"No ato de aprender, o humor é fundamental para entender os momentos mais difíceis da História"

Ganhou, em 2019, o título de melhor professor do país. O que faz na sala de aula, onde leciona História, pode ser visto como magia, mas o próprio garante que é uma ciência bem simples. Rui Correia torna agora pública esta sua magia, durante as 79 páginas de um livro que escreveu a quatro mãos com o seu amigo de longa data e também professor António Nabais.

Não há coincidência entre o que esta obra pretende provocar junto das crianças e o impacto que as aulas de Rui Correia geram na vida dos seus alunos. Contos Arrepiantes da História de Portugal, da Nuvem de Tinta, chancela da Penguin Random House, é, na verdade, um prolongamento da sua forma de estar na profissão e que em 2019 lhe valeu o prémio de Professor do Ano, da Global Teacher Prize Portugal - considerado o Nobel (português) da Educação. Depois do reconhecimento nacional, o professor de História de Caldas da Rainha foi desafiado a escrever esta coleção de contos, que decidiu imediatamente fazer a quatro mãos, com a ajuda de um outro professor: António Fernando Nabais, docente de Português, Literatura e Latim. Une-os a mesma visão sobre o ensino e "um caso de amor" cultivado ao longo de mais de três décadas de amizade. Só não deu em casamento "porque a orientação sexual atrapalhou", confessam. De resto, garantem ser um breve espelho um do outro.

São contos da Idade Média, episódios bem portugueses e "repelentes, desgraçados, tenebrosos, viscosos, nojentos, horripilantes, imundos, malcheirosos, formidolosos, enlameados, brutais, asquerosos e que chegam mesmo, por vezes, a ser desagradáveis". Na capa não houve espaço para todos os elogios fúnebres a esta época histórica em Portugal, ainda assim sublinhados na contracapa deste livro, que não nos deixa esquecer que o país também teve uma infância. Contos Arrepiantes da História de Portugal mostra, por isso, as asneiras, os sustos e as matreirices que este país tramou enquanto criança.

Histórias que os próprios autores, apaixonados pela arte de as contar, desconheciam ou só veriam comprovadas na hora de as encontrar. "Como a imagem do nosso primeiro rei, que é uma imagem que eu tenho desde miúdo, de um malandro", conta António Fernando Nabais. Tudo contado com humor, como fãs de uma boa gargalhada que são ambos os autores - principalmente se for dentro de uma sala de aula.

Humor e a ajuda de duas personagens, os jovens contemporâneos Teresa e Manuel, que vão surgindo conto a conto, com comentários arrojados sobre cada um. Ficaram com os nomes dos filhos de António Nabais e o rosto dos filhos de Rui Correia - ilustrados por Hélder Falcão. O que dizem ao longo deste livro é uma mistura do que ambos os professores foram ouvindo dos seus alunos na longas décadas que levam de ensino. O DN esteve à conversa com os autores.

Olhar para esta infância de Portugal ajuda-nos mais a relativizar o presente ou a perceber melhor como chegamos até aqui?
Rui Correia -
Eu tenho a noção, e não sou único neste tópico, de que estudar História não tem a função primordial de conhecer o passado. A função da história é a função de qualquer outro tipo de conhecimento, que é o de podermos dominar o contemporâneo, tudo o que se passa hoje. Portanto, o estudo da História é necessariamente um estudo de nós mesmos, seja ela de Portugal ou de qualquer outro objeto. Acaba sempre por ser uma interpretação, antes de mais, e depois uma tradução selecionada, filtrada e, se possível, credível - por isso é que se associa o conhecimento histórico à ciência, porque há um cruzar de fontes, para garantir que esta tradução é o mais fidedigna possível. Acho que não há melhor momento na história do que aquele que nós vivemos, nunca se viveu tão bem como vivemos agora. Por isso, sempre que estudamos História, ficamos com a sensação de que a vida em outras épocas era incrivelmente mais desafiante e difícil. Portanto, compreender o estado anterior das coisas ajuda-nos também a apreciar melhor o bem-estar que o presente nos vai dando.

Recorrem, durante todo o livro, ao humor, mas sem descurar a obscuridade das verdadeiras histórias arrepiantes de Portugal, da fome ao analfabetismo. A forma como o fazem é apenas uma extensão daquilo que já se comprometem fazer na sala de aula?
António F. Nabais -
O humor já fazia parte da encomenda. O Rui foi convidado pela editora exatamente porque uma das coisas que ele - e eu - defende nas aulas é o humor. Depois, é um gosto muito antigo, até infantil, de fazer humor com tudo, de brincar com tudo, de forma muito amadora. Não perco nenhuma oportunidade de tentar ser engraçado, esperando sempre cair em graça. Até porque, em princípio, vamos falar de coisas nas aulas que os alunos não vão gostar tanto de aprender.

Rui Correia - É bom que se perceba que nenhum de nós leva anedotas para dentro da sala de aula, não há aqui a ideia do infoentretenimento. A aula é uma coisa, o livro é outra, mas pretende-se nas duas formas que aluno e professor, leitor e autor, estejam juntos no mesmo sorriso e, assim, poder fazer que as mensagens sejam mais facilmente transmitidas. No ato de aprender, o humor é fundamental. Ninguém aprende sem estar bem-humorado, ninguém aprende de mau humor. Portanto, aprender com um sorriso nos lábios é mil vezes melhor do que aprender com um esgar de horror ou qualquer coisa do género. O humor é uma excelente calçadeira para podermos entender os momentos mais difíceis da história e isto funciona também como uma filosofia de vida. É como aquele momento em que alguém conta a anedota no funeral.

Como foi trabalhar a linguagem para este livro?
Rui Correia - Uma coisa que sempre me angustia é quando se infantiliza e se imbeciliza as crianças. Tenho absoluto horror a isso e este livro procura um equilíbrio. Ou seja, não foge das palavras caras, tentando, uma vez por outra, uma palavra mais exigente. Quando dei aulas pela primeira vez, quis saber o que cada aluno achava das aulas e ainda hoje guardo esses papéis onde o escreveram. Diziam, de mim, as duas coisas que ainda hoje os alunos me dizem: que as aulas são muito divertidas e muito exigentes. É um equilíbrio indispensável, porque não são contraditórios nem nada que se pareça.

Com o decorrer do processo, encontraram histórias que ainda não conheciam ou que viram confirmadas?
António F. Nabais -
Isto foi também um processo de aprendizagem para mim e é um prolongamento daquilo que a minha profissão me dá. Obviamente, aprendemos sempre muito durante uma licenciatura, mas eu nunca aprendi tanto desde que dou aulas. A simples necessidade de investigar aquilo que se vai ensinar obriga-nos a investigar e a encontrar coisas que não sabíamos. Um desafio destes é algo semelhante. Fiquei a saber coisas que também não sabia. Gosto especialmente da história da ribeirinha que tramou o seu próprio raptor.

No final do livro, numa pequena banda desenhada em que simulam uma conversa com a Teresa e o Manuel, explicam que a necessidade de publicar este livro é porque têm "medo" que estas histórias "deixem de ser contadas"...
Rui Correia -
É isso. Aqui, recorremos a duas ou três lendas, digamos assim, episódios que não são factos, lendários. Mas pegamos neles porque consideramos que as lendas também representam, de uma certa maneira, um passado, ajudam-nos a compreender a mentalidade da época. Todos os dias, há lendas que estão a ser criadas e outras a serem extintas. Quando falamos de uma padeira de Aljubarrota, é inverosímil a possibilidade de termos uma mulher a matar sete ou o que quer que seja castelhanos que se esconderam num forno. Mas é plausível imaginar castelhanos escondidos em fornos e uma populaça atiçada contra a invasão castelhana. Tudo isto representa uma forma de entender a história, também é um conhecimento histórico, mas correm o risco de não virem a passar para as gerações seguintes. Portanto, temos muito interesse em mantermos esta tradição viva e os livros servem para isso.

Há cada menos espaço na sala de aula para contar estas histórias?
António F. Nabais -
Há espaço para tudo. Os miúdos não precisam de aprender tudo na disciplina de História, da mesma maneira que nós não aprendemos tudo na escola. Este livrinho complementa isso, que não acho ser obrigatório estar nos manuais.

Mas é errado esperarmos que elas cheguem até nós através dos professores, além dos livros?
Rui Correia -
A questão é sempre a mesma: "Os currículos são enormes e não temos tempo para dar aulas." Há uma toxicidade muito grande no que diz respeito ao ensino. Uma das discussões prende-se com a questão do currículo, de se achar que é enorme e tem de ser encurtado, pressupondo a ideia de que todo o currículo tem de ser dado, para que no fim toda a gente possa ser avaliada num exame que dá acesso à universidade. Isto não é acesso ao conhecimento, é acesso à universidade. E isto tem de ser contrariado. Os currículos podem ser absolutamente gigantes e impraticáveis. Não há problema nenhum nisto. A questão é que tem de ser dada ao professor a latitude e a liberdade para lecionar, por sua responsabilidade, os tópicos que deve lecionar. Quando falamos num currículo adaptado a um determinado tempo, turma ou pessoa, não estamos necessariamente a falar em reduzir o conteúdo dado, mas da liberdade do professor em garantir o prazer de aprender aos seus alunos.

Para quem é, afinal, este livro?
Rui Correia - Julgávamos que era para miúdos, que adoram ler estas coisas, como as notas que nos têm chegado não deixam dúvida. O que vemos é que os pais ou irmãos mais velhos começam a ler os livros aos mais pequenos, que depois vão brincar, e eles continuam a ler por aqui fora.

Os autores preparam-se para lançar um segundo volume deste livro, desta vez dedicado à época dos Descobrimentos.

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