Sem futebol, nem novela, Brasil dá audiência recorde a um Big Brother muito político

Quarentena, ausência de futebol, paragem das novelas e, sobretudo, a crescente tensão política entre Bolsonaro e a oposição explicam os 1,5 mil milhões de votos para expulsão de um participante do programa na madrugada de quarta-feira.

"O Big Brother Brasil de ontem deixou claro que se fosse hoje [Fernando] Haddad seria eleito. Melhor [Jair] Bolsonaro baixar a bola", escreveu no Twitter o jornalista Guga Noblat. A frase resume aquilo em que se tornou o programa da TV Globo, conhecido no país pelas iniciais BBB, em 2020: uma versão virtual da polarização política brasileira desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Na madrugada de quarta-feira, o carismático arquiteto Felipe Prior, apoiado publicamente pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, pelo Movimento Brasil Livre, de direita, e por boa parte dos astros do futebol brasileiro, foi eliminado com 56,73% dos 1,5 mil milhões de votos - cada espectador pode votar as vezes que quiser. Festejou a permanência no confinamento a cantora Manu Gavassi, preferida de nove em cada dez estrelas de televisão, do Mídia Ninja, coletivo de notícias ligado à esquerda, e até pelo candidato presidencial pelo PT Fernando Haddad. A adesão foi tanta que o sistema de votação chegou a ficar instável por momentos.

"Que este Big Brother é diferente dos outros, já sabíamos. Desde a primeira semana, o programa se impregnou de política. Não no sentido miúdo da palavra, com os participantes defendendo esta ou aquela figura pública, mas no amplo: visões de mundo conflitantes entraram em rota de colisão nesta vigésima edição do reality da Globo", escreveu Tony Goes, o colunista de televisão do jornal Folha de S. Paulo.

E prossegue: "Em português mais claro: o machismo deu as caras logo no começo do jogo e foi posto para correr. Tanto dentro da casa, com a mulherada se unindo contra os supostos machos alfa que queriam submetê-las a ridículos 'testes de fidelidade', como, principalmente, daqui do lado de fora."

Quem celebrou a politização foi a TV Globo, que chegou a 31 pontos de audiência e viu um programa em queda progressiva no gosto do público voltar à ribalta - graças também à pandemia de covid-19, que levou à ausência de outros produtos típicos do canal, como o futebol, paralisado em todo o país, e as novelas, cujas gravações foram interrompidas, e ao isolamento social, que vem deixando os brasileiros longe de restaurantes e bares e mais próximos do pequeno ecrã.

Por outro lado, não deixa de ser simbólico que, em época de isolamento, volte à ribalta um reality show sobre isolamento.

"Masculinidade tóxica"

Prior, o eliminado, era o último representante no BBB daquilo a que o feminismo convencionou chamar de "masculinidade tóxica". Logo no início do programa - começou a 21 de janeiro e termina a 23 de abril - o arquiteto paulistano e outros participantes, entre os quais o ginasta da seleção portuguesa Petrix Barbosa, decidiram seduzir as mulheres com namorados fora do programa porque essas traições costumam levar à expulsão de quem as comete.

O assunto chegou aos ouvidos dessas mulheres e o BBB dividiu-se, grosso modo, em dois blocos: homens de um lado, mulheres de outro. Um a um, os homens foram sendo expulsos até sobrarem Prior e Babu Santana, um ator conhecido do grande público - a edição deste ano misturou anónimos com (quase) famosos.

A estratégia feminina parecia estar a dar resultado até que a dada altura, por serem apenas dois e isolados, Prior e Babu passaram a beneficiar daquilo a que se pode chamar de "efeito Zé Maria" - o rejeitado da primeira edição portuguesa do programa (TVI, ano 2000) que acabou conquistando o público.

Na noite das expulsões - "paredão", no Brasil - da semana anterior, Babu, negro, criado na favela da zona sul carioca do Vidigal e fora do estereótipo da "masculinidade tóxica", manteve-se no jogo apesar do complô do grupo de mulheres. Essa votação já batera recordes de participação e audiência antes de ser agora ultrapassada pela de quarta-feira.

O assunto do momento

Foi nesse contexto que o duelo Prior-Manu se tornou o assunto do momento no Brasil. Gabigol, maior estrela do Flamengo de Jorge Jesus, até ofereceu camisolas autografadas a quem expulsasse a cantora. Internacionais brasileiros, como Richarlison (Everton) e Vinicius Junior (Real Madrid), idem. Neymar, melhor futebolista brasileiro, entrou em força na claque pelo arquiteto, sobretudo depois de ver a ex-namorada e atriz Bruna Marquezine a torcer fervorosamente por Manu - consta que o fim da relação entre ambos se deveu a questões políticas, por ele ser pró-Bolsonaro e ela pró-movimento #elenão. A cantora Zélia Duncan e a atriz Marina Ruy Barbosa foram outras das mais efusivas na defesa da expulsão de Prior.

Os anti-Manu recordaram declarações antigas dela - "pensa numa pessoa que odeia futebol, eu!" - e do próprio programa - quando disse que um casal formado por dois brancos loiros era "esteticamente agradável" porque combinava, no que foi considerado racista e, principalmente, incoerente.

Os anti-Prior, além de condenarem a tal "masculinidade tóxica", acusam-no de ser oportunista na aproximação a Babu.

"O que seria apenas um paredão emocionante - nos inquéritos de internet, Prior e Manu passaram dois dias em empate técnico - tornou-se reflexo da polarização política que rachou o Brasil. Uma terceira volta da eleição de 2018? Uma prévia do que vem por aí?", reflete ainda Tony Goes.

Eduardo Bolsonaro, apesar de propalar que não vê a TV Globo, escreveu nas redes sociais sobre o BBB. "Tem uma militante de esquerda concorrendo com um cara que é politicamente incorreto e ganhou apoio de quem odeia mimimi [pieguice, no calão local], muitos jogadores de futebol, por exemplo. Então, boa sorte Prior."

Horas depois, Fernando Haddad reagiu: "Nunca assisti BBB, mas estou tão feliz que o Prior saiu. Não sei de onde saiu, nem pra onde foi, mas tô feliz. Nem sei por quê", escreveu no Twitter.

Ouvido pelo Yahoo Brasil, o sociólogo Eduardo Viveiros de Freitas disse ficar preocupado com a relação excessiva entre entretenimento e política: "As pessoas estão vendo (ainda) notícia e informação como brincadeira. Estão misturando entretenimento com política, humor. Não estão levando a política a sério (...) Estão diminuindo a política quando ela é justamente mais necessária. Como diziam os gregos, a política é a arte de construir uma vida boa para todos."

Para a semana, sem episódios inéditos das novelas, sem jogos de futebol e sem poder aproveitar as noites quentes do outono do hemisfério sul em restaurantes e bares, os brasileiros, quase tão confinados, afinal de contas, como os participantes do BBB, prometem bater mais recordes de audiência no concurso.

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