O Brasil e a Europa

Há anos, escrevi no Diário de Notícias um artigo que intitulei "O Brasil e a Europa", de que o ilustre José Carlos Gentili se ocupara nas academias de História e das Ciências de Lisboa, publicando depois um livro intitulado O Futuro da Europa Passa também pelo Brasil? Presidente de honra perpétuo da Academia de Letras de Brasília, o seu interesse pelo tema de que se ocupou em 2017 deve atualmente exigir uma atenção indispensável aos que se ocupam da situação atual, não apenas no próprio Atlântico, mas na conjuntura da América Latina - América de Jefferson. Lembra que este amigo do padre Correia da Serra "temia" que o seu futuro (da América Latina) fosse constituído de uma sucessão de despotismos militares, durante longo tempo. Para eles, a América Latina não tinha a tradição anglo-saxónica de liberdades, nem mesmo a concorrência de denominações religiosas que impediram o estabelecimento por parte do Estado de alguma Igreja, e que portanto trabalhou em prol da liberdade religiosa e, consequentemente, em nome da democracia. Infelizmente, o nosso tempo confirmou a opinião de Jefferson, e a anarquia que ali se verificou confirma que estava certo na opinião, sendo hoje plural a convicção da ingovernabilidade injusta das populações submetidas a poderes que não seguem a justiça natural.

Curiosamente, num livro anterior de Gentili, intitulado Lagoa dos Cavalos (2012), citava a afirmação do padre Cícero Romão, de que "é preciso dar um basta à anarquia", uma afirmação bastante anterior à independência. Considerado Gentili um mestre nato, um interventor pioneiro e advogado vitorioso, a quem a capital do Brasil já tanto deve e tanto ainda deverá em altos e relevantes serviços, entre nós acompanhado com especial interesse pelos serviços prestados com dedicação e desprendimento à cultura, à universidade e à sua Academia de Letras de Brasília. A Universidade de Brasília foi onde prestou serviço o extraordinário Agostinho da Silva, na capital do futuro, para muitos sonho do considerado ser o melhor presidente do Brasil, que foi Kubitschek de Oliveira. Por esse tempo, a vice-presidente da Comissão Europeia, Federica Mogherini, não duvidara de que "está a ser posto em causa o propósito e até mesmo a própria existência da nossa União Europeia. Porém, os nossos cidadãos e o mundo precisam mais do que parece de uma União Europeia forte". Esta temática, que foi debatida, quanto ao Brasil, por iniciativa das academias das Ciências e da História, nesta data precisa de que os interventores, ainda ativos, voltem a um problema que parece apagado pela anarquia que se multiplicou na América Latina, que se agravou pela crise do covid-19, e pela desordem mundial que, há poucos dias, juntou à terrível explosão no Líbano as 439 novas infeções e seis mortes causadas pelo covid-19 em 24 horas.

A questão de agora não é se o futuro da Europa passa também pelo Brasil, nem admitir que os EUA podem ignorar as responsabilidades, agora mundiais, de que Jefferson falava com autoridade: trata-se de ser o globo que está em perigo quanto à manutenção dos vivos. A dureza do ataque epidémico não consente, nem justifica uma competição de poderes, como a que se torna principal entre os EUA e a China, tendo um general americano, Ben Hodges, antigo comandante na NATO, afirmado que dentro de 15 anos os dois países estarão em guerra. Embora seja o tempo que garanta que o presidente dos EUA será outro, se aquela previsão se concretizar não haverá na terra quem, seja quem ganhar o conflito, encontre dimensão e vida dispostas a aceitar as mesmas incontinências de hoje. A pergunta não é se o futuro da Europa passa pelo Brasil, é antes se ambos convergem na justiça natural que exige a proteção de todos os vivos, sem diferença de etnia, cultura, e território habitável. Dos centros culturais espera-se que assumam e alarguem a temática da história, e inspirem a reinvenção da ordem em paz das populações sobreviventes. A universidade e a Academia de Brasília contam com poetas, historiadores, romancistas, de que se espera que avaliem a lembrança, de algum modo apurada pela criatividade literária, da figura do primeiro eleito democraticamente, o regente do império, padre Diogo António Feijó. Não é possível consentir que a atual anarquia mundial, em face da grave ameaça do covid-19, encaminha para nova definição de "A Chegada das Trevas", que tem de ser impedida pela luta do "resgate dos valores", que tantas vozes assumem.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG