Carlos Dias fez questão de continuar a enfeitar  a casa "para manter o espírito dos Santos".

Lisboa

"A nossa Alfama está triste, dá vontade de chorar. Não há arraiais, não há alegria"

"Oh minha rica Alfama/quem te viu e quem te vê/Sinto vazio teu casario/Mas não sei porquê", canção da marcha de Alfama de 2019, Abraçar o Tejo, e que, agora, faz mais sentido. Sem moradores, turistas e arraiais, que faziam de "junho o melhor mês do ano".

A Varandinha da Tia Anita só vai poder acolher a família e alguns amigos no dia de Santo António. A pandemia da covid-19 acabou com os arraiais, o mesmo será dizer com a sardinha no pão, a bifana, a cerveja, o vinho, a sangria e a ginjinha. "A polícia tem andado a avisar, tem marcado presença desde o último fim de semana de maio. Ainda perguntei se podia fazer alguma coisa, com todos os cuidados e distanciamento social, onde as pessoas pudessem chegar e levar uma sardinha e uma cerveja. Dizem que não, até estão a mandar tirar os enfeites, mas os restaurantes podem ter esplanada", lamenta Carlos Dias, o patriarca da família que vive na casa da varandinha, no Largo da Cantina Escolar, ao lado das Escadinhas de São Miguel, em Alfama.

Mora ali há 40 anos, nasceu numa habitação em frente há 65, onde ainda vive o pai, que tem 90 anos. É o António PP, um dos primeiros a fazer as festas no bairro. E que tem passado o costume de geração para geração, como acontece com todas as famílias. Todas com banca montada durante o mês de junho, nos Santos Populares, muita alegria, mas também uma oportunidade para ganhar dinheiro. Percebem que tenha de haver restrições devido à pandemia, mas sentem que nem todos têm as mesmas regras; dão o exemplo da Feira do Relógio e da Festa do Avante!

Os enfeites que Carlos Dias colocou no pátio à entrada da casa são "para manter o espírito dos Santos Populares" e têm passado despercebidos às autoridades. O mesmo não aconteceu com o arraial do Centro Cultural Magalhães Lima (CCML). Pediram-lhes para retirar as fitas e adereços populares, para evitar que os forasteiros tenham a tentação de se aglomerarem no bairro. Mário Rocha, conhecido por Maritó, presidente da coletividade há dez anos, seguiu o conselho da polícia: "Não íamos fazer nada, era só para decoração, mas percebo."

"O apoio dá para pagar a água e a luz. A covid-19 foi uma bomba. Não há revolta, apenas um sentimento de que não podemos fazer nada"

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) deu um subsídio a cada coletividade para compensar os meses parados. "O apoio dá para pagar a água e a luz, tivemos de parar tudo, o bar está fechado e estamos à espera de diretivas. A covid-19 foi uma bomba. Não há revolta, apenas um sentimento de que não podemos fazer nada", conforma-se Maritó.

"Uma varanda portuguesa"

Maria Helena Dias, 84 anos, tem estado triste com tudo isto. Faz questão de ter a varanda decorada - "é uma varanda portuguesa" -, promete comer as suas sardinhas no Dia de Santo António, mas não chega. Tinha 15 anos quando começaram os arraiais. "Tenho muita pena, falta aquela alegria. Por alguma coisa se diz "Santo António de Alfama" e eu tinha a minha banquinha à porta, que passei quando fui operada a um cancro do estômago, com sardinhas, bifanas, caldo verde, bacalhau, chouriço, cerveja, vinho, sangria... Vendíamos aqui de tudo", lamenta.

Mora no segundo andar do Largo do Salvador, em frente ao CCML, onde é criada a marcha de Alfama e os marchantes treinam, muitos anos a ganhar primeiros prémios. Em 2019, o Alto do Pina tirou-lhes o tetra.

Maria Helena era cartonageira, fazia os acabamentos em cartão numa tipografia, aproveitava o mês de junho para aumentar os rendimentos. Todos o fazem no bairro, também a varina Emília Carvalho, 74 anos, que começou por vender na rua. Agora tem a sua peixaria e trouxe para o bairro sardinha fresca logo que a pesca foi permitida, a 1 de junho. Quatro caixas e apenas vendeu uma, apesar da qualidade e do preço baixo, quatro euros o quilo. "No ano passado já tinha vendido muita sardinha, vendia muito para os restaurantes, que vivem à base dos turistas, mas não há turistas e as pessoas têm medo de vir para cá."

Emília diz a frase que tantos moradores repetem: "A nossa Alfama está triste, dá vontade de chorar. Não há arraiais, não há alegria. Andava aqui tanta gente, agora não tem ninguém. Por esta altura, havia mesas por todo o lado, agora parece uma aldeia."

Nasceu na Rua do Pocinho, onde a mãe tinha uma banca e ela colocava cravos nas mesas, aos 5 anos. É o Retiro das Tesas, que tem passado de pais para filhos, como acontece com outras famílias.

Emília e Helena dizem nunca ter falado mal dos turistas, as suas queixas são para os senhorios, que "obrigaram as pessoas a sair do bairro para fazer alojamento local". "Se eu fosse na conversa também não estava aqui, ofereceram-me 30 mil para eu sair", lembra Helena. Há quem não tenha tido a opção de poder dizer não.

Para Nuno Lopes, figurinista e cenógrafo da marcha de Alfama desde 2017, as ruas vazias são o reflexo da falta de uma política de habitação. "Ao que assistimos agora é ao reflexo do que denunciámos durante todos estes anos, as pessoas de cá tiveram de ir embora e, agora, sem turistas, as ruas estão vazias", diz, para sublinhar: " Há um pequeno equívoco, os moradores de Alfama não acham que existem turistas a mais. O problema é o alojamento local, mandaram embora as pessoas para poderem alugar as casas. Sempre houve um bom convívio entre moradores e turistas."

Nuno Lopes idealizou com Vanessa Rocha, a coreógrafa, a marcha de Alfama. São dois discípulos de Carlos Mendonça, já falecido e denominado o Mourinho das Marchas de Lisboa. Nuno é nascido e criado em Alfama e também foi marchante. Agora é a filha, Madalena, a seguir-lhe os passos na dança na Marcha dos Alfaminhas.

Os responsáveis da CML justificam o cancelamento total das festas: "Atendendo ao desenrolar da pandemia e de o período de confinamento e distanciamento social ter inviabilizado os ensaios, a câmara e a EGEAC decidiram cancelar a edição de 2020 dos Arraiais Populares, das Marchas Populares de Lisboa e dos casamentos de Santo António." Mantiveram as iniciativas não presenciais, como o Concurso das Sardinhas e o dos Tronos de Santo António, ou que possam ser presenciadas a partir das janelas, e/ou que não ponham em risco a segurança das pessoas. O programa pode ser consultado no site culturanarua.pt.

Bancas deveriam estar postas

Judite Paiva, 60 anos, lembra-se dos arraiais desde os 10 anos, quando vendia e punha cravos nas mesas. Numa tarde desta semana, está à conversa com as filhas Dora, 36, e Arminda, 31, a nora Carine, 34, e a neta, Luana, nas escadarias da Igreja de São Miguel, no largo com o mesmo nome. Num ano normal, teriam as bancas montadas desde o último fim de semana de maio, mesmo em frente. Estariam numa grande azáfama para ter tudo pronto, que a festa estava prestes a recomeçar, num ritmo diário que iria manter-se até julho.

Quem não trabalha encontra em junho uma ocupação; quem trabalha tira férias. Dorme-se pouco e ganha-se muito, cerca de quatro mil euros por banca, contas feitas por baixo. "Não vai haver Santo António, não nos conformamos, mas pode haver Festa do Avante! Os arraiais não são política, são para as pessoas daqui, já não interessam", protesta Carine Pascoal.

Entendem que há um interesse superior, que é a saúde pública, o que não compreendem é que possam existir feiras, concertos, outras festas e ajuntamentos. Recordam o Santo António de outros anos, procuram as fotos onde se veem as suas bancas."É uma tristeza, até choro ao ver as fotografias, pelo menos deviam enfeitar o bairro", protesta Arminda.

Disseram-lhes que nada será permitido na rua, nem um fogareiro para assar sardinhas. A assessoria de imprensa da PSP disse ao DN aguardar da CML indicações sobre as festividades "que poderão concretizar-se e em que condições". Certo é que vai haver um reforço de policiamento durante o período dos Santos Populares. De resto, manterão "a postura de sensibilização e informação dos cidadãos e que, durante todo o contexto da crise pandémica, tem garantido bons resultados quanto ao cumprimento das normas".

Aconselham as pessoas que decidam comemorar o Santo António a "evitar espaços demasiado ocupados, sejam fechados ou na via pública, a manter o distanciamento social e a respeitar o limite pessoas aglomeradas, que em Lisboa são dez".

Os restaurantes podem ter as mesas nas esplanadas e até alargar a área, uma vez que a CML suspendeu as taxas de espaço público, uma medida para apoiar o comércio e a restauração durante a pandemia. O problema é saber se os clientes voltam a Alfama.

"Isto tem alguma curiosidade para o turismo, não havendo turismo é tempo perdido. Fechámos no dia 8 de março e abrimos a 24 de maio, tem aparecido muito pouca gente, quase ninguém", diz Domingos Pereira, 65 anos, há 12 empregado no restaurante Alfama Grill. Nem todos os colegas voltaram, estão em lay-off, e Domingos teme o futuro.

Celestino Sousa, 58 anos, é nascido e criado em Alfama. Abriu o restaurante Arco há 30 anos, mas o espaço é mais conhecido por Tino Fechou o restaurante a 15 de março, reabriu a 2 de junho e teve um cliente para almoçar e dois para jantar. Tem um espaço interior e mesas individuais na rua, bem estreita, onde poderão estar dez pessoas. "Tentámos criar as condições de higiene e de distanciamento, para que não haja aglomerados. Os próximos meses serão difíceis, se conseguirmos já é muito bom."

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