Só as exportações de calçado impermeável estão a crescer

Segmento contraria tendência do setor nas vendas ao exterior, graças à pandemia e à procura por parte dos profissionais de saúde.

Portugal, tradicionalmente conhecido como fabricante de sapatos de couro, está hoje a recorrer, crescentemente, a outro tipo de matérias-primas. É o caso do calçado impermeável, que vale hoje já quase 3% das exportações totais, e que é mesmo a única categoria a crescer em ano de covid-19. A pandemia também deu uma mão, já que algum do calçado tradicionalmente usado pelos profissionais de saúde cabe nesta categoria.

Nos primeiros sete meses do ano, as exportações nacionais de calçado continuaram em terreno negativo, com uma quebra acumulada de 19,3%. No mesmo período, Portugal vendeu ao exterior 23,265 milhões de euros de calçado impermeável, mais 3,8 milhões de euros do que em igual período do ano passado. Em termos percentuais, o crescimento é de 19,7%. O resultado da aposta do setor na diversificação de produtos, numa tentativa de chegar a novos públicos e a novos mercados, diz a associação do setor.

"Durante muito tempo, as exportações portuguesas de calçado estiveram excessivamente concentradas no segmento do calçado de couro. Na última década assistiu-se a um esforço do setor em diversificar a sua oferta, até porque havia mercados onde tínhamos dificuldade em entrar, dado que o calçado em couro é consideravelmente mais caro", reconhece o diretor de comunicação da APICCAPS, Paulo Gonçalves. A crise das vacas loucas, que levou a um aumento "muito expressivo" do preço desta matéria-prima, foi outras das razões para a procura de materiais alternativos, com o centro tecnológico do setor a fazer um esforço de investigação e desenvolvimento de novos materiais, como a cortiça, os tecidos, plásticos e afins.

Por outro lado, a mudança de hábitos e a recusa de um número crescente de consumidores em usar produtos de origem animal - mesmo se, no caso do couro, se trate de um subproduto da alimentação humana que, caso não fosse utilizado no calçado, vestuário e outras indústrias, iria para aterro, uma solução nada amiga do ambiente - levou ao desenvolvimento de uma nova classe de produtos, o calçado vegan, segmento em que se inclui o impermeável, produzido a partir de plástico injetado ou borracha. Tanto se destina ao segmento da moda, "com produtos coloridos, divertidos e a preços mais acessíveis", lembra Paulo Gonçalves, como inclui produtos com "maior tecnicidade" para as áreas da saúde, mas não só. "São apostas que se têm revelado uma oportunidade de negócio interessante para algumas empresas que têm, assim, uma oferta mais abrangente. E é natural que as exportações estejam a crescer, até porque o ponto de partida é relativamente baixo", frisa.

Procalçado é o maior produtor do segmento

A Lemon Jelly, marca de calçado impermeável da Procalçado, que ostenta o selo vegan da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), a maior organização mundial de proteção animal, é um dos maiores exemplos deste segmento de mercado.

Com quase 340 trabalhadores e uma faturação que, em 2019, rondou os 20 milhões de euros, o grupo Procalçado é ainda responsável das marcasFor Ever, no segmento de solas, e da Wock, no segmento de calçado profissional, designadamente para o segmento da saúde. E foi, precisamente, o segmento de profissional que mais cresceu em ano de covid-19.

A Lemon Jelly, cujas perspetivas apontavam para um crescimento a dois dígitos neste ano, está ainda com uma quebra homóloga n vendas, embora "a escalar", e tudo indica que poderá, eventualmente, fechar o ano ao nível de 2019. Em contrapartida, na área do calçado de saúde, o crescimento foi "substancial", fruto precisamente da pandemia. Nos componentes (solas), as vendas começam agora a crescer "alguma coisa", diz o CEO da empresa.

Em termos globais, José Pinto admite que "as coisas estão a compor-se", isto depois dos lay-offs parciais que teve de fazer no segmento das solas e na área do design da Lemon Jelly. Na saúde, a grande procura pelo calçado Wock permitiu trabalhar em contínuo. "O facto de trabalharmos com produtos funcionais e de nicho, e não apenas no segmento da moda, é uma mais-valia", reconhece.

A grande preocupação agora é 2021. "Estamos receosos do próximo ano e, por isso, o momento é de contenção de custos. A prioridade é garantir que tentamos passar esta fase de forma estável, sem grandes soluços", diz Jorge Pinto. A empresa reforçou-se financeiramente para aguentar o embate, mas reconhece que só isso não basta. "Precisamos que os nossos clientes se aguentem também. Não estou pessimista, mas estou receoso. Pessimista só ficarei se houver um novo confinamento, o que seria gravíssimo, ou se tudo isto se arrastar por mais de um ano", frisa.

A Lemon Jelly foi uma das grandes ausentes da Micam, a maior feira de calçado do mundo, que em setembro decorreu em Milão, mas está a apostar crescentemente no negócio digital, ao mesmo tempo que reforça a sua presença no retalho, através de convites de parceiros para dar a conhecer a sua nova coleção de outono-inverno em espaços pop-up. Foi o caso dos armazéns alemães Breuninger, que criaram áreas exclusivas para a Lemon Jelly nas suas lojas de Düsseldorf e de Estugarda. Por outro lado, a marca tem vindo a apostar crescentemente no negócio por via mais digital, não apenas através da sua própria loja online, mas também do seu showroom digital na plataforma europeia wewantshoes.com.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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