O regresso do Diário de Notícias

A edição diária em papel do Diário de Notícias foi uma das boas notícias do final de 2020, assinalando os seus provectos 156 anos. Não é impunemente que se comemora mais de século e meio, um tempo longo que se cruza com a história do país. O Diário de Notícias surge num período conturbado em que a monarquia constitucional tenta responder aos anseios de uma regeneração que colocasse Portugal ao nível dos restantes países da Europa. O primeiro governo que se segue à insurreição militar de 1851 é chefiado pelo duque de Saldanha e destacam-se no movimento figuras como Fontes Pereira de Melo, Joaquim António de Aguiar ou Rodrigo da Fonseca. Nomes que quase apenas conhecemos das grandes avenidas que rasgaram Lisboa e são elas próprias representação do desejo de progresso, a que se associaram, anos mais tarde, Eça de Queiroz, Antero de Quental, Oliveira Martins, a famosa Geração de 70, mais desencantada e sarcástica do que a anterior, como bem a representou Bordalo Pinheiro.

Quando o Diário de Notícias foi lançado em 1864 (ano em que é abolida a pena de morte para os crimes civis), com escritório na Rua dos Calafates em Lisboa (hoje Rua Diário de Notícias), o jornal apresenta-se como inovador e alinhado com os títulos de grande tiragem das capitais europeias. Conforme se diz na primeira página, o novo diário escolhe um "estylo fácil, e com maior concisão", capaz de "interessar a todas as classes, ser accessivel a todas as bolsas, e comprehensivel a todas as intelligencias". Um jornal "de todos e para todos - para pobres e ricos de ambos os sexos e de todas as condições, classes e partidos", empenhado em "registar com a possível veracidade todos os acontecimentos". A tiragem inicial de cinco mil exemplares quase duplicou no primeiro ano de publicação, tendo sido durante muitas décadas o jornal mais vendido em Portugal e transformando-se - para o bem e para o mal - numa instituição nacional: da queda da monarquia à implementação da república, do golpe militar de 28 de maio de 1926 ao longo cativeiro do Estado Novo, do 25 de Abril de 1974 à adesão de Portugal à Comunidade Europeia até chegarmos em 2021 à terceira presidência portuguesa da União Europeia.

Durante vários anos trabalhei ao lado do Diário de Notícias e pude acompanhar a sua história recente. Pelo jornal passaram milhares de crianças e jovens que contactavam com a imprensa escrita, mas também com os avanços em direção ao digital. Aprendiam como se fazia um jornal, a azáfama das redações, e debatiam os matizes da informação, os limites éticos e a pluralidade de opiniões. As redes sociais já haviam surgido, mas ainda não existia a clara perceção do seu longo braço e da capacidade de condicionar os eleitores fazendo circular notícias falsas.

A pandemia fez disparar os números da consulta digital de informação, mas também da sua circulação ilegal fazendo perigar a sobrevivência da comunicação social. Cresce ainda a tendência para obter a informação nas redes sociais sem escrutínio quanto à sua veracidade. Na informação escrutinada, limitamo-nos aos títulos e aos destaques, cada vez mais desabituados de ler uma notícia completa e aprofundar um discurso argumentativo. Teremos consciência das consequências deste empobrecimento intelectual? A edição em papel do Diário de Notícias permite uma escolha que pode contribuir para o nosso espírito crítico.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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