"IA não são robôs que fazem coisas fixes. Já está no nosso dia-a-dia"

Patrícia Xufre, professora da Nova SBE, defende que sistemas educativos têm de ser repensados com lógica, raciocínio e criatividade entre matérias de ensino obrigatório. E que a formação ao longo da vida tem de ser regra.

Através de uma parceria exclusiva com a Universidade de Helsínquia e a Reaktor, a Nova SBE está a lançar em Portugal e em língua portuguesa o Elements of AI - um curso totalmente online e gratuito criado com o objetivo de "desmistificar e democratizar a Inteligência Artificial (IA)" e oferecer, ao maior número possível de pessoas, "ferramentas para participar na construção do futuro com esta tecnologia".

Porque é que é tão importante democratizar a IA nestes tempos?
Hoje, o conceito de Inteligência Artificial é usado frequentemente por todos mas apenas uma minoria sabe de facto do que se fala quando nos referimos a ele. Democratizar a IA é colocar este conhecimento ao alcance de quem o queira. Inteligência Artificial não é só um termo para nos referirmos a robôs que fazem "coisas fixes". Apesar de não ser algo recente, com a grande revolução tecnológica que se tem sentido nas últimas décadas, a IA faz hoje parte do dia a dia - da sua presença na indústria, a sistemas de recomendação, como os utilizados pela Netflix ou o Spotify, banca e mercados financeiros, definições de rotas (Google Maps ou Waze), entre muitos outros. É por isso que é importante que todos saibamos do que se trata e em que situações se pode ou não utilizar.

O desafio digital está ainda longe de atingir o potencial, nomeadamente no que respeita aos dados?
Infelizmente, é verdade. Muitas empresas recolhem informação (umas melhor do que outras) mas não só não sabem como criar valor a partir dela, como por vezes fazem um uso errado. Atualmente, há plena consciência de que a IA, assim como outras tecnologias emergentes (Internet of Things, por exemplo), pode potenciar a transformação para melhorar a sociedade e a economia. É contudo necessário criar, ao mesmo tempo do avanço das tecnologias, regulamentação que permita responder aos desafios que esses progressos acarretam. Este é um dos pontos fulcrais da agenda da Comissão Europeia desde abril de 2018, ano em que foi definido o "Plano Coordenado para o Desenvolvimento e Utilização da IA na Europa".

Como é que nasce esta formação da Nova SBE - e pode ajudar?
Na primavera de 2018, a Universidade de Helsínquia e a empresa Reaktor juntaram-se com o objetivo de conferir aos cidadãos europeus meios que lhes permitam sair fortalecidos da sua relação com a IA, ao invés de serem ameaçados por ela. Em conjunto, criaram o curso "Elementos de IA" para ensinar os princípios fundamentais a pessoas de meios muito diferentes.

O que vos levou a oferecê-la online e gratuitamente?
O nosso objetivo é que todos os portugueses em idade jovem e adulta possam usufruir deste conhecimento, do seu potencial e estarem alerta para os eventuais riscos associados. Só na posse deste conhecimento podem tomar verdadeiramente decisões informadas. Com este curso, queremos desmistificar o que se entende por Inteligência Artificial, exemplificando em que situações pode (ou não) ser utilizada e como se pode dar os primeiros passos nesta aventura de criação de modelos baseados em IA. A parceria permite-nos fazer chegar de forma muito simples o conhecimento a qualquer pessoa. Por outro lado, sendo um curso online e gratuito, os interessados no tema podem realizá-lo ao seu próprio ritmo e em qualquer lugar.

A IA é ainda vista precisamente como uma ameaça - aos empregos que temos, às funções que desempenhamos. Mas pode ajudar-nos, na medida em que nos liberta para funções mais criativas?
A IA caracteriza-se essencialmente pela sua autonomia - a capacidade de executar tarefas em ambientes complexos, sem a orientação constante de um utilizador e pela sua adaptabilidade - e capacidade de melhorar o seu desempenho, ao aprender com a experiência. Por isso, não penso que a IA seja uma ameaça às funções atuais que desempenhamos, mas sim uma ferramenta que pode ser usada como complemento ao nosso trabalho e até mesmo algo que nos ajude a melhorá-lo. Por exemplo, há estudos que mostram que existem ferramentas baseadas em IA que têm um excelente desempenho na leitura de raios-X e no diagnóstico de problemas, libertando os médicos para que se concentrem na resolução de questões mais complexas em que o pensamento criativo é exigido. Posto isto, acredito que embora certas ocupações venham a desaparecer com a evolução da tecnologia, em muitas áreas essas ferramentas irão certamente melhorar a qualidade do trabalho permitindo que as pessoas se concentrem em tarefas mais estratégicas, gratificantes e de criação de valor.

Que custos terá em termos de adaptação a novas profissões - e que papel tem a formação nisso?
O mercado de trabalho irá seguramente sofrer alterações devido à IA e aos avanços da tecnologia. Existirão tarefas que desaparecerão, muitas mais irão surgir. É preciso que todos, desde os órgãos governamentais, às empresas e aos próprios indivíduos, estejam conscientes das alterações que daí resultam. Se por um lado, será preciso preparar as novas gerações para um mercado de trabalho onde a IA estará cada vez mais presente, é preciso também criar programas de requalificação de adultos. O sucesso destes irá depender obviamente da estreita colaboração entre o mundo académico e o empresarial no desenvolvimento de soluções criativas que correspondam ao que virão a ser as necessidades do mercado de trabalho. Os próprios sistemas educativos deverão ser repensados e skills como o pensamento lógico, raciocínio, curiosidade, criatividade, liderança, entre outras, deverão fazer parte das capacidades a desenvolver no ensino obrigatório. Ao nível do ensino superior, é recomendável também que a oferta educacional seja mais flexível e permita que as pessoas atualizem conhecimentos de forma regular e de acordo com as suas necessidades. Em suma, os indivíduos devem cada vez mais tomar consciência de que a aprendizagem e a aquisição de novas qualificações ao longo da vida serão essenciais para a sua vida profissional.

Já devíamos estar a levar a cabo uma transformação que permitisse a formação para essas novas funções?
Sim, tendo em atenção a própria demografia do país, o governo em conjunto com o meio empresarial deveria identificar as áreas mais suscetíveis de serem afetadas pela automatização e medidas a tomar de forma a ajudar a (re)qualificação desses indivíduos. É preciso, como já referi, possibilitar a aquisição de novas competências ao longo da vida laboral em função das necessidades que as novas tarefas exigem. Resumindo, devemos preparar-nos para que a força laboral seja adaptável ao longo do tempo, de modo a estar o mais preparada possível para o que o futuro com IA nos traz.

(Informações sobre o curso aqui)

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