Cansaço, medo e ansiedade. O isolamento na cabeça dos jovens

Pandemia teve significativo impacto na saúde mental dos mais novos. Tomás, Martim e Joana contam ao DN as experiências vividas enquanto jovens infetados, a angústia provocada pelo isolamento social nestas idades e os receios quanto ao futuro.

Tomás Ceia e Martim Gaspar têm 15 anos, Joana Simões tem 21. Dois adolescentes e uma jovem adulta, os três com algo em comum: todos eles ficaram em isolamento profilático depois de testarem positivo à covid-19. Como eles, milhares de jovens portugueses viram a rotina virada do avesso com a chegada da pandemia a Portugal, em março de 2020. Em poucos dias, deixaram de ter aulas, foram empurrados para casa e impedidos de fazer algo essencial ao seu crescimento e desenvolvimento emocional: socializar.

É nesta fase que acontece a construção da identidade individual, muitas vezes determinante para o futuro de cada um. Como explica ao DN a psicóloga Caroline Martins, "esta tarefa de desenvolvimento psicossocial é muito importante e realiza-se através da exploração do meio, das experiências sociais".

Quando este percurso é bem-sucedido, está associado a adultos "mais seguros, com uma melhor autoestima e bem-estar". Porém, se existirem muitos obstáculos pelo caminho, podem surgir inseguranças, medos, fobia social e até manifestação de comportamentos obsessivo-compulsivos. A especialista no acompanhamento médico destas faixas etárias considera "precoce" definir efeitos a longo prazo causados pela pandemia, mas admite ser importante que tanto pais como educadores e até os próprios jovens estejam atentos às emoções.

O contexto sanitário força uma maior capacidade de adaptação que não é apenas coletiva, mas também individual. "A pandemia foi um furacão nesse sentido, porque veio alterar as rotinas a vários níveis", diz.

Luto pela normalidade

Joana Simões está atualmente no último ano da licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, ainda que seja o futebol que faz bater o seu coração. Para a estudante, essa foi a maior perda que a pandemia trouxe. "Sou jogadora de futebol e até tive propostas para ir jogar para fora da minha zona de residência; fui e já voltei", começa por contar, explicando que os treinos regulares terminaram com o primeiro confinamento nacional. Foi nessa altura, entre março e abril, que testou positivo à covid-19 e foi obrigada a ficar um mês em isolamento.

"Já estava assustada antes, mas depois comecei a respirar com dificuldade e a sentir-me cansada... Houve uma altura em que nem conseguia sair da cama", recorda. O pior, diz, foi ver os movimentos restringidos ao quarto. "Já estava a dar em maluca, foi mesmo muito pesado. Depois lá cheguei a um acordo com a minha mãe para ela ficar no primeiro andar e eu poder usar também a sala, ver televisão."

No caso de Tomás Ceia, de Abrantes, as quatro paredes do quarto separavam-no da família e da liberdade, que passou a apreciar de outra forma. "Os primeiros dias foram tranquilos, porque até gosto de ficar algum tempo sozinho, mas passado algum tempo comecei a sentir-me cansado de estar fechado", partilha. Esteve 14 dias isolado, período em que sofreu vários dos sintomas da doença - febre, dores de cabeça e perda do paladar - e confessa ter ficado "assustado", em particular porque a infeção aconteceu no final de janeiro, quando os números elevados da pandemia colocaram, novamente, o país em suspenso. Apesar dos efeitos provocados pelo vírus, continuou a assistir às aulas online. "Desde o início da pandemia que as minhas notas melhoraram, acho que acabei por me conseguir concentrar mais", revela.

Com Joana foi exatamente o oposto. "No meu caso [o ensino à distância] acabou por me prejudicar. Ao princípio sentia-me motivada, mas começou a ser muito desgastante o método de ensino, não estava a funcionar", lamenta.

Desconfinamento pode ser mais difícil para jovens com ansiedade social, que se pode agravar com o regresso à normalidade.

Habituada a lidar com adolescentes e jovens adultos no Gabinete de Psicologia onde dá consultas, Caroline Martins explica que é "natural" que durante a primeira fase da pandemia os mais novos se tenham focado nos ganhos, "como ter mais tempo livre, acordar mais tarde e ver isto como um prolongamento das férias". Contudo, sublinha, é "fácil haver uma inversão e começarem a sentir as perdas", aumentando a probabilidade de sentirem "mais medos e ansiedade".

Aliás, um estudo recente da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra concluiu que existe um impacto significativamente negativo na saúde mental dos jovens causado pela situação sanitária, depois de ter analisado duas centenas de adolescentes ao longo das primeira e segunda fases da pandemia. Os números mostram que 14% apresentam sintomatologia depressiva elevada, mais do que os 8% registados durante uma auscultação semelhante na crise financeira de 2009-2014. Os investigadores, que contaram com a colaboração de colegas norte-americanos e islandeses, falam ainda no aumento de emoções negativas como tristeza, ansiedade, medo ou raiva, que se agravaram com a chegada da segunda fase.

Apesar deste e de outros estudos apontarem na mesma direção, para Martim Gaspar, de 15 anos, não foi assim. "Foi fixe, não me custou nada, já estou habituado a estar sempre em casa", diz, explicando que não sabe como foi o único na família a ficar infetado. Pode ter sido na escola ou no futebol, que pratica com o irmão, mas diz não ter sentido medo ou preocupação.

Caroline Martins aponta que para jovens com "mais dificuldades de relacionamento ou défice de competências sociais", passar por um confinamento ou isolamento pode não ser uma tarefa tão exigente. "Nestes casos, o desafio até será desconfinar e regressar a uma eventual normalidade, porque naquele momento estão numa zona de conforto e não contrariam as suas inseguranças, os seus medos sociais", afirma.

Recuperar a liberdade

Para aqueles a quem, como Tomás e Joana, foi difícil passar a ver o mundo apenas através da janela e da internet, receber alta clínica foi um alívio e simultaneamente uma preocupação. "Senti-me aliviado por poder sair de casa e sentir ar fresco. Apesar disso, comecei a ter mais cuidado com tudo, evitava aproximar-me das pessoas com e sem máscara", conta Tomás.

Para Joana, o "medo de voltar a espaços com muita gente" tornou-se também frequente, assim como o pessimismo em relação ao eventual fim da pandemia ainda neste ano. Além do vírus, preocupa-a o seu futuro no futebol, pela suspensão por tempo indeterminado das competições desportivas fora da I Liga. "Não existem receitas e o futebol feminino ainda tem menos verbas, por isso posso não conseguir dar o salto que queria."

"Já estava a dar em maluca, [o isolamento] foi mesmo muito pesado", diz Joana Simões

Martim e Tomás olham para a campanha de vacinação como a solução que permitirá, a curto prazo, recuperarem a vida que tinham no período pré-covid. "Acho que quando formos vacinados isto vai começar a passar", diz Martim, que pretende voltar às aulas presenciais assim que possível. Já Tomás teme que a reabertura precoce das escolas possa ser o rastilho para um terceiro confinamento e prefere que tudo seja feito com mais calma, para que nunca mais tenha "obstáculos" destes para seguir a sua vida. O futuro é incerto para todos, mas a certeza que todos têm é a de quererem recuperar o que perderam no último ano.

Os riscos da fadiga pandémica

Recuando a março de 2020, o que começou por ser um confinamento que, na mente dos portugueses, duraria apenas alguns dias, rapidamente se transformou numa espera de longas semanas. Apesar da reabertura, em maio, as restrições não desapareceram e foram ganhando cada vez mais contestação, dando lugar a mais incumprimentos por pessoas que, mesmo não duvidando da gravidade da situação, começaram a acusar fadiga pandémica. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde, em outubro este cansaço já afetava 60% da população em todo o mundo, um número com espaço para crescer à medida que o contexto sanitário se prolongasse.

Para a Ordem dos Psicólogos, este fenómeno é uma consequência da forte capacidade de adaptação a que a covid-19 obriga, aumentando a impaciência e diminuindo a motivação das pessoas no cumprimento das regras. Caroline Martins diz que "isto está também ligado ao facto de todos estarmos a lidar com um luto da nossa própria normalidade por todas as perdas que formos tendo", nomeadamente no que respeita à liberdade de circulação ou socialização. Por outro lado, a psicóloga teme que, além da situação difícil que o país vive tanto na saúde como na economia, possa estar a chegar o que muitos especialistas dizem ser uma pandemia de saúde mental.

"Este desgaste tornou-se uma variável para expor as pessoas a comportamentos de risco mais associados à negligência, por isso é que sublinho a importância de percebermos as nossas emoções", explica. Uma das soluções que aponta para evitar o crescimento acentuado de perturbações na saúde mental passa, por exemplo, pela disponibilização de serviços de psicologia nas escolas. "A implementação de programas ligados à inteligência emocional e às competências sociais é muito importante", refere, acrescentando ainda que existem formas mais simples de ajudar os jovens.

De acordo com a OMS, em outubro a fadiga pandémica já afetava 60% da população mundial

Caroline Martins acredita na criação de um "canal aberto de comunicação" com liberdade emocional, dando espaço aos mais novos para exporem os medos e as ansiedades. "É preciso normalizar, validar e sermos empáticos com as emoções dos jovens e com as suas perdas, porque são significativas", defende.

Sobre a reabertura do país, o primeiro-ministro António Costa disse, durante a apresentação das medidas restritivas para o 12.º estado de emergência, que "este ainda não é o tempo do desconfinamento". Até que todos possam sair de casa, a psicóloga reforça que é importante, particularmente para os jovens, "perceber que há coisas que podemos controlar e outras não".

"Devem dar o seu melhor, estar mais confiantes e viver um dia de cada vez. Se sentirem que estas situações estão a criar sintomas mais intensos e difíceis de controlar, é uma boa fase para procurar ajuda profissional", remata.

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