O ativismo do "racismo é mau"

A indignação com a horrível morte de George Floyd, lá longe nos EUA, e com a horrível violência policial, lá longe nos EUA, e com o horrível racismo, lá longe nos EUA, não pode servir só para nos sentirmos bonzinhos - e longe do problema.

Nesta semana uma atriz, Rita Pereira, esteve no programa da tarde da TVI. Sei disto porque me enviaram um excerto no qual Rita anuncia a manifestação de hoje na Alameda, em Lisboa, às 16.45, e diz que vai estar presente. A seguir explica porquê: "Porque eu também vivo isto. Porque não consigo estar sentada e ao meu lado estar o meu marido, que me diz que está a receber mensagens racistas."

Comove-se, e continua: "E é impossível. Eu não quero que quando o meu filho cresça esteja a receber as mesmas mensagens de racismo. Eu não quero que o meu filho seja seguido numa loja. Quero que o meu filho possa entrar numa loja de roupa e não olharem para a cor dele porque ele é mais escuro do que os outros. Eu não quero que o meu filho seja apontado porque tem uma cor diferente, quero que o meu filho consiga apanhar um táxi durante a noite na rua porque muitas vezes os meus amigos negros dizem que não conseguem sequer apanhar um táxi, entram no táxi e o táxi diz "já estou ocupado"; vão para outro táxi que diz "já estou ocupado". Quero que ele possa entrar numa discoteca tranquilamente e não dizerem "ah, não pronto" ou estar com um grupo de amigos negros e ouvir "já temos muitos pretos nesta discoteca, não podem entrar mais". Quero que ele seja livre, não quero ouvir o meu marido a dizer que recebeu uma mensagem a dizer "vai para a tua terra preto de merda". Vou estar nesta manifestação porque isto me toca profundamente e tudo o que me tem acontecido me toca profundamente. E os pais em casa têm de começar a falar sobre o racismo."

Não conheço Rita Pereira, nem sabia que tinha um marido negro, nem um filho. Não sei nada dela. Não sei se alguma vez Rita teve noção de tudo isto que diz antes de ter um marido negro e um filho com ele, ou se, tendo noção, alguma vez sentiu que devia falar publicamente sobre isso.

Sei no entanto várias coisas. Que tudo o que ela diz é importante e que é importante que alguém como ela - com a influência que tem sobre jovens e não só - o diga, e tome uma posição sobre o assunto, mas também que há muito que tudo aquilo que ela descreve, e muito mais, acontece e há muito que existem casos terríveis de violência, incluindo policial, e incluindo mortal, sobre negros (e outros grupos minoritários) em Portugal, sem que a esmagadora maioria da população se sinta sequer interpelada, quanto mais levada a falar ou agir em relação ao assunto; sem que pessoas como Rita queiram, como ela diz, "dar o corpo às balas" neste assunto.

Daí que confesse ter visto com alguma impaciência a epidemia de quadrados negros de luto que assolou o Instagram esta terça-feira em homenagem a George Floyd e em solidariedade com o movimento Black Lives Matter. Como diz o humorista negro Carlos Pereira, este "ativismo de rede social" é não só uma forma de as pessoas se sentirem bem consigo como coloca o tema no nível de superficialidade "o racismo é mau" - um nível absolutamente redutor no sentido em que equivale a discriminação ao seu absoluto extremo, a violência fatal, associando-a sobretudo à crueldade pessoal. Ora o racismo, como o machismo/sexismo, é uma estrutura subtil e de impacto quotidiano e profundo, em relação à qual é necessário um esforço de consciencialização e desconstrução; não nos grita sempre como aquele joelho assassino ou sequer, para usar o exemplo de Rita Pereira, a tão comum e horrenda mensagem "preto de merda vai para a tua terra".

Claro que ver um homem negro a sufocar sob o joelho de um polícia branco que recusa verificar se a sua vítima algemada está viva e sair de cima dela mesmo quando os circunstantes lhe dizem que ela não reage, e chega mesmo ao ponto de não o fazer quando a ambulância chega, naquilo que só pode ser interpretado como uma deliberação de castigo (estranho que entre as acusações já conhecidas não esteja tortura) e uma total indiferença em relação à possibilidade de esta estar morta, é absolutamente chocante e suscita reações de repúdio em toda a gente com um módico de empatia. Mas é tanto mais fácil e imediato esse repúdio quando o caso se passa lá longe, nos EUA, e não nos implica em nada; é tanto mais fácil protestar quando a seguir podemos dizer, como se está sempre a dizer, "Portugal não é um país racista, não há comparação com a América, não exagerem."

É verdade que nos EUA o racismo declarado é muito mais virulento - há organizações declaradamente racistas como a Ku Klux Klan, que em Portugal seria ilegal, há terrorismo supremacista branco, há aquele presidente. E uma longa lista de negros assassinados pela polícia e por "vigilantes" em circunstâncias que evidenciam o facto de os mortos, como negros, terem sido considerados suspeitos automáticos ou merecerem dos assassinos um desprezo e crueldade específicos - como os que os agentes envolvidos na morte de Floyd parecem ostentar (e que dois deles pertençam a minorias não os impede de serem racistas porque, repita-se, o racismo é uma estrutura de pensamento generalizada e institucional, não um sentimento individual ou uma característica que depende da etnia; mulheres podem ser, e são, sexistas e machistas, negros podem ser, e são, racistas em relação a negros).

Mas Portugal tem também uma lista de negros mortos - e pela polícia - em circunstâncias que apontam para o mesmo tipo de atitude verificada no caso de Floyd, incluindo a revoltante cumplicidade entre agentes; tem uma lista de casos de brutalidade policial contra negros, alguns dos quais filmados, como o do bairro da Jamaica, outros não, como o da esquadra de Alfragide, e tem evidência de que as forças policiais estão infiltradas por racistas declarados e supremacistas brancos, sem que a maioria da população e, mais grave ainda, os responsáveis políticos - à exceção da ministra da Justiça, que é negra e tem falado no assunto - e as hierarquias policiais o reconheçam e ajam em relação a isso.

Pelo contrário: o que vimos foi, quando ocorreu a primeira manifestação de afrodescendentes em Lisboa, em janeiro de 2019, na Avenida da Liberdade, uma carga policial desproporcionada, que incrivelmente incluiu até balas de borracha; o que vimos foi a reação furiosa, racista e xenófoba à irritação do ativista negro do SOS Racismo Mamadou Ba com a ação da polícia; o que vimos foi o surgir da teoria, repescada das sebentas dos movimentos supremacistas brancos, dos "racistas antirracistas" - aquela que acusa os que combatem o racismo de serem racistas não só porque falam de "raça" como porque a sua voz e indignação é sempre vista e sentida como ódio (aliás como sucede com o feminismo, sistematicamente acusado de ser "ódio aos homens").

Não tivemos nessa altura do Jamaica e da repressão violenta da manifestação de afrodescendentes nenhuma cadeia de quadrados negros no Instagram e Facebook. E decerto não tivemos a PSP a partilhar o seu próprio quadrado negro como fez esta terça-feira, juntando-lhe as frases "pela igualdade todos os dias", "somos diversidade" e "black lives matter". A mesma PSP na qual se ergueu um clamor contra um sindicalista, Manuel Morais, que ousou denunciar o racismo na corporação, forçando-o em 2019 a sair da direção do principal sindicato. Não, esta PSP não é racista, até entra em campanhas no Insta; racismo só nos malandros dos polícias americanos e na malandra da América, que são de outro planeta.

É nessa ilusão que vive a maioria dos portugueses - até ao dia em que, como sucedeu com Rita Pereira, se descubra que o racismo está e sempre esteve cá, e que não se vai embora sem fazermos alguma coisa para o combater e denunciar; até percebermos que não basta o nosso (suposto) bom coração e quadrados negros no Insta. Que é preciso exigir que em instituições particularmente sensíveis como a escola e as polícias se comece por assumir a sua existência, criando mecanismos para ser eficazmente combatido, não escamoteado e negado como até agora.

Mas isso só acontecerá quando, como a Rita, sentirmos a dor do outro como nossa (porque é nossa); quando formos capazes de ouvir e tentar perceber o que é ser negro em Portugal, dos negros de Portugal. Pessoas, não quadrados no Insta.

Jornalista

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