não ter uma escala narrativa capaz de um final com maior clímax dramático, ainda assim um ensaio sobre a dignidade humana de alguém que se recusou terminantemente em ser vítima.

Nesta segunda-feira, as lições de história londrina continuam com Alex Wheatle</em>, a história verdadeira do escritor que cresceu sem mãe em Londres e acabou por estar envolvido dos conflitos de protesto de 1981 em Brixton.

Por fim, Steve McQueen tem ainda Education, o olhar do realizador sobre um caso de injustiça social que afetou um jovem negro com necessidade de cuidados especiais. O cinema deste artista torna-se cada vez mais urgente e capaz de causar um espelho de identificação com as aspirações, os desejos e os sucessos de uma geração da comunidade negra inglesa. São filmes com muita vida lá dentro, todos filmados com uma câmara que encontra sempre uma beleza glaciar em qualquer plano, mesmo nas sequências em que se expõe o mais miserável ato de desumanidade.

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