Que liberalismo é esse, então?!

Acontecimentos e factos recentes levam-me a considerar que o liberalismo - uma das metanarrativas que ajudaram a configurar o mundo nos últimos séculos - está presentemente em crise (conceitual, económica, moral e política), com consequências imprevisíveis, mas ameaçadoras. Não sou, certamente, o único a alimentar tais receios.

Pela parte que me cabe neste latifúndio, como canta Chico, confesso-me totalmente baratinado com tantas posições antiliberais por parte de autodeclarados e contumazes liberais, nos últimos tempos e em várias partes do mundo. Recorro, por essa razão, à retórica que me é naturalmente intrínseca - a angolana - para perguntar, sem aspas e com o ritmo cantado do povo, acentuando a palavrinha "então" no final da frase, para exprimir ao mesmo tempo dúvida e espanto:
- Que liberalismo é esse, então?!

A maka começa com a própria definição conceitual de liberalismo. Comummente, os teóricos distinguem o liberalismo económico (priorização exclusiva da iniciativa privada e esvaziamento tendencialmente total do papel económico do Estado) e o liberalismo social e de costumes (moral, sexual, religioso, etc.). Esses dois grandes modos, digamos assim, liberais não são necessariamente coincidentes. Pode ser-se liberal do ponto de vista económico e conservador do ponto de vista social e de costumes.

Estranhamente, e apesar de ter começado por ser uma filosofia política, as relações entre o liberalismo e a política são, hoje, pouco desenvolvidas teoricamente, talvez por esse seu entendimento ser uma espécie de dado adquirido. A exceção serão os Estados Unidos, onde a palavra "liberal" possui uma assumida carga política, sendo normalmente associada à ala mais progressista do Partido Democrata.

Outra hipótese para tentar explicar a lacuna acabada de referir é que, na realidade, os liberais (economicamente) sabem há muito tempo que o florescimento da iniciativa privada, ou seja, do capitalismo, não tem relação orgânica com o liberalismo político. A história está cheia de exemplos de ditaduras capitalistas onde a economia privada medrou. Em alguns casos, tais países foram considerados exemplos da "bondade" do (neo)liberalismo económico. É o caso do Chile.

A questão pode, entretanto, ser vista por outro ângulo: a inexistência de um vínculo direto e necessário entre liberalismo político e modelo económico explica também porque forças sociais não liberais do ponto de vista económico podem sê-lo do ponto de vista político, bem como no plano social e dos costumes. Mais do que "podem": devem. Parece indiscutível, na minha opinião, que a esquerda moderna, sem abdicar da sua visão social e de classe no terreno da economia, tem de ser política, social e moralmente liberal.

O que não pode ser é ingénua. Com efeito, começam a surgir no horizonte sinais consistentes de que a direita liberal pode voltar a aliar-se à extrema-direita, como aconteceu na Alemanha, tendo viabilizado, por isso, o advento do nazismo.

A subjugação do Partido Republicano norte-americano - o partido de Lincoln - a uma figura como Donald Trump é um desses sinais. Pelo menos para quem acompanhava à distância a situação nos EUA, teve de acontecer, por certo, um corte muito forte e inesperado na história política americana para explicá-lo teórica e intelectualmente. Justificá-lo e aceitá-lo é impossível.

O mesmo se pode dizer do surgimento do bolsonarismo no Brasil. Por mais erros e crimes que o PT ou alguns dos seus líderes tenham cometido - politicamente, o seu equívoco fatal foi ter-se deixado enredar pelas teias da secular corrupção do país -, a direita liberal será historicamente responsável por ter preferido aliar-se a Bolsonaro, ao invés de viabilizar uma solução política democrática para o país. A afirmação feita há tempos por Fernando Henrique Cardoso de que, "mal ou bem, Bolsonaro foi eleito" é, para usar um adjetivo generoso, confrangedora. Hitler também foi eleito e deu no que deu.

Aproveitando a circunstância de escrever num jornal português, não posso, para terminar, deixar de mencionar, como um exemplo dessa notória deriva do liberalismo ocidental, a atual polémica criada à volta da disciplina de educação e cidadania incluída no currículo escolar do nível secundário do país. Saber que líderes da direita liberal portuguesa - como os antigos Presidente da República e primeiro-ministro, respetivamente Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho - são contrários a uma disciplina que prepara os jovens para lidarem com problemas como a violência doméstica ou para a aceitação da diversidade confirma o aforismo da nossa língua comum: vivendo e aprendendo.

Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

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