O PCP é indispensável à democracia

Há já muito tempo que os votos do PCP pouco têm que ver com o projeto político alternativo que os comunistas tradicionalmente defendem. A maioria esmagadora de quem confia o seu voto no PCP não quer acabar com a democracia liberal e implementar um regime comunista. Atrevo-me a dizer que nem grande parte dos seus dirigentes. Também não será pelas posições bizarras em relação a regimes como o coreano, venezuelano, angolano e até chinês ou russo que votam ou deixam de votar no partido. Tudo isto pouco importa, há sim um reconhecimento por parte dos seus votantes na luta do PCP pelos seus direitos, pela melhoria das suas condições de vida e pelo respaldo que dá a alguma revolta contra um sistema que não os protege ou que intuem injusto.

Nessa linha, o PCP é um partido que sempre compreendeu o sentimento geral das pessoas, mesmo os que não eram seus votantes. Compreendia e atuava em função dessa perceção. A isso acrescentava uma enorme dose de pragmatismo: nunca deixou que as grandes questões políticas prejudicassem a ação política conjuntural. O que Álvaro Cunhal definia como a maior flexibilidade tática, no maior rigor estratégico.

Com a decisão de levar em frente a realização da Festa do Avante!, o PCP falhou nessas duas dimensões.
Os seus dirigentes - cada vez com menos qualidade e com menos ligação à realidade, acontece o mesmo nos outros partidos mas num que depende de funcionários seria sempre pior - não foram capazes de percecionar as consequências da pandemia no sentir das populações. São os seus apoiantes e as pessoas que reclamam defender que mais preocupadas estão com os ajuntamentos e com as possíveis consequências. São elas as que estão a ser as mais afetadas e as que não encaram com leveza a abertura. Foram elas as mais sacrificadas.

Esta é, no fundo, uma parte da fotografia da crise do PCP, a de estar a perder a capacidade de leitura do sentimento popular. A outra é a fragilidade comunicacional do partido e a sua incapacidade de se defender de ataques no espaço público. É fácil atacar o PCP.

Não vou sequer tentar mostrar que os comunistas não estão a beneficiar de qualquer estado de exceção, bem pelo contrário (basta lembrar o Grande Prémio de Fórmula 1, Moto GP ou os espetáculos por aí a correr), as imposições da DGS foram até desproporcionadas face a outros eventos. A Festa do Avante! cumpre todos os requisitos de saúde publica impostos no combate à pandemia e a ser proibida seria uma decisão sem qualquer base legal ou científica. No entanto, quem estivesse atento aos meios de comunicação social e às redes sociais parecia que tínhamos voltado ao gonçalvismo e o partido mandava no país. Se não ter ninguém do PCP no espaço mediático já é normal, pouquíssimas vozes independentes disseram o óbvio: a posição dos comunistas era mais do que defensável.

O ataque foi tão desbragado que as mesmas pessoas que defendem a abertura mais rápida da economia foram as que mais atacaram a realização do evento. Não há melhor prova de que o ataque à Festa do Avante! foi um mero pretexto para um ataque ao PCP.

No rescaldo do 25 de Novembro de 1975, Melo Antunes proferiu a célebre frase: o PCP era indispensável na construção do socialismo. Basta perceber o contexto histórico, atentar na composição do VI governo provisório e ouvir as declarações do major para sabermos que não era de socialismo que ele estava a falar, mas de democracia.

Este episódio diz mesmo muito sobre a crise dos comunistas portugueses.

O PCP continua a ser indispensável à democracia, mas para o continuar a ser tem de voltar a perceber quem representa, abrir-se de novo à comunidade e não continuar a fechar-se cada vez mais sobre si próprio. Claro que também dava jeito aprender que está tão sujeito a ataques como qualquer outro partido e que se não se defender no espaço público ninguém o vai fazer por ele.

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