OE 2020. Esquerda esconde o jogo até ao fim

Depois do Bloco, o Livre: o partido de Joacine Katar-Moreira só vai revelar o seu sentido de voto para o OE 2020 em cima da votação na generalidade, que acontecerá na sexta-feira. O PCP também não se descose. Marcelo e Costa desdramatizam.

"Não estou preocupado com a passagem do Orçamento do Estado."

Falando ontem com jornalistas à margem da cerimónia que assinalou a partida do navio-escola Sagres para mais uma volta ao mundo, o Presidente da República procurou assim, sem adiantar muito mais, desdramatizar a votação parlamentar do Orçamento do Estado para este ano (OE 2020).

A primeira votação, na generalidade, ocorrerá na próxima sexta-feira, no final do segundo e último dia do primeiro debate no plenário sobre a proposta governamental.

O primeiro-ministro alinha pelo mesmo diapasão da desdramatização - ou seja, parece não ter razões para dizer que o chumbo do OE 2020 levará a uma crise política (a qual só poderia ser resolvida com eleições antecipadas lá mais para o verão e mesmo assim sem certeza nenhuma de que essas eleições alterassem substancialmente o atual mapa parlamentar).

"O Orçamento trabalha-se até ao último dia. O que percebi [das declarações da coordenadora do BE, Catarina Martins] é que ainda não há [condições para o BE aprovar o Orçamento]. É um trabalho que está a ser feito e seguramente vamos ter, como sempre tivemos, um bom Orçamento com votação maioritária na Assembleia da República", afirmou António Costa aos jornalistas no Porto, à saída da reunião da Comissão Nacional do PS, no sábado.

"O que está a acontecer com este Orçamento não é nada diferente do que aconteceu com outros Orçamentos."

Segundo acrescentou, "não há nada que esteja a dificultar particularmente qualquer tipo de negociação", frisando que "o que está a acontecer não é em nada diferente" do que sucedeu na anterior legislatura.

"Todas as negociações têm dificuldades. Se pensássemos todos o mesmo, éramos do mesmo partido. O que está a acontecer com este Orçamento não é em nada diferente do que aconteceu com outros Orçamentos. Há quem diga que na legislatura anterior era diferente porque havia um documento assinado, mas esse acordo não obrigava ninguém a aprovar o Orçamento", assegurou o secretário-geral do PS.

"Há um trabalho conjunto, uma apreciação conjunta de propostas, ideias, e chegamos sempre ao fim com bons resultados."

Ou seja: "Há um trabalho conjunto, uma apreciação conjunta de propostas, ideias, e chegamos sempre ao fim com bons resultados", vincou.

Quanto à confiança na aprovação do documento, Costa referiu não estar em causa "uma questão de esperança", mas um trabalho em curso: "Estamos a trabalhar. Ainda ontem tive reuniões e estão marcadas reuniões para a próxima semana."

Questionado sobre se ficou desagradado com a declaração de Catarina Martins, o primeiro-ministro desvalorizou, observando que foi "uma declaração perfeitamente normal". "Não acho nada de extraordinário. Aconteceu noutros anos."

Todos os partidos de que se podia esperar, com maior probabilidade, a viabilização do Orçamento - BE, PCP, PAN, Livre e ainda os três deputados do PSD-Madeira - fazem questão de não abrir o jogo.

Livre recusa soluções "limianas"

O Bloco anunciou no sábado que só admite ou a abstenção ou o voto contra, reservando uma decisão final para o decorrer da semana em função das negociações com o governo, e o Livre, ontem, também deixou todas as hipóteses em aberto, após uma reunião da Assembleia do partido (órgão máximo entre congressos).

O comunicado do partido na AR por Joacine Katar-Moreira deixou no entanto uma indicação clara sobre uma solução que o partido recusa: a de alinhar numa aritmética de votos - com o PS, o PAN e os três deputados do PSD-Madeira - que viabilizem o OE 2020 mesmo com os votos contra do BE e do PCP (que se mantém em rigoroso silêncio).

"Qualquer hipótese ad hoc de aprovação aritmética, sem coerência política, do Orçamento para 2020, seria o regresso a um pântano político de má memória para Portugal e ao qual o Livre não dará o seu contributo", lê-se na resolução do partido.

A qual acrescenta: "A posição política do Livre é a de que é necessário reforçar e construir sobre os esforços de convergência na legislatura passada, indo para além do 'virar a página da austeridade' e encontrando uma trajetória de investimento público, proteção do Estado social e combate às alterações climáticas progressista e ecológica. Do nosso ponto de vista, isso só pode significar um Orçamento negociado e aprovado à esquerda, na sequência do mandato político claríssimo que os portugueses deram aos partidos nas urnas no passado dia 6 de outubro."

Quem também está em estado de tabu é o PSD-Madeira. Miguel Albuquerque, líder da estrutura regional do partido (e do governo regional), fez saber que só na sexta-feira é que os três deputados sociais-democratas eleitos por aquele círculo anunciarão o seu sentido de voto.

O que está em causa é a construção de um novo hospital no Funchal. "Algo que é fundamental para nós é a consagração da verba por parte do Estado sem encargos para o cofinanciamento da maior obra nos próximos anos, que será o Hospital Central da Madeira, e, de acordo com aquilo que foi combinado com o senhor primeiro-ministro, a verba do cofinanciamento estará já consubstanciada neste Orçamento."

"Vamos aguardar até ao dia 10 pela votação na generalidade. Vamos votar de acordo com aqueles que são os interesses primaciais da Madeira", disse ainda.

Quanto ao PSD propriamente dito, mantém-se tudo como estava: Rui Rio anunciará a decisão amanhã. O OE 2020 será votado na generalidade na sexta-feira e no sábado haverá diretas no PSD para escolher a liderança do partido.

No CDS, Chega e Iniciativa Liberal (sete deputados ao todo) já se sabe: votarão contra.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG