Moedas mais crítico de Medina junta independentes para pensar Lisboa

O candidato da coligação PSD/CDS/PPM/MPT/Aliança começa a revelar os erros do adversário. E tem independentes a pensar a cidade, mais virada para os bairros.

Partiu de uma campanha soft, em que convidava Lisboa a sonhar com outra vida, mas enfim Carlos Moedas começa a apertar o cerco ao adversário socialista e atual autarca, Fernando Medina. Os outdoors que há dias chegaram à rua são irónicos e apontam diretamente às falhas de governação do presidente da Câmara de Lisboa, pegando pelas promessas feitas com alarde e não cumpridas no mandato que está a terminar. Os lembretes para os lisboetas foram postos onde quase todos os veem, nos principais eixos da cidade, como o Saldanha ou a 2.ª Circular.

A esta campanha mais focada na crítica juntam-se as acusações que o cabeça de lista da coligação PSD/CDS/PPM/MPT/Aliança tem feito nas últimas semanas ao socialista, com uma clara intensificação de presença no terreno por parte do ex-comissário europeu. Desde os festejos "descontrolados" da vitória do Sporting até à ideia de que "Medina tem uma agenda ao serviço do governo", Moedas tem dado sinais de que vai ser muito mais combativo até outubro.

E se a campanha endurece de tom, o candidato também traz novidades à corrida autárquica, tendo constituído há semanas um conselho de independentes que se têm reunido e debatido ideias para a cidade. Trata-se de 54 personalidades das mais diversas áreas da sociedade civil e que, de uma forma transversal, aceitaram o convite para "contribuir para um novo projeto para a cidade de Lisboa".

O pianista Adriano Jordão é um destes independentes que encontrou em Moedas as qualidades políticas e pessoais para o apoiar no salto de administrador da Fundação Gulbenkian para a política autárquica. Mas também se move por motivos que se prendem com a sua própria área profissional. "A razão principal que me leva neste momento a apoiar o candidato é o facto de se viver um momento complicado no país, com uma tentativa de monopólio do PS, que se tem sentido em todos os campos e com particular incidência na cultura."

O pianista, com carreira internacional que soma mais de 50 anos, vai ainda às especificidades do candidato Moedas, que, na sua opinião, tem uma visão moderna sobre a vida na cidade, ao incorporar nas suas ideias a aposta na investigação, na ciência e na inovação.

"Só vejo uma pessoa a olhar para a cidade de Lisboa sem ficar presa ao trânsito da Almirante Reis", garante, e remete para a proposta de Moedas de uma cidade em 15 minutos - modelo que já está a ser adotado por várias metrópoles - e que implica a criação, em cada bairro, a par de infraestruturas básicas, de estruturas culturais, entre as quais museus, bibliotecas, orquestras e associações. Em projeto, ter tudo disponível num raio de um quarto de hora a pé ou de bicicleta. "Estou convencido de que se o eleitorado de Lisboa fosse todo da faixa dos 20 e tal anos, ganhava o candidato que tem uma visão de futuro e a capacidade de compreensão além do imediato", frisa Adriano Jordão.

Uma lista de desafios

Também Bruno Bobone entrou no conselho, porque entende que "há um espaço político que neste momento estava vazio e que é preciso ser ocupado por uma pessoa que tenha rigor, seriedade, compromisso e competência profissional". E que, afirma, "se foque na preocupação de trazer à cidade uma forma de vida digna", que se baseie na iniciativa privada como produtora de riqueza, mas seja capaz de a distribuir pelos cidadãos. "Acredito que o engenheiro Carlos Moedas será capaz de o fazer, porque tem preocupações de fazer obra e não de ser a imagem da obra feita, para tornar Lisboa atrativa para ter uma população estável , a que cá vive, e apenas uma fonte de entusiasmo para os que cá vêm", diz o empresário e presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. E recorda que na última década a capital perdeu cerca de 50 mil habitantes.

Bobone enumera os desafios que gostaria de ver Moedas concretizar caso seja eleito presidente do município: jardins bem tratados; formas de locomoção fáceis; promoção dos bairros dentro da cidade; capacidade de dar oportunidades, formação e educação em todas as zonas de Lisboa; teatros e equipamentos culturais em cada bairro; novos transportes públicos mais amigos do ambiente. E garante que as reuniões com o candidato têm acontecido e continuarão a acontecer no sentido de desenhar "um plano mais aprofundado das políticas da cidade".

Para Carlos Coelho, gestor e criador de marcas, participar neste grupo alargado de independentes que apoiam a candidatura de Moedas passa precisamente por tentar construir um programa que não seja fechado na política partidária. "Como cidadão lisboeta, entendo que posso ter um olhar diferente sobre a cidade", e afirma que é a primeira vez que assume publicamente apoio a um candidato.

Exaltando também a importância da aposta em cultura, ciência e inovação para dar uma reviravolta na vida da cidade, destaca os tais 15 minutos de acesso a tudo, que "farão a diferença". "Não é apenas conveniência, mas uma questão de criação de núcleos de qualidade de vida e de combate às mobilidades."

Coelho admite que tem visto Moedas adotar um discurso que "não é fácil de passar", porque os "populismos" acabam por ter mais sucesso ao "oferecer soluções mais fáceis". "O Carlos tem o desafio de conseguir passar a mensagem sem gritar" e "entra com grande avanço de credibilidade nas elites e pessoas mais informadas. O desafio é chegar às pessoas comuns".

De resto, insiste, a mudança é necessária, e nem se coloca numa trincheira contra o PS de Fernando Medina, que entende ter "uma forma pouco ambiciosa de olhar para Portugal e para a cidade". Não é "saudosismo", garante Carlos Coelho, é a tristeza de ver a história, a geografia e a cultura adormecidas. "Se se conseguir criar a dinâmica certa, teremos uma cidade e um país mais justos."

paulasa@dn.pt

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