Tailândia sem praia? Sim, é possível

Chiang Rai, Chiang Mai e Mae Hong Son. Esta é a Tailândia sem mar nem Banguecoque. Natureza, gastronomia, tradição, religião, ecoturismo e autenticidade. Um outro país que foge aos lugares-comuns.

Uma mulher varre lentamente o chão na Tailândia. Uma barcaça aporta de forma tranquila em Myanmar. Um homem joga a fortuna na mesa de um casino no Laos. Tudo no mesmo dia, ao mesmo tempo, separados por menos de um quilómetro, com o rio Mekong a servir-lhes de pátio, de estrada e de modo de vida. É assim no Triângulo do Ouro, onde três países se juntam e se separam. Tudo se conjuga neste ponto de paragem de turistas de todo o mundo, Chiang Sae, 800 quilómetros a norte de Banguecoque. Há hotéis de luxo e elefantes, memórias de guerra e refeições de cozinha tradicional, caminhadas na selva e amanheceres com bruma. Há uma representação de Buda que parece estar a bordo de um barco, sobre o rio. É mais um lugar para uma selfie nesta curiosidade geográfica.

Que se saiba, nunca brotou ouro destas montanhas, apesar do nome. Durante décadas foi outra a riqueza que saiu daqui para o resto do mundo: o ópio. Nestas florestas cultivou-se e aprimorou-se um produto proibido que contribuiu para a economia local. Hoje, já não é assim. "Onde há água, há trabalho. Onde há trabalho, vive a melhor gente, os agricultores" - diz Lah, a guia tailandesa de 46 anos que, fazendo jus à anatomia asiática, aparenta ter pouco mais de 30. Fala sem grandes oscilações no tom, num castelhano com sotaque argentino. Há 30 anos, os turistas não viajavam até esta região. Simplesmente, não era possível. Em 1988, tudo mudou. Foi nesse ano que a mãe do rei, a princesa Srinagarindra (nascida Sangwan Talapat), tomou uma atitude radical. Implementou um programa de troca de cultivos, favorecendo a agricultura tradicional e procurando erradicar o cultivo de papoilas na região do Triângulo de Ouro. Não foi fácil o processo, mas quase três décadas depois são a macadâmia, o tabaco e o café que fazem movimentar a economia local. Claro que um controlo rígido dos infratores também terá ajudado à mudança de mentalidades.

Em mais nenhum local desta área em redor de Chiang Rai a transformação está tão presente como no Doi Tung, a montanha da grande bandeira, numa tradução livre. Um enorme chalé suíço está lá no alto - a casa da mãe do rei. Na encosta, flores coloridas dispostas de forma geométrica. Há caminhos cuidados por onde circulam os turistas, na grande maioria nacionais. No centro do jardim, está uma estátua, dedicada à continuidade. É o exemplo de como o trabalho leva tempo, como se passaram três décadas do ópio à agricultura tradicional. Entre as árvores foi montado um circuito de arvorismo, com pontes suspensas, passadeiras e escadas. Há momentos em que estamos a mais de 30 metros do chão. Lá em baixo, a vegetação é densa. Ao fundo, os cumes das montanhas esbatem-se no nevoeiro criado pelas queimadas. Não se percebe onde acaba a Tailândia e começa o país vizinho. Nem que país vizinho será esse. Essa incógnita faz parte do encanto e a dúvida instala-se até à manhã seguinte, quando acordamos no Anantara Golden Triangle Resort.

Da janela do quarto, vê-se a bruma que sobe dos campos e fica a pairar até à copa das árvores de médio porte. São seis e pouco da manhã e o sol ainda não ultrapassou a linha das montanhas. Já falta pouco para descobrir outro "metal" precioso neste triângulo agora de bons costumes. São os elefantes que se tornaram atração turística. Mas não no terrível sentido dos paquidermes acorrentados, com selas de madeira no lombo onde turistas ocidentais com excesso de peso passeiam alegremente sem pensar nas consequências. Aqui a filosofia é diferente. Nenhum elefante é propriedade do hotel, mas sim do mahut, o tratador. Cada um precisa de comer diariamente cerca de 10% do seu peso, por isso os visitantes podem acompanhar o percurso a pé ou em cima do elefante (sem sela nem correntes), até ao rio, onde se banham. Fazemo-lo a pé, enquanto os gigantes se alimentam e nos olham com aquela imponência inteligente de quem anda cá há décadas e merece o nosso respeito.

A caminho da capital da província, Chiang Mai, está o Templo Branco, Wat Rong Khun. É um complexo privado de 23 edifícios projetados por um dos mais conhecidos artistas da Tailândia, Chalermchai Kositpipat. Chegam turistas de todo o mundo para ver a imponente obra. Tudo tem um significado, desde a vala a fazer lembrar o purgatório às figuras assustadoras que estão espalhadas pelo complexo. É no edifício principal que mais se sente o rasgo de criatividade do artista. Estão lá todos os elementos do budismo e há um respeito solene pelos mesmos, mas nas paredes estão também pintadas personagens e objetos que, segundo o artista, têm deixado marca na história da humanidade - Yoda da Guerra das Estrelas, Freddie Krueger do Pesadelo em Elm Street, Michael Jackson, um Angry Bird ou um telemóvel.

É em Chiang Mai, a segunda maior cidade da Tailândia, que chega ao fim a cordilheira dos Himalaias. À beira do rio Ping encontramos mais de 30 templos, entre eles o Wat Chedi Luang, no centro histórico. Foi finalizado em 1481, destruído parcialmente em 1545 e tem 98 metros de altura por 54 de largura. Lah, a guia, leva-nos à capela principal, explica-nos como nos devemos comportar, como devemos sentar-nos frente à representação de Buda sem lhe apontar - nem às pessoas que nos rodeiam - as solas dos pés, como nos devemos curvar três vezes e tocar com a cabeça no chão quando estamos sentados. A flexibilidade já não é o que era e não permite tal aventura, mas Buda com certeza não levará a mal. Afinal é um deus de amor, não de castigo.

É uma boa forma de começar a mergulhar em Chiang Mai, tratando do espírito. Depois, vem a Nimanhémin Road, Niman Road para os habitantes locais e para os condutores de tuk-tuk. E aí é tudo bem mais físico. A começar pelas bancas ambulantes de comida ao final do dia: espetadas, peixe frito, vegetais, legumes. Servem de complemento aos muitos bares, restaurantes e esplanadas que existem ao longo da rua. E não há qualquer mal em comprar petiscos nas bancas e comer à mesa, faz parte da rotina e todos ganham com o negócio.

A estrada que liga Chiang Mai a Mae Hong Son tem 1864 curvas. Nem uma a menos, nem uma a mais, dizem os especialistas, os guias turísticos e as t-shirts à venda nas bancas à beira da estrada. Selva e montanha, subidas e descidas que levam cerca de cinco horas a percorrer. Há motards que programam esta viagem para tirar o prazer de cada inclinação para a esquerda e para a direita. Nós vamos de carrinha, com várias paragens pelo caminho. As opções para encostar, ver a paisagem ou comer qualquer coisa são muitas nesta que é uma das mais remotas áreas da Tailândia.

Estima-se que pelo menos um milhão dos habitantes do país pertençam a tribos. E a maioria está nesta região. Cada uma tem o seu dialeto, umas vêm originariamente da China, outras da Birmânia ou do Laos.

Passamos por Pai, a mais turística cidade desta região que aposta o seu futuro no turismo de aventura e de natureza - caminhadas e rafting, por exemplo. A malha urbana é de casas baixas que albergam restaurantes, lojas de roupa, bares ou estúdios de tatuagem. A população estrangeira desloca-se em motorizada pelos diversos pontos de interesse: rios, grutas, miradouros. Há uma atmosfera hippie chic em Pai. Apetece ficar mais tempo, mas outros recantos nos esperam, como a aldeia Lisu, onde uma tribo tibeto-birmanesa se dedica à agricultura. Cultivam arroz e milho, vendem fruta, legumes secos e especiarias.

Esta é verdadeiramente a Tailândia profunda. Na aldeia seguinte, Banmaelana, visitamos o templo e ouvimos Thong, o guia de quarenta e muitos anos, a contar-nos como é a vida por ali. Leva-nos a uma recente aposta do turismo na região, as guest houses. Por cerca de cinco euros, o viajante pode ali dormir, num confortável colchão no chão. É a casa de uma das 170 famílias da aldeia. Pelo equivalente a mais dois ou três euros, terá as refeições incluídas. Há almôndegas de porco no wok. E um caril verde que cheira divinalmente. Ainda não são onze da manhã, mas o cheiro a bergamota, salsa, cebola, gengibre e pasta de camarão já abre o apetite. Sentamo-nos a comer e a conversar, algures entre o português, o tailandês, o inglês e o espanhol. Tudo regado com chá e sorrisos - esta é a terra deles, certo?

Chegamos a Mae Hong Son. Vamos diretos ao templo de Wat Chong Klang, bem no centro da cidade, junto a um lago. Ao lado há outro edifício religioso, o Wat Chong Kham. É por aqui que, ao fim do dia, se vai instalar um mercado ambulante de roupas e de comidas - sim, de insetos fritos também e acompanham muito bem com uma cerveja fresca. Com a noite, tudo vai ficar iluminado com gambiarras. Numa das margens do lago haverá cinema ao ar livre e, dos bares em redor, vai haver música até perto da meia-noite. No alto da cidade está o templo Wat Phra Tat e a pagoda Doi Kongmu. Tocamos com uma peça de madeira os sinos cerimoniais. Lah diz-nos que dá sorte e que nos permitirá aqui voltar um dia. Quanto mais depressa, melhor.

Ricardo Santos é editor da revista Volta ao Mundo

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