Uma língua que cresceu 27 vezes

Em meados do século XIX, um navio americano com um embaixador itinerante a bordo aportou ao reino do Sião, a atual Tailândia, e pediu para se estabelecer relações diplomáticas. O monarca siamês, depois de algumas peripécias negociais, lá aceitou assinar um tratado de paz e amizade, mas além de escrito em tailandês e inglês o documento teria também obrigatoriamente versões em duas línguas internacionais importantes, o mandarim e o português. O diplomata dos Estados Unidos aceitou sem hesitar. E seguiu depois viagem para outros destinos asiáticos, só não indo ao Japão falar com os xóguns, porque morreu doente em Macau antes dessa etapa.

Se este episódio no Sião se tivesse passado no século XVI, quando o Índico era quase um mar português, talvez não surpreendesse, afinal a força naval e os interesses comerciais conjugaram-se nessa época para fazer do idioma do pequeno país europeu uma língua franca usada por meio mundo, como prova, por exemplo, até hoje sobreviver no bahasa indonésio palavras como boneka, queso ou janela. Contudo, o sucedido em 1833 com Edmund Roberts, enviado do presidente Andrew Jackson, serve para contrariar ideias feitas de que do legado das Descobertas, finda a época de ouro, pouco Portugal teria a ganhar, seja no século XIX seja hoje. Afinal, como ignorar que tanto os 200 milhões de brasileiros como as novas gerações do pequeno Timor que aprendem português fazem parte de um todo que, de alguma forma, nos distingue certamente e nos favorece potencialmente?

Será possível, e agora pensando sobretudo na economia, que as empresas portuguesas não tenham vantagem em poder usar uma língua que é falada por países que juntos equivalem ao sexto PIB na hierarquia das potências económicas? Uma língua que é das mais usadas na internet? Uma língua que é a mais falada no hemisfério sul? Uma língua que hoje conta com 260 a 270 milhões de falantes, 27 vezes mais do que aqueles que vivem no nosso pequeno retângulo europeu?

Meia centena de universidades chinesas têm cursos de Português. E cerca de 5 mil estudantes estão a procurar conhecer uma língua que, perceberam, lhes traz oportunidades extras à da aprendizagem do inglês. Ambicionem eles trabalhar no Brasil, em África ou na Europa, é certo que trarão sempre mais-valias para o mundo de língua lusófona, logo para Portugal também.

Hoje, pelo segundo ano, o 5 de maio é o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Citando o embaixador português na UNESCO, é uma língua que tem a vantagem de ser pluricêntrica, que se vai construindo em diferentes países, em continentes diversos, uma língua, diz António Sampaio da Nóvoa, citando por sua vez Rui Knopfli, que "é um caudal de um rio e que esse caudal é o resultado dos seus afluentes. E tanto melhor quanto mais tumultuosos".

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