Nove passos para distinguir informação de fake news

A desinformação tenta manipular as opiniões, sobretudo em campanhas eleitorais como a que terminou esta semana em Portugal. Mas cada um de nós pode limitar os efeitos da propaganda falsa, fazendo duas perguntas simples

Paulo Pena
Este foi um dos exemplos que encontrámos de uma frase que circulava nas redes sociais, atribuída a Miguel Sousa Tavares, que nunca foi dita pelo jornalista. | foto D.R.
Esta frase, atribuída a um deputado, nunca foi proferida, mas foi usada para o criticar. | foto D.R.
Um 'site' criado na Malásia criou uma história falsa sobre uma eurodeputada portuguesa e conseguiu que a história fosse difundida em Malta. | foto D.R.
A história sobre um ex-concorrente do 'Big Brother' é um exemplo de 'clickbait', ou seja, um título que tenta levar os leitores a entrar no 'site', sem dizer nada sobre a história. | foto D.R.
'Bots' e 'trolls' são os nomes atribuídos aos perfis falsos, e manipuladores, nas redes sociais. | foto Investigate Europe

As notícias devem dizer-nos o que está a acontecer e porquê, permitindo-nos assim formar opiniões e agir, em sociedade. Se a informação que temos é falsa, as nossas opiniões serão frágeis, e quando muitas opiniões se baseiam em falsidades, em preconceitos, em erros ou falácias, a nossa vida comum - a democracia - está em risco. Numa era digital, em que mais e mais pessoas se informam a cada segundo, é fundamental sabermos distinguir uma notícia de um boato, bem como termos a capacidade de avaliar criticamente a informação que recebemos.

E isso deve preocupar-nos. Porque, na verdade, é o nosso nome que aparece quando sociabilizamos online. É a cada um de nós que cabe, antes de partilharmos qualquer coisa nas redes sociais ou de difundirmos qualquer informação a quem nos está mais próximo, fazer as perguntas certas. Uma no início, quando nos deparamos com uma história bombástica nas redes. E outra no fim, depois de termos reparado com atenção em alguns detalhes, simples.

A falsidade deixa rasto. Nos próximos passos mostramos como a desinformação pode ser detetada com alguma atenção.

Extraterrestres na Lua? Óvnis verdadeiros? Esta é uma típica página de 'fake news' de "ciência" em Portugal.© D.R.

Se o perfil que divulga a história não for de nenhuma pessoa que conhecemos, se a fotografia que usa parece ser falsa, ou se o nome do site que é partilhado não for de nenhum órgão de informação, desconfie.

'Bots' e 'trolls' são os nomes atribuídos aos perfis falsos, e manipuladores, nas redes sociais.© Investigate Europe

A história pode parecer plausível, pode até ser sobre um assunto real. Mas nos detalhes pode estar a desinformação. Se o título disser qualquer coisa a mais do que as notícias que leu, compare as versões e não acredite logo, antes de confirmar num meio de comunicação social.

Esta frase, atribuída a um deputado, nunca foi proferida, mas foi usada para o criticar.© D.R.
Este foi um dos exemplos que encontrámos de uma frase que circulava nas redes sociais, atribuída a Miguel Sousa Tavares, que nunca foi dita pelo jornalista.© D.R.

Esta é, muitas vezes, a evidência de que uma história não é de confiar. Os sites de informação, registados em Portugal, têm um endereço que termina em .pt, como o do Diário de Notícias (www.dn.pt). Se o site que divulga uma história sobre Portugal se chama notícias.br, é porque está registado no Brasil. Muitos sites que produzem desinformação em português estão registados fora do país.

Um 'site' criado na Malásia criou uma história falsa sobre uma eurodeputada portuguesa e conseguiu que a história fosse difundida em Malta.© D.R.

Muitas vezes, a desinformação usa métodos de disseminação automatizados. A tradução de textos, feita por aplicações online, é fácil de detetar. Geralmente, essa tradução é feita automaticamente para português do Brasil.

Entre as várias regras do jornalismo está a do direito de resposta pelos visados nas notícias. Se alguém é acusado de alguma coisa numa história, os meios de comunicação social têm a obrigação de ouvir a sua versão dos factos, e acrescentar no contexto da notícia, mesmo que isso lance dúvidas sobre aspetos fundamentais da informação. Nas fake news, as acusações surgem descontextualizadas e sem qualquer fonte noticiosa.

Nesta página de fake news, as histórias são apresentadas com um único ponto de vista, como se pode ver no exemplo de Greta Thunberg© DR

Este mecanismo, conhecido como clickbait, anuncia, à partida, que não estamos perante uma notícia, mas uma tentativa de levar as pessoas a entrar num site (e que lhe vão proporcionar rendimentos publicitários).

A história sobre um ex-concorrente do 'Big Brother' é um exemplo de 'clickbait', ou seja, um título que tenta levar os leitores a entrar no 'site', sem dizer nada sobre a história.© D.R.

A manipulação de imagens é um dos mecanismos mais frequentes de desinformação online. Pode ser difícil de detetar, mas há vários mecanismos disponíveis online para nos assegurarmos se uma foto é verdadeira ou falsa. Basta pesquisar em "imagens", no motor de busca. Para outros mecanismos ainda mais complexos de manipulação de vídeos, por exemplo (chamados de deep-fake), o melhor é duvidar, mesmo que veja, e ouça, alguém dizer alguma coisa estranha. Nesse caso, o melhor é voltar aos pontos 3 e 4 e duvidar, antes de acreditar.

Esta é a segunda pergunta que devemos sempre fazer, e porventura a mais importante. Porque a desinformação é um processo - tem os seus criadores, muitas vezes anónimos, os seus propagadores, que muitas vezes são máquinas, mas depende, em última análise, de pessoas concretas, como nós, para ser dominante e eficaz. Se aprendermos a ler a informação a que somos diariamente expostos - e que procuramos, também -, seremos mais capazes de a filtrar e escolher. Para percebermos se uma história é parcial, ao contrário da imparcialidade que devíamos exigir aos meios de comunicação na sua função de informar, deveremos saber colocar-nos algumas questões no momento da leitura. Se os factos apresentados não são baseados em nenhuma prova (citações, documentos, imagens, links), então a notícia pode ser ou parecer um rumor, uma especulação. No fim, o debate público depende sempre da nossa capacidade de escolher a informação que partilhamos.