"Aprender ao longo da vida vai ser o novo normal"

Lançado em setembro, o programa de bolsas reembolsáveis da Fundação José Neves já investiu mais de 450 mil euros. A menos de um mês do evento anual da Fundação, o presidente executivo Carlos Oliveira fala da ambição de requalificar Portugal, antecipa os desafios de um mercado de trabalho impactado pela pandemia e projeta a nova aposta da FJN: a saúde mental.

Lançada pelo fundador da Farfetch - o primeiro unicórnio português (start-up tecnológica valorizada acima de mil milhões de dólares) - a Fundação José Neves está focada na Educação e nas competências do futuro e tem como missão transformar Portugal para colocar o País na liderança do desenvolvimento humano. Para isso, aposta em ferramentas práticas, como a plataforma Brighter Future, a maior base de conhecimento sobre Educação, Empregabilidade e Competências em Portugal, e o programa de bolsas reembolsáveis ISA FJN, que já ajudam cerca de 70 pessoas a encontrar soluções de upskilling (melhoria de competências) ou reskilling (requalificação) para enfrentar um mercado de trabalho em acelerada evolução.

No próximo dia 2 de junho, o evento anual da FJN vai servir para apresentar o primeiro Estado da Nação sobre Educação, Emprego e Competências em Portugal, onde se analisará a transformação destas dimensões na última década e o impacto recente da pandemia Covid-19. "Vamos revelar um bocadinho para onde é que achamos que o país deve caminhar em alguns desses indicadores para que Portugal se possa tornar neste país do conhecimento, em que de facto o conhecimento, a educação e a aprendizagem são as bases de um país com pessoas mais felizes e mais realizadas, o que faz com que um país se desenvolva melhor e tenha por decorrência empresas melhores, exporte mais e tenha um futuro melhor", diz Carlos Oliveira, presidente executivo da Fundação.

Que conclusões permitem tirar os dados disponibilizados pela plataforma Brighter Future, da Fundação José Neves, sobre o impacto da pandemia no mercado de trabalho? Veio acelerar a transformação do trabalho?
Antes de mais, a Brigher Future pretende ser uma plataforma que ajude os portugueses - jovens, menos jovens - a olhar para o seu futuro. Cada vez mais, e esta é uma tendência acelerada pela pandemia, a questão da educação ao longo da vida é uma evidência, mas para muito poucos ainda. Com esta plataforma nós queremos ajudar as pessoas a ter a informação necessária para tomarem as melhores decisões para elas. Não se trata de uma diretiva sobre o que as pessoas devem decidir, mas sim de dar bases de informação, não apenas sobre o mercado de trabalho mas também ao nível de competências e da educação... trata-se de fornecer insights válidos para a tomada de decisão. Alguns muito interessantes foram trazidos agora em tempo de pandemia e mostram como o mercado de trabalho evoluiu ao longo de 2020. É interessante perceber, por exemplo, que a profissão de carteiro ou de pessoas ligadas à logística teve uma grande procura no ano passado, ou que, no último trimestre, os psicólogos, notários e especialistas jurídicos foram os que viram crescer mais o interesse nas suas áreas, em contraciclo com um ano que foi de decréscimo na oferta de trabalho. No evento anual que vamos realizar no dia 2 vamos fazer uma análise bem mais detalhada relativamente aos impactos da covid-19 no mercado de trabalho e, por exemplo, em especial sobre as questões do teletrabalho.

O que nos pode adiantar sobre o teletrabalho, tema na ordem do dia?
Vamos perceber com exatidão, através de números, efetivamente qual é a massa da população que consegue teletrabalhar, versus aquela que trabalha a partir de casa, que são coisas distintas. Não me quero adiantar muito aos resultados do estudo, mas há profissões onde temos a perceção que houve teletrabalho, e afinal pode não ter havido tanto quanto isso. Talvez achemos que estamos mais à frente a esse nível do que aquilo que efetivamente estamos. Já muitos de nós percebemos que nas áreas onde é possível promover o teletrabalho com valor quer para as pessoas quer para as empresas, possivelmente vão ser as próprias pessoas que vão querer um espaço de interação nos escritórios. E isso vai ao encontro de outra área que vai ser focada no nosso evento anual, que tem a ver com a área da saúde mental e do equilíbrio socioemocional, que foram tão impactados pela pandemia. Nos setores onde vai ser possível continuar a aplicar o teletrabalho em continuidade, e há vários onde isso será possível, provavelmente será um modelo híbrido a ser aplicado.

Que tendências e desafios se projetam no mercado de trabalho nos próximos tempos?
Nós temos de caminhar para um país em que as pessoas entendem e aceitam a importância de uma formação ao longo da vida, e não que termine no ensino obrigatório, no ensino profissional ou no ensino superior. Se há 20 ou 30 anos os estudos que uma pessoa fazia enquanto jovem eram aquilo que determinava depois o seu percurso profissional para o resto da vida, isso agora já não é tão determinístico. Vai depender muito mais daquilo que a pessoa quer ir fazendo ao longo da vida, da formação complementar que deve fazer. Achamos que o país tem de evoluir nesta senda, apostar na educação ao longo da vida, em todas as áreas. Temos um país em que apenas 10,5% dos trabalhadores faz alguma formação enquanto está a trabalhar, é um número muito baixo. Temos de , por um lado, ter as pessoas a entenderem essa realidade, de que aprender ao longo da vida vai ser o novo normal e é fundamental que isso aconteça. E existem muitas formas de o fazer - mais formais, menos formais. Por outro lado, é preciso que o próprio sistema de ensino, desde o menos formal, como bootcamps, até ao mais formal, como ensino superior ou politécnico, comecem a ter uma oferta formativa de cursos de curta duração, orientados para quem está no mercado de trabalho, ou para quem vai entrar no mercado de trabalho e precisa de aumentar competências muito específicas e numa curta duração. Cursos mais orientados às competências e menos ao grau que complementem a oferta existente e que permitam acompanhar estas dinâmicas do mercado de trabalho que já estavam a acontecer, e já eram um enorme desafio, mas que com esta situação pandémica ficou mais acelerado.

A urgente transição digital é uma montanha difícil de escalar num país como o nosso, onde a formação de adultos apresenta um dos maiores atrasos ao nível da UE?
É fundamental e é uma qualificação que tem de ser contínua. As pessoas vão ter de fazer ao longo da vida vários tipos de formação em diversos momentos da sua carreira. Este é um processo e nós, enquanto país, precisamos de acelerar essa resposta de uma forma sistémica e não apenas de forma conjuntural. Esse é um tema que a Fundação quer ajudar a colocar na ordem do dia e ir ajudando a resolver. E para isso temos as bolsas reembolsáveis ISA FJN, que permitem que as pessoas possam de facto ter acesso a formação para o futuro, e para as suas competências, sem se preocuparem com a questão financeira até terem efetivamente um emprego que as remunere e lhes permita devolver uma parte daquilo que foi a sua bolsa para ajudarem outros, essa é a filosofia. A transição digital é obviamente uma necessidade, mas também esta pandemia tem trazido aqui uma ideia que me parece extremamente errada de que, de repente, estamos a fazer uma transição digital muito acelerada. A transição digital não é usar um Teams ou um Zoom para fazer uma conferência telefónica ou uma reunião que antes era feita de forma presencial. Ou pegar em alunos que estavam em sala de aulas e de repente colocá-los em casa a ter seis ou sete horas de aulas exatamente no mesmo formato. Uma verdadeira transformação digital implica repensar currículos, requer outros modelos de interação. Agora, a pandemia veio acelerar, sim, a perceção - seja para a educação, seja para as empresas - de que de facto é possível utilizar as ferramentas digitais para fazer diferente. Isso é muito importante, mas é diferente de uma transição digital. Depois, também temos uma população com baixas qualificações para a utilização de tecnologia, e isso é um problema quando se fala de transformação digital. Nem sequer estou a falar de engenheiros, ou pessoas formadas para fazer os sistemas, estou a falar também do ponto de vista da utilização. Nós precisamos de atuar nas duas vertentes: na educação das pessoas para a utilização das ferramentas e, por outro lado, também na formação de pessoas com skills que podem criar essas ferramentas.

Quantas pessoas já foram ajudadas com as bolsas lançadas pela Fundação em setembro e quanto dinheiro foi já canalizado para o pagamento de propinas?
O programa das bolsas ISA FJN nasce nesta perspetiva que é ajudar a promover o acesso à educação, uma educação de qualidade, orientada para a aprendizagem ao longo da vida e para as competências do futuro. É aí que entra este programa, que até ao final do próximo ano tem 5 milhões de euros para aplicar, e esperamos ajudar 1000 a 1500 portugueses. Jovens e menos jovens. Temos nesta altura pessoas desde os 20 e poucos até aos 60. Até ao final deste ano esperamos atingir cerca de 2,5 milhões de euros em propinas nos mais diversos tipos de cursos, desde bootcamps, que têm tido grande procura por pessoas que querem uma mudança de carreira, mas também MBA, mestrados, etc. Temos cerca de 150 cursos de quase 30 instituições de ensino elegíveis, um número que está sempre a crescer. Neste momento estamos quase a chegar ao meio milhão de euros em propinas, em cerca de 70 bolsas atribuídas num total de 750 candidaturas. Se chegarmos à conclusão, no final destes dois anos, que se as bolsas ISA FJN tivessem um orçamento de 15 ou 20 ou 30 milhões isso iria ter o potencial de a prazo provocar uma alteração mais sistémica no país, então é esse caminho que queremos percorrer: reforçar a verba. Nisso somos muito direcionados por factos, números e avaliação de impacto. As bolsas ISA FJN têm vários objetivos: um deles, direto, é ajudar pessoas, nas mais diversas idades. Outro grande objetivo, que interliga com a plataforma Brigther Future, é trabalharmos com o próprio sistema de ensino para que se possa identificar as tais necessidades do mercado e oportunidades de formação.

Qual a importância de promover a economia circular com a filosofia reembolsável destas bolsas?
Nós achámos que é importante tentar encontrar modelos capazes de alterar estruturalmente e que se perpetuem. O que muitas vezes acontece no país é que enquanto existe um qualquer financiamento comunitário, uma determinada coisa faz-se; quando acaba o financiamento, a iniciativa, por muito boa que seja, vai morrer ali. Nós acreditamos que esta circularidade pode beneficiar mais pessoas. É um modelo inclusivo, circular, em que as pessoas que foram ajudadas, e conseguirem ter uma vida melhor, vão depois ajudar mais pessoas. Só essas pessoas que conseguirem atingir uma vida melhor é que vão fazer esse reembolso. Quando tiverem um salário que for acima de determinado montante predefinido, devolvem mensalmente uma parte até completarem o pagamento; se deixarem de ter esse salário, deixam de reembolsar. Temos exemplos interessantíssimos, desde pessoas que têm um bom emprego mas não tinham capacidade para fazer formação, porque já tinham o seu orçamento familiar orientado, até pessoas que estão desempregadas e que não teriam hipótese nenhuma de o fazer de outra maneira porque nem sequer poderiam aceder a um crédito bancário para a educação. Queremos que seja um programa democrático que olha apenas para a capacidade que aquela pessoa tem de ter um futuro melhor com a formação que se propõe fazer. Se tiver, é esse tipo de casos que gostamos de ter e de aprovar.

Está também anunciada para breve uma nova ferramenta da Fundação José Neves com foco na saúde mental e o neurocientista António Damásio é um dos convidados para o vosso evento anual, no próximo dia 2. Porquê esta aposta na saúde mental e que tipo de intervenção pretendem ter nessa área?
A presença do António Damásio tem precisamente a ver com este pilar da Fundação que é o desenvolvimento pessoal, a importância de interligarmos razão e emoção. Agora que estamos, se tudo correr bem, numa fase de saída a curto-médio prazo desta pandemia, acreditamos que a próxima pandemia vai decorrer desta e é uma pandemia de saúde mental, que é um tema muitas vezes tabu em Portugal. Nós queremos trazer esse tema para a ordem do dia, portanto vamos lançar uma ferramenta que será uma novidade importante para podermos ajudar muitos portugueses nos próximos anos a cuidar do seu desenvolvimento pessoal, do seu bem-estar e saúde mental de uma forma que permita ter um impacto grande na sociedade. É o que posso adiantar para já.

rui.frias@dn.pt

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