Salários nas empresas sem lay-off com maior crescimento em cinco anos

No meio da pandemia, quem não teve contrato suspenso ou perdeu o emprego regista o maior ganho de rendimentos desde 2015. Foi, em junho, de 5,5%.

É o maior ganho salarial dos últimos cinco anos e chega no ponto alto da pandemia que atingiu o país em março. Mas apenas para alguns trabalhadores: nas empresas sem quebras de faturação que justificassem apoio da Segurança Social e na função pública, as remunerações - expurgadas de subsídios de férias e outras rubricas sazonais - cresciam em junho 5,5%, por comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o INE.

Trata-se da maior subida desde que arranca a série estatística que recolhe dados das declarações de remunerações junto da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, em janeiro de 2015. Contrasta fortemente com a atual situação de crise do país e, sobretudo, com a evolução de salários nas empresas em maiores dificuldades. Para os 877 mil abrangidos pelo lay-off em mais de cem mil empresas do país, que a Segurança Social contabilizava no início de julho, o salário médio regular regrediu 0,1% no mesmo período.

As estatísticas das remunerações dos trabalhadores relativas a junho, ontem publicadas, mostram um retrato geral em que as remunerações regulares do conjunto dos trabalhadores levam ainda em junho a um crescimento de 2,6%, para os 1065 euros. Um valor média de subida que o INE reconhece ser muito amortecido pela utilização do lay-off simplificado.

As remunerações médias entre quem teve cortes de lay-off ou teve de receber apoio à família para cuidar de menores devido à suspensão das aulas (cerca de 52 mil trabalhadores em junho) começaram a cair em maio, segundo os dados do INE, então com uma quebra homóloga de 0,22%.

Os dados permitem comparar o histórico de evolução salarial nestas empresas mais debilitadas, onde o salários começaram a ter ligeiras evoluções positivas em julho de 2015 mas registaram sempre crescimentos inferiores aos que foram pagos nas restantes empresas ao longo dos últimos cinco anos. Já face a março, primeiro mês da pandemia, a remuneração média regular bruta nas empresas em lay-off caiu 2,3%, quando no mesmo período subiu 1,6% entre os trabalhadores de empresas sem lay-off e funcionários públicos.

A evolução desigual é acentuada ainda pelas fortes diferenças de níveis salariais de uns e outros. O ganho médio de quem estava em junho em lay-off, excluindo subsídios, era de 928 euros. Já entre os restantes trabalhadores atingia os 1252 euros.

O universo da subida de 5,5% registada em junho por comparação com o mesmo mês do ano passado, exclui as empresas em maiores dificuldades, mas também os salários de quem, entretanto, passou ao desemprego ou inatividade devido à crise. O último inquérito ao emprego relativo ao segundo trimestre mostra que foram sobretudo os trabalhadores mais jovens e precários, tendencialmente com salários mais baixos, o que poderá ter também ter tido efeito estatístico na aceleração registada. A perda de emprego no país, porém, deverá ditar daqui em diante menor poder para negociar salários e, em resultado, maior abrandamento na evolução global das remunerações.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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