As vidas paralelas do PCP e de Álvado Cunhal

No centenário da fundação do PCP o grande repórter do DN recorda os momentos em que se cruzou com o líder histórico do partido.

É hábito dizer que separar as histórias do Partido Comunista Português e de Álvaro Cunhal não é uma situação possível e quando agora se comemora o centenário do Partido fica mais claro o que os uniu e menos o que os separou. As notícias e as reportagens sobre o PCP e as entrevistas ao mais mítico secretário-geral comunista português que o DN publicou ao longo de décadas, e que hoje reproduz em destacável, confirmam esses percursos paralelos desde que o partido era jovem e o dirigente assumiu a liderança do PCP até à sua morte. Documentos para a História política de Portugal, muitas vezes arrancados a ferros pelos jornalistas que os escreveram, e complexos quando o objetivo era entrevistar Álvaro Cunhal, afinal estava-se perante duas entidades: o dirigente político e o protagonista que já entrara na História...

Encontrei-me três vezes nesse papel e o processo não era fácil. Primeiro, aguardar pelo "sim" de Cunhal. Segundo, preparar perguntas assertivas. Terceiro, aceitar que lesse a entrevista antes de ser publicada, condição apenas ao alcance do Presidente e do primeiro-ministro. Quarto, aproveitar a oportunidade para conseguir respostas sobre temas de que sempre fugira...

Na terceira entrevista forcei a última situação até ao ponto em que Cunhal pegou no gravador e o desligou, ameaçando que a conversa ficaria por ali se não voltasse ao assunto do encontro. Contudo, antes de acabar decidiu "oferecer" um fait-divers familiar: que tinha ido ao cinema num centro comercial com os netos e tinham comido pipocas...

Era um pormenor íntimo, daqueles que nunca revelava. Poucos mais consegui tirar-lhe, mesmo que tivesse corrido meio país atrás dele em campanhas eleitorais, congressos e atividades partidárias. Tentei tanto que no congresso em que se dava a sua sucessão aceitou almoçar comigo: uma refeição frugal de dez minutos, duas sandes e dois Sumol, e o mínimo de declarações porque estávamos de boca cheia...

Grande-repórter do DN e autor de Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal

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