Vernon Subutex, dos livros para série: o rock (ainda) não morreu

Baseada no sucesso literário da controversa Virgini Despentes, esta série é uma crónica da França contemporânea, com rock nos headphones e Romain Duris como guardião dos anos 1990.

"Escrevo da terra das feias, para as feias, as velhas, as machonas, as frígidas, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado das gajas boas. E começo por aqui para que as coisas sejam claras: não peço desculpa de nada." Virginie Despentes, escritora francesa, realizadora nas horas vagas, "proletária do feminismo", apresenta-se assim, sem modos nem decoro, no livro-manifesto Teoria King Kong (editado em Portugal pela Orfeu Negro). Um perfil que importa ter bem presente já que esta é a autora por trás do título Vernon Subutex, a trilogia romanesca, finalista do Man Booker, que assumiu a forma de uma série chegada agora à plataforma Filmin. Mas, perguntar-se-á o leitor, se a personagem titular é um homem, onde ficam as mulheres com que Despentes tanto se identifica? A resposta é: no pano de fundo da história. São elas que compõem a galeria feroz de uma intriga que explora a triste comédia humana na sua feição moderna.

Desde logo, vale a pena desmontar o excêntrico nome Vernon Subutex. Vernon vem de Vernon Sullivan, o pseudónimo que Boris Vian usava para escrever policiais violentos e eróticos nos anos 1940, e Subutex refere-se a um medicamento alternativo à metadona. O protagonista, interpretado por Romain Duris, é, por isso, alguém que se adequa ao famoso tríptico sexo, drogas e rock "n" roll - embora isso já sejam vestígios de outro tempo. Quando conhecemos este (outrora) dono de uma loja de discos, toda a normalidade amorfa dos seus dias está prestes a desabar: ele é despejado do apartamento por cima da sua antiga loja, chamada Revolver, porque deixou de conseguir pagar a renda. Sai porta fora apenas com a roupa no corpo e uma mala com alguns essenciais, e, nessa noite em que há um concerto do velho amigo Alex Bleach, decide aparecer e tentar cravar um teto para passar uma ou duas noites. O amigo recebe-o de braços abertos, com elogios rasgados ao homem que fora o responsável pela sua educação musical (e de uma data de gente, qual "guardião da memória coletiva"), e... na manhã seguinte está morto. Por overdose.

Com umas cassetes de vídeo metidas no bolso - gravações feitas por Alex antes de morrer, que serão o dispositivo do enredo -, Vernon inicia aqui a sua jornada pela sobrevivência numa Paris que já não reconhece. Cinquentão, de cabelo crescido e desordenado, envergando um casaco de cabedal, ele é um dinossauro dos anos 1990 que, apenas com dois dedos de conversa numa paragem de autocarro, depois de pedir um cigarro, é capaz de escolher a música ideal para aquela pessoa desconhecida que lhe arranjou lume. De headphones nas orelhas, percorre a cidade à procura de sofás alheios para ir aguentando os dias sem planos ou horizonte, e nunca admite que está numa situação de sem-abrigo. Arranja uma patranha: a cada porta que bate, diz que vem do Canadá e está de passagem. Uns amigos recebem-no com mais hesitação do que outros, há muita asneira pelo meio, mas não há ninguém que resista à arte de Subutex. Essa de escolher a canção para o momento certo.

Acontece que o seu sentido de precisão não vai além do "dom" musical. Tudo o resto é um caos que se acumula ao longo de nove episódios, a dissecar a França dos dias de hoje, justamente, a partir da cultura das séries e do Facebook. Isto porque, a par da deriva urbana de Vernon, há um produtor aflito para pôr as mãos nas malditas cassetes que (não sabemos porquê) o podem comprometer. É aí que entra uma hacker lésbica, e todo o fio narrativo de verve feminina que imprime o olhar de Virginie Despentes. Desde a mulher frustrada, histérica e ninfomaníaca que se agarra a Vernon, à que engordou e perdeu o brilho com a idade, os espécimes nascidos da pena da autora formam um universo próprio dentro da série.

Claro que estamos muito longe do domínio radical e chocante da realizadora de Baise-moi (filme polémico de 2000, com sexo explícito e violência extrema), até porque não é Despentes, a eterna enfant terrible, que assina esta adaptação do seu Vernon Subutex. Porém, o espírito rebelde, esse forte sentimento do ser inadaptado, passa de fininho por entre uma coleção de momentos, ora cómicos e descontraídos, ora sensuais e dramáticos, que constroem o tal retrato da França contemporânea, tomada pelas leis da rapidez tecnológica, contactos fugidios, individualismo pesado e desejos de carreira bem-sucedida.

Enquanto produção televisiva, Vernon Subutex é um objeto bem amanhado entre a diversão à francesa e o comentário social minimamente afiado, que explode no último episódio. E a excelente banda sonora - nunca intrusiva - dá a cada episódio aquela segurança da nostalgia que permite elevar a condição terrena do protagonista. Romain Duris é, aliás, uma figura tão acertada na expressão deste farrapo humano de espírito bamboleante, que não conseguimos imaginar outro ator para o papel. Ele é um baú de memórias errático, um corpo em constante flânerie forçada, que viu tudo acontecer e não se apercebeu do perigo: "O CD matou o vinil, as cassetes e os walkmans desapareceram". O rock deixou de ser uma religião.

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